Coluna
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Sem oficinas para reparos

As crises são globais; as ferramentas para consertá-las, não

Raramente há crises que não tenham efeitos globais, mas é evidente que faltam os instrumentos globais para resolvê-las. Em poucas ocasiões, como na Assembleia anual das Nações Unidas, que está se reunindo em Nova York, adquire maior visibilidade a insuficiência dos instrumentos multilaterais para enfrentar com rapidez e eficácia situações como as que acabam de irromper na África com a epidemia de ebola, ou no Oriente médio, com a instalação do Estado Islâmico em um amplo território entre a Síria e o Iraque.

Ambas constituem ameaças mundiais, que desafiam o egocentrismo dos Governos e o provincianismo das opiniões públicas. O crescimento exponencial das mortes por ebola nos quatro países onde a epidemia foi declarada —Guiné, Libéria, Serra Leoa e Nigéria— ameaça a segurança regional e a estabilidade desses países. Se não se detém a progressão da doença, as estimativas mais catastróficas situam em 1,4 milhão a cifra de mortos até janeiro.

As crises são globais; as ferramentas para arranjá-las não

O freio só pode vir, no médio prazo, da rápida obtenção de uma vacina e, de imediato, das ações in loco para deter a transmissão, algo que não estão ao alcance dos Governos africanos, pois exige uma ampla rede de saúde que isole os enfermos e enterre adequadamente os mortos. As frágeis estruturas estatais são insuficientes e as organizações internacionais, principalmente a OMS, carecem de meios e até de capacidade de reação.

No final, teve de ser os Estados Unidos, pela boca de seu presidente, quem desse o sinal de alarme, apontasse o caráter mundial da crise e aprovasse o envio de um contingente militar de 3.000 pessoas e um investimento em instalações e equipamentos de saúde no valor de 750 milhões de dólares (1,8 bilhão de reais), a maior ajuda humanitária desde o tsunami de 2004 no Índico.

O Estado Islâmico também constitui uma ameaça mundial, embora dissimulado em sua atuação regional. A contenção do perigo e não, digamos, sua eliminação, não está ao alcance dos países da região. Nada podem fazer as organizações multilaterais, a começar pelas Nações Unidas, limitadas pelo veto de Moscou. Novamente tudo tem de ser confiado à ação de Washington, que, neste caso, ao contrário do ebola, não deseja que seus soldados ponham os pés na terra e se limita a bombardear do ar.

A consistência do perigo mundial é evidente. Pela emulação do modelo em toda a geografia do Islã. Mas também pela difusão viral da ação terrorista. Os combatentes do Estado Islâmico têm um novo e inquietante perfil. Falam inglês, são hábeis nas tecnologias digitais e contam com um bom treinamento militar. Seu regresso aos subúrbios das grandes cidades de onde provêm será um momento especialmente perigoso por causa da sua capacidade de atuar em rede e difundir, também exponencialmente como o ebola, suas doutrinas e planos violentos.

Assim são as crises do século XXI: com efeitos globais que as oficinas de reparos, quase todas locais e nacionais, são incapazes de resolver, e com o costume de terminar nas mãos nem sempre hábeis do mecânico americano.

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