Eric Holder, secretário de Justiça dos EUA, anuncia sua demissão

Primeiro negro a desempenhar essa função, havia manifestado seu desejo de abandonar a Justiça antes de “ficar preso” no segundo mandato de Obama

Barack Obama e Eric Holder.
Barack Obama e Eric Holder.KEVIN LAMARQUE (REUTERS)

Não era segredo que Eric Holder queria deixar o cargo. Em mais de uma ocasião, nos últimos meses, o secretário de Justiça dos Estados Unidos discutiu sua saída do cargo com o presidente Barack Obama, planos que se tornaram concretos no começo de setembro, durante uma conversa entre os dois homens na Casa Branca, no final de semana do Dia do Trabalho. A Casa Branca não estava contente com a saída de Holder, o primeiro homem negro a ocupar cargo tão importante. Por volta das 16h30 da quinta-feira (17h30 de Brasília), Barack Obama previa comparecer diante da imprensa para fazer “um anúncio pessoal” e comunicar a demissão de Holder, um dos últimos três homens que ainda estão na Administração após o começo do governo Obama, em 2008.

Holder era, em várias ocasiões, a voz do presidente, ao falar dos temas que Obama não poderia falar, aqueles relacionados com a raça, tema extremamente sensível nesse país. “Após servir durante cerca de seis anos como chefe do Departamento da Justiça, Holder é o primeiro afro-americano a ser Secretário de Justiça dos Estados Unidos e será o quarto a ficar mais tempo no cargo”, declarou uma fonte da Casa Branca, adiantando qual será o teor do discurso do mandatário.

As conquistas de Holder implicam um legado histórico para os direitos civis e devolveram legitimidade para o sistema de justiça criminal” Casa Branca

“As conquistas de Holder implicam um legado histórico para os direitos civis e devolveram legitimidade para o sistema de justiça criminal. Holder revitalizou a elogiada divisão de Direitos Civis do Departamento, protegeu os direitos da comunidade LGBT, julgou terroristas com sucesso e lutou de forma incansável para proteger os direitos ao voto, para nomear uma série de conquistas”, prosseguiu o comunicado da Casa Branca, que pontuou que Holder não deixará o cargo até um sucessor ser nomeado.

As filas formadas nas portas do Departamento de Justiça, quando Holder assumiu o cargo em fevereiro de 2009, foram longas e cheias. Pela primeira vez na história, um profundo conhecedor dos direitos civis e do sistema de justiça dirigia o departamento. Holder voltava ao Departamento após nele servir nos anos noventa como promotor anticorrupção, sob a administração de outro presidente, Bill Clinton.

O legado de Holder para a justiça é notável, mas também sai com alguns pontos contraditórios. Seu fracasso em não conseguir julgar em Nova York os suspeitos de terrorismo envolvidos no 11 de Setembro, e a reimplantação das comissões militares para julgá-los, são parte de seu mandato. Sua passagem pela Justiça esteve marcada por importantes avanços nos direitos civis, pelas possíveis ameaças à segurança nacional, a reforma do sistema de justiça criminal e por quase seis anos de luta diária com os republicanos do Congresso que, liderados pelo senador Mitch McConnel, quiseram transformá-lo em um para-raios político, contra sua vontade.

Segundo duas fontes citadas pela NPR, a rádio pública nacional – que foi a primeira a dar da notícia da demissão –, Holder quis sair antes de ficar esgotado e acabar preso no segundo mandato de Obama. O momento da demissão foi calculado milimetricamente e a Casa Branca tentará nomear seu substituto a tempo de ser confirmado pelo atual senado, diante do temor da mudança na composição deste após as eleições de novembro.

Sou o secretário de Justiça, mas também sou um homem negro

O processo de confirmação no Capitólio será fácil ou difícil dependendo do perfil do candidato. Temerosa de ter mais problemas além dos que pode assumir, a Casa Branca pode optar simplesmente por um perfil de um homem das leis e evitar dores de cabeça, sendo que nesse caso a opção é Don Verrilli, atual advogado da Casa Branca no Supremo Tribunal. Se, pelo contrário, optar por um perfil mais político, como o do atual governador de Massachussetts, Deval Patrick – que deixa o cargo em novembro – a confirmação no Senado pode demorar e entrar em 2015. O promotor geral do Estado de Washington, Bob Fergurson, um homem que não esconde sua condição de homossexual, também está cotado.

A retórica de Holder causou incômodos em algumas ocasiões e lhe trouxe problemas, como quando durante um discurso pela comemoração do Mês da História Negra em 2009, o promotor geral declarou que o país era “uma nação de covardes” quando se tratava de discutir tensões raciais. Neste verão, a Casa Branca o enviou como emissário para Fergurson (Missouri) para diminuir a tensão, após os confrontos raciais ocorridos após um jovem negro ter sido morto a tiros por um policial. “Sou o secretário de Justiça, mas também sou um homem negro”, disse Holder na ocasião.

Holder abandona o Departamento de Justiça sendo também o primeiro promotor geral do Estado que a Câmara de Representantes – liderada pelos republicanos – votou em desagravo por se negar a entregar documentos relativos à operação conhecida como Fast and Furious, o escândalo relacionado ao tráfico de armas dos EUA para o México e que custou a vida de um agente norte-americano

“Ser Promotor Geral do povo americano foi a maior honra da minha vida profissional”, disse Holder em uma entrevista em janeiro para a rede de televisão ABC. “Tivemos de fazer sacrifícios, tanto eu como minha família”, prosseguiu. “Estou em débito com minha mulher e meus filhos, que perderam seu pai durante os últimos cinco anos e meio”, finalizou Holder.

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