Oncologistas alertam para o ‘efeito Jolie’ sobre o câncer de mama

A decisão da atriz aumenta os pedidos por mastectomias duplas desnecessárias A cirurgia é apenas aconselhada se o câncer for hereditário, cerca de 5% a 10% dos casos

Médico observa uma mamografia no hospital Virgen del Rocío, em Sevilha.
Médico observa uma mamografia no hospital Virgen del Rocío, em Sevilha.CRISTINA QUIDER

A mastectomia dupla preventiva de Angelina Jolie continua muito presente nas consultas a oncologistas, quase um ano e meio depois de ter sido anunciada. A decisão da estrela hollywoodiana de divulgar que tinha optado por retirar as mamas teve efeitos positivos, como uma maior conscientização sobre a doença e os benefícios do aconselhamento genético. Mas também fez subir o número de pacientes com câncer de mama que solicitam tratamentos agressivos desnecessários, como remover completamente o seio e até estender essa opção à outra mama que não está atingida pelo tumor.

Enquanto isso, os profissionais se esforçam para explicar que a mastectomia dupla é uma alternativa de tratamento extrema e excepcional, limitada a tumores de origem familiar, como é o caso da atriz norte-americana, e que são raros, representando de 5% a 10% dos casos. “O assunto passou do limite”, relata Ana Lluch, chefe de Oncologia do Hospital Clínico de Valência e uma das maiores especialistas em câncer de mama da Espanha. É a consequência indesejada do efeito Jolie.

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A noção de que a mastectomia dupla é a melhor solução se espalhou tanto que Lluch agora dedica boa parte de suas consultas a explicar as particularidades do caso de Jolie e a convencer suas pacientes de que essa intervenção tão radical não é necessária. “Só nessa semana isso me aconteceu duas vezes, e com mulheres jovens”, conta. “Chegamos a um ponto em que uma porcentagem alta de mulheres quer retirar a outra mama quando não há nenhuma recomendação para isso”, acrescenta. Seu colega Agustí Barnadas, chefe de Oncologia do Hospital de Santa Cruz e São Paulo, em Barcelona, concorda: “Notamos isso principalmente entre pacientes jovens, mais sensibilizadas pela atriz, e menos entre as mais velhas. São pessoas que estão dispostas a diminuir o risco o máximo que puderem e a passar por isso [a dupla remoção], mesmo que seja desnecessária.”

A maioria dessas pacientes em quem foi detectado um tumor sequer sabe que Angelina Jolie não estava com câncer, mas sim apresentava uma altíssima probabilidade de vir a ser vítima da doença. Um pequeno número de tumores é de origem hereditária. Nesses casos, herda-se uma mutação genética que predispõe ao desenvolvimento do tumor. Os médicos da atriz detectaram nela uma alteração no gene BRCA1 que, como ela mesma explicou, fazia disparar para 87% o risco de desenvolver o câncer de mama ao longo de sua vida e lhe dava 50% de chances de ter câncer no ovário. De fato, a mãe e a tia da estrela morreram de câncer no ovário e na mama, respectivamente.

É ao se deparar com esse perfil genético que os especialistas oferecem a possibilidade de se submeter a uma mastectomia preventiva, mas essa não é a única opção. Há quem prefira a quimioprevenção: tomar uma medicação, como o tamoxifeno, para reduzir o risco. Ou quem escolha um acompanhamento abrangente e minucioso, alternando mamografias e ressonâncias para detectar precocemente a presença do câncer e combatê-lo em seu estágio inicial, quando ele é mais simples.

A terceira alternativa diante do câncer familiar, além da quimioprofilaxia e dos exames preventivos, é aquela pela qual Jolie se decidiu: a sala de cirurgias. A atriz nem chegou a optar por uma mastectomia radical – a retirada total das mamas -, mas sim por uma adenomastectomia bilateral, uma intervenção que remove as glândulas mamárias e preserva apenas a pele, os mamilos e as aréola. Por isso, junto com a prótese, o efeito estético é superior se comparado com a eliminação e a reconstrução da mama.

Esses casos costumam ser identificados quando o médico elabora o histórico clínico e familiar das novas pacientes. Fatores como antecedentes diretos (irmãs, mãe, tias), bilateralidade ou tumores no tecido mamário dos homens da família são motivos suficientes para que se recomende um aconselhamento genético, para buscar a origem da doença e alertar o resto dos familiares.

Quando não existe um risco tão definido como os de Angelina Jolie, sua mãe e sua tia – o que ocorre na grande maioria dos diagnósticos – não há necessidade de adotar medidas tão contundentes e traumáticas. Mas é difícil frear o arrastão motivado pela atriz. “Temos que combater o efeito icônico de Jolie. As pessoas pensam que se uma pessoa tão famosa, tão rica e tão poderosa optou por isso [a retirada dupla], é porque é o melhor que se pode fazer”, diz Miguel Martín, presidente do Grupo Espanhol de Pesquisas em Câncer de Mama e chefe de Oncologia do Hospital Gregorio Marañón, em Madri.

“Nós conversamos com as pacientes cujo câncer não é de origem hereditária, explicamos que o caso delas não é o mesmo de Angelina Jolie. Mas mesmo insistindo, algumas já vêm com a ideia de que o melhor é retirar as mamas, até quando não há indicação clínica. É o que vejo constantemente nas consultas”, acrescenta Ana Lluch.

Já Fernando Martínez Regueira, cirurgião especialista em patologias mamárias do Hospital Clínico de Navarra, destaca que o maior impacto do efeito Jolie foi o aumento do interesse pela possível origem genética do tumor. Em seu centro, o número de consultas genéticas passou de 22, em 2013, a 49, ao longo deste ano.

Martín cita estudos nos Estados Unidos que indicam um aumento no número de mastectomias duplas, uma circunstância para a qual a poderosa Sociedade Americana de Oncologia Clínica também alertou, e que é anterior à decisão de Jolie. O médico vincula a situação ao caráter essencialmente privado da saúde norte-americana. “Ganha-se mais por duas cirurgias do que por uma”, explica. Na Espanha, não há registros do número de mastectomias realizadas, mas ele destaca que nos serviços públicos essa intervenção só é feita se necessária. “É um processo muito protocolado”, diz, esclarecendo que a intenção é recorrer a uma cirurgia o mais limitada possível.

É verdade que uma mulher que tenha tido câncer em uma das mamas tem uma probabilidade mais alta que a média da população de desenvolver um tumor na outra mama, mesmo que não tenha herdado o mesmo gene que Jolie (BRCA1) ou o BRCA2, que também incrementa o risco de câncer de mama e ovário. Segundo Lluch, esse índice é de 15% a 20%. Também é verdade que não é fácil conviver com o sofrimento que a doença pode gerar, a tensão pelos exames da mama saudável e a incerteza dos resultados.

Mas, em todo caso, ainda não há evidências de que a intervenção dupla seja a melhor resposta contra o tumor, segundo os oncologistas. Um estudo publicado em março na revista Journal of the American Medical Association Surgery argumentava que a maior parte das mulheres submetidas à retirada de ambas as mamas não precisava do procedimento – 70% delas apresentavam um “risco muito baixo” de desenvolver um tumor na mama saudável.

A opção conservadora também recebeu novo aval em um artigo divulgado em setembro na mesma revista. Depois de analisar o histórico clínico de mais de 189.000 pacientes de câncer de mama, acompanhadas por pelo menos sete anos, os pesquisadores do Instituto de Prevenção do Câncer da Califórnia concluíram que as taxas de mortalidade são semelhantes entre aquelas que se submetem à cirurgia convencional e as que preferem a mastectomia dupla. Ou seja: “Não há garantias de que extrair a mama saudável será melhor para a paciente”, nas palavras de Len Lichtenfeld, vice-diretor da Sociedade Americana do Câncer.