Tribuna
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Os 25 anos da queda do Muro de Berlim, vistos de Pyongyang

Hoje, o mundo parece mais livre e interconectado. Ao mesmo tempo, muitas oportunidades foram perdidas, novos e velhos conflitos se sobrepuseram

Tive a oportunidade única de vivenciar, na Alemanha e na Rússia – países nos quais servi duas vezes – dois dos acontecimentos mais dramáticos do século XX: a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética. Passados vinte e cinco anos desde a queda do muro, o mundo parece mais livre e interconectado, barreiras foram desmanteladas e criadas novas oportunidades. Ao mesmo tempo, muitas oportunidades foram perdidas, novos e velhos conflitos se sobrepuseram, e muitos preconceitos e ressentimentos não foram superados.

Os temores de que uma Alemanha reunificada e forte pudesse novamente ameaçar a estabilidade da Europa se mostraram infundados e o país continuou a concentrar-se no europeísmo que havia abraçado logo após a guerra. Em 1990, quando a Alemanha se tornou finalmente uma nação plena, o estado-nação já era visto por muitos como um modelo ultrapassado. Para que pudesse despertar algum nacionalismo, a “Wende” chegou, historicamente, tarde demais.

Passado um quarto de século desde a queda do Muro de Berlim, vemos a geopolítica à moda antiga voltar à tona, com a estabilidade global ameaçada nos dois extremos da Eurásia

Na Rússia e fora dela, poucos acreditavam que o declínio devastador da antiga superpotência pudesse ser revertido, especialmente sob a presidência de um desconhecido que havia chegado ao poder de forma tão inesperada. O Ocidente não estava preparado para um retorno tão rápido da Rússia ao cenário internacional, esquecendo talvez a frase lapidar do “Chanceler de Ferro” alemão Otto von Bismarck, de que “a Rússia nunca é tão forte quanto gostaria de ser nem tão fraca quanto os outros gostariam que fosse.” O fato é que a Rússia tem sido e continua sendo vista como rival do Ocidente ao longo do tempo, independentemente da forma histórica que assuma.

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A crise na Ucrânia sugere que, do ponto de vista da política de segurança, a Guerra Fria persiste, e demonstra que a relação entre o Ocidente e a Rússia continua marcada pela desconfiança. Desde o colapso da União Soviética, Washington tem adotado uma postura triunfalista, deixando de aproveitar importantes oportunidades para mais segurança, cooperação e desarmamento com Moscou. A expansão da OTAN, incluindo estados que foram parte da União Soviética, não levou em conta o interesse nacional da Rússia. A Rússia, por siua vez, perdeu a oportunidade de se reconciliar com o seu passado soviético e construir uma relação de confiança com a Europa Oriental, dissipando temores históricos que persistem naquela região.

Passado um quarto de século desde a queda do Muro de Berlim, vemos a geopolítica à moda antiga voltar à tona, com a estabilidade global ameaçada nos dois extremos da Eurásia. Muros como divisores de mundos continuam a existir entre Estados Unidos e México, Israel e Palestina, e entre as duas Coreias. As mudanças ocorridas na Europa após 1989 criaram a expectativa de que todos os regimes comunistas inevitavelmente soçobrariam ou mudariam, como ocorreu na China e no Vietnã. Mas a divisão da Coreia nos remete à triste realidade de que - apesar da grande vitória que a queda do Muro de Berlim representou sobre uma utopia inconciliável com a liberdade e com o mundo real – aqui, onde a Guerra Fria começou, ela nunca acabou.

Roberto Colin, Embaixador do Brasil na República Democrática Popular da Coreia (Bonn, 1986-1989; Moscou, 1989-1994; Moscou,1998-2001; Berlim, 2007-2012; Pyongyang, 2012- ?). *Este artigo expressa apenas opiniões pessoais e não traduz posições oficiais do Governo brasileiro.

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