Francisco: “Que ninguém se proteja em Deus para justificar a violência”

Papa pede na Albânia a colaboração entre religiões frente aos “grupos extremistas”

Logo após chegar à Albânia, “terra de águias, heróis e mártires”, o papa Francisco afirmou que a colaboração entre as distintas confissões religiosas é o melhor antídoto para enfrentar "os grupos extremistas" que pretendem utilizar a religião "como pretexto para as próprias ações contrárias à dignidade do homem e de seus direitos fundamentais". Jorge Mario Bergoglio, que durante as 11 horas que permanecerá em Tirana vai se reunir com líderes ortodoxos e muçulmanos, advertiu durante seu encontro com o presidente albanês, Bujar Nishani, e as principais autoridades do país: "Que ninguém pense que pode se proteger em Deus quando projeta e realiza atos de violência e abusos".

Jorge Mario Bergoglio, que durante o voo para Tirana se limitou a saudar os jornalistas com um gesto cansado, colocou o destaque na "feliz característica" da Albânia: "A convivência pacífica e a colaboração entre os que pertencem a diversas religiões". Segundo o Papa, "o clima de respeito e confiança recíproca entre católicos, ortodoxos e muçulmanos é um bem precioso para o país, que adquire uma importância especial neste tempo em que, da parte de grupos extremistas, se desnaturaliza o autêntico sentido religioso e as diferenças entre as diversas confissões são distorcidas e instrumentalizadas, fazendo delas um fator perigoso de conflito e violência em vez de uma ocasião de diálogo aberto e respeitoso".

A visita do Papa à Albânia reforça sua opção pelas "periferias do mundo". Tanto suas viagens dentro da Itália -Lampedusa, Nápoles ou Calábria...- como ao exterior -Coreia, Albânia e, nos próximos meses, Turquia, Filipinas e Sri Lanka- deixam claro que Francisco segue disposto a visitar antes os lugares onde as condições de vida são duras -o drama da imigração, o impacto da crise sobre as famílias- ou aqueles onde os católicos são minoria ou têm sido perseguidos, em vez dos locais onde, tradicionalmente, o catolicismo navega com vento a favor.

No caso da Albânia, Jorge Mario Bergoglio justificou assim sua visita: "Vou à Albânia por dois motivos importantes. Primeiro, porque conseguiram -nos Bálcãs!- fazer um governo de unidade nacional entre muçulmanos, ortodoxos e católicos, com um conselho interreligioso que ajuda muito e é equilibrado. A presença do Papa é para dizer a todos os povos: 'É possível trabalhar juntos!'. O segundo motivo tem a ver com o fato de a Albânia ter sido o único dos países comunistas que contemplava o ateísmo na Constituição. Se alguém ia à missa, era inconstitucional. Destruíram 1.820 igrejas, ortodoxas, católicas, e outras foram transformadas em cinemas, teatros, salões de dança...".

Durante sua visita a Tirana, Francisco vai recordar os 40 mártires que serão beatificados em breve, entre eles alguns italianos, como o padre Giovanni Fausti, fuzilado depois de ser torturado em 1946 junto a um primo da madre Teresa de Calcutá. Na praça que leva seu nome, o Papa vai celebrar uma missa antes de se reunir com os líderes das diferentes religiões, o clero local e, como tem sido costume em suas viagens, um grupo de enfermos e pessoas com deficiência. Em seu primeiro discurso em Tirana, o Papa fez um alerta contra as desigualdades que a globalização pode provocar: "Em um mundo que tende à globalização econômica e cultural, é preciso se esforçar para que o crescimento e o desenvolvimento estejam à disposição de todos e não apenas de uma parte da população. É preciso corresponder à globalização dos mercados com a globalização da solidariedade."

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