Fórmula 1

Fernando Alonso, o amante ressentido

Piloto espanhol abandona o sonho de fazer parte da história lendária da escuderia italiana

Fernando Alonso, em Abu Dabi.
Fernando Alonso, em Abu Dabi.

Chama atenção como a saída de Fernando Alonso da Ferrari foi interpretada pela imprensa especializada como um divórcio. Em um esporte onde a diferença entre o bom e o ruim se mede em décimos de segundo, onde não há muitos exemplos (para não dizer quase nenhum) de cavalheirismo no asfalto, onde para entender o que aconteceu em cada corrida é preciso falar com engenheiros, descrever um mero rompimento contratual como uma questão sentimental parece excessivo. E, no entanto, todos os especialistas que escrevem sobre Fórmula 1 concordam em afirmar que Alonso amava loucamente a Ferrari antes de cair em seus braços. Era o sonho da vida dele. O motivo que o levou a dizer, durante seu primeiro ano em Maranello: “Me levanto a cada manhã com um sorriso no rosto”.

Alonso vai embora triste. Justifica por um lado seu desencanto, e por outro mostra, entre lágrimas, seu apreço por aqueles que o acompanharam na equipe. Sabe que deu à Ferrari o seu melhor. Seus melhores anos. Sim, algo como um amante que tentou de tudo e não foi correspondido.

Os títulos de Fernando Alonso são assunto do passado. Cinco anos na Ferrari lhe deram três vice-campeonatos e uma última temporada em branco, sem vitória alguma. Este é o problema. Passaram-se oito anos desde que conquistou seu último Mundial, e neste longo tempo apareceram outros pilotos mais jovens que superaram ou igualaram suas conquistas. Sebastian Vettel tem quatro títulos com 27 anos, Lewis Hamilton acaba de conquistar seu segundo título com 29 e um carro que parece ser invencível. Alonso está com 33. Quantos anos ainda tem como verdadeiro competidor? A opinião geral fala de duas temporadas, aqueles que confiam cegamente nele pensam que é tão excepcional que pode prolongar um pouco mais esse estado de graça, que lhe permite tomar decisões a 300 quilômetros por hora enquanto seu corpo, apertado em um habitáculo que é um banco de tortura, suporta temperaturas de até 50 graus e sua cabeça aguenta algo parecido ao peso de um menino de oito anos pendurado em seu pescoço cada vez que faz uma curva. Isso é ser piloto de Fórmula 1.

Flavio Briatore e Fernando Alonso, durante um jantar, em uma foto que deu muito que falar.
Flavio Briatore e Fernando Alonso, durante um jantar, em uma foto que deu muito que falar. (Twitter)

A temporada foi a crônica de um divórcio anunciado. Quatro anos haviam se passado desde aqueles dias do sorriso sincero ao despertar. À época, Alonso vivia na Europa. Agora, se mudou para Abu Dhabi, um local de residência pouco comum para um piloto de corrida, onde vive em um arranha-céu de luxo na companhia de sua atual parceira, a modelo russa Dasha Kapustina, numa relação que ninguém apostava há dois anos. Em um vídeo promocional do banco Santander, Alonso explicou como aquele lugar permitia economizar muitas horas de voo, uma vantagem para um homem que havia entrado na casa dos 30 anos. Disse assim: “Já não tenho o corpo de um rapaz de 19 anos que não se importa em pegar quatro aviões para ir a uma corrida”. Essa decisão é coerente com sua obsessão por cada detalhe, com sua dedicação exclusiva ao trabalho, que fez dele um piloto excepcional: uma vez que boa parte do calendário de corridas foi transferido para o Oriente (com grandes prêmios em Abu Dhabi, Barein, China, Japão, Malásia, Cingapura e Austrália), sair diretamente de Abu Dhabi significa economizar muitas escalas. “Disse que chega a economizar 20 dias de viagem”, contou um colaborador.

Outra vantagem: Alonso explicou que seu corpo começa a sofrer os efeitos de tantos anos de competição, e Abu Dhabi permite a ele fazer sua preparação física ao ar livre, especialmente natação e ciclismo. E ainda é possível levar uma vida longe dos paparazzi, uma de suas grandes obsessões. Um desconhecido Alonso divulga fotos particulares com Kapustina pelo Twitter, seu meio oficial de comunicação. Homem prático que é, acabou descartando Instagram e Facebook, e ficou apenas com esse único canal.

Fernando Alonso tem uma imagem de pessoa difícil, talvez contra a sua vontade. Pessoas do seu entorno garantem que ele continua tendo relações com amigos de escola como prova irrefutável de que é um homem leal. Sabe-se pouco sobre seus verdadeiros amigos, porque vive em um círculo fechado, longe das celebridades que o visitam em algumas corridas, como o rei Juan Carlos. Há alguns dias, foi divulgada uma foto polêmica de um jantar entre Alonso e Flavio Briatore, que deu muito o que falar. Afinal de contas, Briatore, com sua imagem de playboy desgastado e seu jeito de padrinho, é o único homem que o levou aos títulos mundiais, o único que deu a Alonso o que ele precisava para ser campeão. Na foto, Briatore tem entre os dedos um cigarro apagado, e na mesa há um maço de Marlboro na posição vertical: o circuito inteiro leu que ambos se despediam de Marco Mattiacci, o diretor esportivo da Ferrari, que deixou a escuderia depois de 100 dias no cargo e foi substituído por Maurizio Arrivabene, um alto executivo procedente da Phillip Morris, fabricante do Marlboro.

Fernando Alonso com Emilio Botín (presidente do Banco de Santander de 1986-2014) em uma foto de arquivo 2010.
Fernando Alonso com Emilio Botín (presidente do Banco de Santander de 1986-2014) em uma foto de arquivo 2010.Jose María Rubio (EFE)

A imprensa italiana estava convencida que a saída de Alonso deixaria alguma vítima na Ferrari. Alonso é um mau inimigo, como ficou demonstrado na McLaren quando decidiu ir embora antes do tempo, com acusações muito escabrosas. Por exemplo, os jornalistas se dividem entre os que estão e os que não estão em sua lista negra, não há meio termo. Em Oviedo, ainda se fala dos esforços feitos por ele para manter em segredo seu casamento em 2006 com a cantora Raquel del Rosario e suas ameaças quando era surpreendido em alguma viagem particular. Atualmente, no entanto, se mostra mais acessível e comunicativo, enquanto vive a dor de seu divórcio com a Ferrari.

O que aconteceu entre Alonso e a Ferrari? Não é um problema de relacionamento: a Ferrari não se dirigiu a nenhum outro piloto sem ter deixado claro antes que Alonso tinha prioridade. O problema, se o reduzimos ao lado sentimental, é que Alonso é um piloto tão extraordinário quanto um homem que toma algumas má decisões fora das pistas. A Ferrari acabava de perder toda a estrutura montada por Schumacher e os regulamentos técnicos não estavam sendo favoráveis à equipe. E Alonso não soube ver isso.

A Ferrari havia se tornado antiquada, apesar de bater recordes com o presidente Luca di Montezemolo. Mas uma coisa era o marketing e outra o carro de corrida. Montezemolo multiplicou os ganhos vendendo menos carros, tornando seus modelos ainda mais exclusivos, ao alcance de cada vez menos multimilionários dispostos a pagar muito dinheiro. Mas essa estratégia comercial de sucesso não servia para o circuito de Fórmula 1. “A Ferrari é um sonho”, dizia o presidente em cada evento.

Fernando Alonso e sua noiva Dasha Kapustina.
Fernando Alonso e sua noiva Dasha Kapustina. (Cordon press)

Também era um sonho para Alonso. Foram dias de imensa felicidade quando ganhou sua primeira corrida pela Ferrari. Poderia ter conquistado o Mundial de 2010. Ou o de 2012. Mas a sensação principal era de que Alonso estava acima do carro que pilotava: a cada temporada, Alonso terminava muito à frente de seu companheiro de equipe. Aconteceu com Felipe Massa, e neste ano com Kimi Raikkonen: Alonso ficou 16 vezes na frente e o finlandês apenas uma, diferença que não ocorreu em outra equipe. Assim foram acontecendo as coisas ao longo de 2014. Também não dava frutos o apoio do falecido Emilio Botín, muito envolvido neste projeto. Um dia, o ex-campeão Niki Lauda disse o que muita gente pensava: “Sem Alonso, a Ferrari não é nada”. Seus esforços para melhorar o carro não eram recompensados pelos resultados dos engenheiros. Na verdade, a Ferrari havia começado a sua decadência. Era uma aristocrata em declínio. E Alonso não soube ver. Estava louco para fazer parte da sua lenda.

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