Ataque com a marca da Al Qaeda eleva a tensão sectária no Iêmen

Atentado suicida atinge os rebeldes huthis que controlam a capital

Xiitas huthis transportam os feridos em um ataque suicida em 9 de outubro em Sanaa / Foto e vídeo de Reuters

Meia centena de pessoas, incluindo quatro menores, morreram na manhã desta quinta-feira em uma explosão provocada por um terrorista suicida no centro de Sanaa, capital do Iêmen. O atentado, com a marca da Al Qaeda, tinha como alvo uma concentração de simpatizantes dos insurgentes huthis. Desde que tomaram Sanaa no mês passado, esses rebeldes mantêm o Governo praticamente refém e destruíram a frágil transição política em andamento. Uma guerra deflagrada entre a Al Qaeda e os huthis acabaria por afundar o país no caos.

As imagens de televisão mostravam os corpos das vítimas espalhados na praça Tahrir, o coração da capital. O último comunicado do ministério da Saúde falava em 47 mortos e 75 feridos, segundo a agência estatal Saba, mas o estado grave de algumas vítimas faz temer um aumento no número de mortos. Sanaa não vivia cenas como essa desde 2012, quando a Al Qaeda matou uma centena de soldados em um ataque semelhante.

O atentado aconteceu poucas horas depois de o presidente iemenita, Abd Rabbo Mansur Hadi, aceitar a renúncia do primeiro-ministro que havia nomeado na terça-feira. Ahmed Awad Ben Mubarak foi imediatamente rejeitado pelos huthis, que se tornaram um dos principais atores políticos desde que tomaram a capital em 21 de setembro e ameaçavam fazer uma manifestação. Ao providenciar a renúncia de Ben Mubarak, o presidente Hadi esperava o cancelamento dos protestos. Os simpatizantes do grupo que se concentravam na praça Tahrir possivelmente ainda não tinham recebido a notícia.

Os milicianos do Ansarullah, ou Partidários de Alá, são mais conhecidos como huthis, nome do clã que iniciou (e ainda dirige) a insurreição em meados da década passada. Inicialmente pegaram em armas para defender a comunidade xiita zaidita, que corresponde a um terço dos 26 milhões de iemenitas, frente à discriminação socioeconômica e a ascensão do extremismo sunita. Após vários anos de combates intermitentes contra as forças governamentais, alcançaram um cessar-fogo em 2010. No ano seguinte se mostraram muito ativos na revolta popular que terminaria derrubando Ali Abdala Saleh, que governou o Iêmen por 33 anos.

Em meados de setembro, desiludidos com a transição política em andamento e depois de semanas de protestos, tomaram Sanaa quase sem resistência. Só foram confrontados pelos milicianos do Partido Islah (sunita, próximo à Irmandade Muçulmana) e por um batalhão comandado pelo general Ali Mohsen (que, depois de ser o braço direito de Saleh em 2011, passou para a oposição). Em apenas quatro dias tomaram não só a sede da televisão estatal, o Banco Central e os ministérios, como também os principais quartéis.

Sem dúvida capitalizaram o descontentamento da população com a falta de resultados tangíveis do processo político e, sobretudo, com a alta dos preços dos combustíveis, em um país onde metade da população vive na miséria. Entretanto, a rápida tomada de controle dos centros militares desencadeou todo tipo de especulações sobre o suposto apoio do ex-presidente Saleh, que veria no caos uma oportunidade de retornar ao poder, e até mesmo sobre um pacto com a Arábia Saudita para conter a ascensão da Irmandade Muçulmana. Nada está comprovado, nem mesmo as acusações de que estariam recebendo ajuda do Irã, mas seu impulso voltou a colocar o Iêmen à beira do caos.

A tomada da capital disparou os alarmes dos vizinhos, sobretudo na Arábia Saudita, que sempre quis ter o Iêmen sob controle. Imediatamente, houve uma mobilização diplomática para conseguir um “acordo de paz”, que foi assinado dois dias depois sob os auspícios da ONU. Entre as condições pactuadas, a formação de um novo Governo que contasse com a aprovação dos huthis. Entretanto, os milicianos se recusaram a sair.

Além da falta de tato ao escolher como primeiro-ministro um homem sem suficiente respaldo, Hadi, ao voltar atrás, demonstra fraqueza diante de Abdel Malek al Huthi, o líder do Ansarullah. Antes, já havia cedido à exigência de anular o aumento no preço dos combustíveis, e até admitiu fazer um gesto de reconhecimento ao Governo de Saleh. O presidente, que nunca teve controle sobre a maior parte do território, perdeu também a capital. Agora o perigo é que a Al Qaeda cumpra sua ameaça contra os huthis, dando ao conflito uma natureza sectária que não tinha.

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