Desaceleração econômica da América Latina

O inimigo é a insegurança

Banco Central alerta para o efeito desestimulante da criminalidade

Um policial mexicano nas redondezas das valas de Iguala.
Um policial mexicano nas redondezas das valas de Iguala.JORGE DAN LOPEZ (REUTERS)

Os capitães de barco sabem bem. Nem o mar nem o tempo nem a própria embarcação: em uma travessia não há inimigo mais venenoso do que o desânimo da tripulação. É a tempestade interior. A mesma que agora atravessa o México, um país que, depois de ter concluído uma profunda reforma de suas estruturas produtivas, poderia olhar o horizonte com calma enquanto seus adversários encalham em águas escuras. Os anos dourados da exportação de matérias-primas que beneficiaram seus rivais chegaram ao fim. O Brasil se estancou. Argentina e Venezuela, que em um passado remoto chegaram a competir com o gigante manufatureiro, entraram na espiral da recessão. A América Latina chegará até mesmo a ver contrair-se este ano seu crescimento para um tímido 1,3%, quase a metade do México (em torno de 2,4%, segundo o Governo). Mas nada disso basta.

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O espanto pela barbárie de Iguala catalisou uma inesperada crise emocional. A ideia de que a impunidade e a corrupção continuam imperando impôs neste país de 120 milhões de habitantes a sensação de que, no final da jornada, está à espera o mesmo ponto de partida. “Há um clima de pessimismo que pode afetar a economia. O papel presidencial se apagou e isso tem efeitos em cadeia. Nota-se uma perda de confiança”, afirma Raúl Feliz, professor do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas (CIDE)

Nesse ambiente, de pouco adianta que o FMI preveja que no próximo ano seu PIB vá triplicar o crescimento de 2013 ou que os EUA, que absorvem 80% de suas exportações, avancem a toda a velocidade. Nem sequer consola o fato de que o quadro macroeconômico, incluindo a inflação, as taxas de câmbio e as reservas, mostre uma estabilidade à prova de furacões. “Nossos resultados são excelentes este ano, mas fazia muito tempo que eu não via um pessimismo assim. É como ter escalado uma montanha e ver que ainda falta outra”, diz um alto dirigente de banco.

O efeito desse desencanto é impossível de calcular. Mas os alertas estão aí. E o primeiro procede da violência. O governador do Banco do México, Agustín Carstens, pouco dado a arroubos, reconheceu que a insegurança se tornou um fator de “desestímulo” e sua última pesquisa revela que já é percebida como o principal problema econômico entre os analistas. Alguns indícios, como a queda de 60% do turismo em Acapulco (no violento Estado de Guerrero), indicam a magnitude que essa bola de neve pode adquirir.

O efeito deste desencanto é impossível de calcular. Mas o primeiro alerta procede da violência

Na gênese do desânimo não só figura a reaparição do espectro da ultraviolência. A economia mexicana arrasta uma longa história de fadiga. Desde 1981 seu crescimento médio se limitou a 2,4% do PIB. Em um país com 52 milhões de pobres, o salário mínimo figura no último lugar na OCDE, o poder aquisitivo não deixou de cair em duas décadas e a reforma fiscal, a primeira das grandes reformas estruturais, provocou um profundo mal-estar na classe média por causa do aumento dos impostos.

Esse quadro foi completado pela brusca queda do preço do petróleo, o principal esteio do Estado Mexicano. Além disso, o desabamento coincidiu com a saída de cena da principal reforma: a histórica abertura do mercado do petróleo ao capital privado e estrangeiro. O golpe, cujas consequências ainda será preciso avaliar, propiciou uma perfeita tempestade.

“Como diz o refrão mexicano: ‘Nem muito muito, nem tão tão’. Não se podia gerar um crescimento fulgurante do nada nem tampouco agora uma onda de pessimismo vai derrubar a economia. As reformas darão um impulso adicional e permitirão situar as cifras do PIB na parte superior do ciclo”, afirma Joost Draaisma, analista do Banco Mundial.

Para reativar a economia, o Governo pôs em marcha um gigantesco plano de gastos (590 bilhões de dólares em quatro anos, 1,5 trilhão de reais) e se espera que o investimento estrangeiro entre em abundância nos próximos anos. As agências de qualificação de risco da dívida confiam em que o México aguentará o tranco. Talvez consiga. Mas a bordo falta alegria. E qualquer capitão sabe o que isso significa.