Uma fundação para o rei Juan Carlos

O pai de Felipe VI quer continuar trabalhando, mas deixa claro que não é mais o protagonista Sua intenção é presidir uma instituição na qual estarão presentes grandes personalidades Nem se divorcia nem planeja se casar

O rei Juan Carlos, durante sua última visita à Colômbia.
O rei Juan Carlos, durante sua última visita à Colômbia.Cordon

Nem se divorcia, nem se casa outra vez, nem se aposenta totalmente. Don Juan Carlos de Borbón, na verdade, está redesenhando sua vida, adaptando-se às novas circunstâncias derivadas da mudança na Coroa que aconteceu no último dia 19 de junho. Faz isso rodeado de seus fiéis conselheiros, esses que ocuparam o posto de chefe da Casa do Rei durante os 39 anos em que foi chefe de Estado. Com eles, está montando seu novo trabalho. O Rei, depois da abdicação, não quer ficar ocioso nem deseja interferir na tarefa que seu filho, Felipe VI, tem pela frente. Por isso, estuda sua futura ocupação com muito cuidado. A ideia é colocar em marcha uma fundação presidida por dom Juan Carlos e na qual estariam representadas importantes personalidades, segundo informam pessoas que conhecem o projeto. Já faz semanas que está sendo trabalhado um rascunho de constituição que, quando estiver pronto, será submetido à aprovação de dom Felipe e também do governo de Mariano Rajoy. As negociações estão começando e são realizadas com grande discrição.

O Rei, depois da abdicação, ocupou parte do verão no hemisfério norte trabalhando com seus colaboradores para montar esta fundação na qual Rafael Spottorno, o chefe da Casa do Rei da etapa anterior, ocupará um posto importante. Nas reuniões que manteve, o pai de Felipe VI mostra-se animado com a ideia. “Ele está tranquilo e orgulhoso do passo que deu”, contam pessoas que convivem com ele. Dom Juan não é um monarca aposentado deprimido, como ocorre com Alberto da Bélgica, que se queixa de que mais ninguém se lembra dele e que não tem dinheiro para cobrir seus gastos comuns. Tampouco quer levar uma vida caseira como Beatriz da Holanda.

No palácio de La Zarzuela todos falam muito pouco sobre qualquer coisa que se refere ao monarca anterior. A mensagem que transmitem é que ele não conta com agenda oficial, por isso só informam sobre sua atividade quando há alguma missão solicitada. No momento, a única foi viajar no último dia 7 de agosto à Colômbia para a posse do presidente Juan Manuel Santos, que se reelegeu. Desta vez foi o filho que cedeu o lugar ao pai, encarregado nos últimos anos de representar a Espanha neste tipo de ato.

É que dom Juan Carlos quis deixar claro que o protagonismo não toca mais a ele, que começou uma nova etapa. Foi tanta sua discrição que não faltaram especulações sobre sua pessoa. Que passava longas temporadas em Londres, que não vivia mais no palácio de La Zarzuela... Foi a imprensa italiana que nos últimos dias publicou as manchetes mais surpreendentes. Primeiro, o prestigioso jornal La Repubblica e, depois, o semanário Oggi falaram abertamente que dom Juan Carlos ia se divorciar de dona Sofía e que planejava se casar com a aristocrata alemã Corinna zu Sayn-Wittgenstein. A resposta do palácio de La Zarzuela foi o silêncio.

Neste verão, dom Juan Carlos, além de dedicar algum tempo a preparar essa fundação que quer lançar, também descansou. Fez algumas viagens ao exterior, das quais seu círculo mais íntimo não quer dar detalhes. Fez com amigos e em seus aviões privados. Agora é mais difícil se deslocar, pois não dispõe dos Falcons que antes estavam a sua disposição. Também passou muitos dias no palácio de La Zarzuela dedicando-se à sua reabilitação.

Está muito melhor de seus problemas de mobilidade, mas os médicos já disseram que a bengala será um fiel acompanhante para sempre. Além disso, esteve de dieta, os médicos recomendaram que baixasse de peso. Mas, ultimamente, abriu algumas exceções, e não escondeu. No último fim de semana foi ao hotel Landa, em Burgos, para almoçar. Ali degustou ovos fritos, um de seus pratos favoritos, com chouriço. E antes de ir embora foi até a loja do hotel para comprar mais. Dom Juan Carlos se sentou no salão geral do restaurante e foi descoberto pelos clientes. Posou com muitos deles que se aproximaram para pedir uma selfie ou solicitando que alguém da escolta se transformasse em improvisado fotógrafo. Contam que estas escapadas permitem que dom Juan Carlos sinta o carinho das pessoas. “Sente-se reconhecido”, dizem.

Sair para almoçar ou jantar em Madri é agora algo habitual para o Rei em sua nova vida depois da abdicação. É comum vê-lo com seu amigo, o empresário Miguel Arias, em algum dos restaurantes que este possui. Na semana passada, foi a um no bairro de La Moraleja. Josep Cusí continua também muito próximo a dom Juan Carlos e passa muito tempo com ele. Os dois, que durante anos dividiram viagens a vela a bordo do veleiro Bribón, se aposentaram ao mesmo tempo e agora compartilham refeições. Na rota gastronômica do Monarca estão, do luxuoso El Bodegón até um asturiano mais modesto na rua Doctor Castello.

O pai de Felipe VI não pisou em Palma este verão. Sua ausência não surpreendeu. Se nos últimos anos esteve na ilha durante as férias, foi porque dentro de seus compromissos oficiais estava o tradicional despacho com o presidente do Governo. Só ficava uns poucos dias e depois ia descansar em outro lugar. Este ano, livre dessa obrigação, não tinha mais nenhum motivo para ir. Dona Sofía manteve, por outro lado, seu destino preferido de férias, já que ela sempre achou Palma o melhor lugar para passar o verão. Quer dizer, os Reis, em seu âmbito privado, continuam fazendo a vida de sempre, cada um por seu lado.

Faz muitos anos que dom Juan Carlos e dona Sofía só convivem nos atos oficiais. Depois que suas agendas se reduziram, há poucos motivos para se encontrarem. Continuam vivendo no recinto principal do palácio de La Zarzuela, embora cada um resida em uma ala. Nem nas horas das refeições, eles se encontram.

Dom Juan Carlos conta, perto de seus aposentos, com um pequeno escritório – o anterior agora é ocupado por seu filho – e com um reduzido grupo de colaboradores dirigido por Alfonso Sanz Portolés, durante anos chefe de protocolo e depois, segundo chefe da Casa. É ele que se encarrega de organizar o dia-a-dia do Monarca e acompanhá-lo. Com Sanz Portolés participou, por exemplo, de duas das partidas que a seleção espanhola de basquete jogou no Mundial. A primeira, em Granada, e a última, quarta-feira passada em Madri, em que a Espanha foi eliminada do campeonato pela França. Sua presença nestes acontecimentos não aparece em nenhuma agenda. A secretaria de La Zarzuela avisou com pouca antecedência que dom Juan Carlos iria assistir. O esporte sempre foi uma de suas paixões e seu relacionamento com os atletas, próximo. Muitos contam que é comum receber ligações dele e até convites. O tenista Rafa Nadal é um deles.

Dos três filhos dos Reis, dona Elena é a que mantém um contato mais frequente com seu pai. Costuma visitá-lo regularmente no palácio, também se encontram para sair e viajar juntos, às vezes, em companhia de Felipe Marichalar, o mais velho dos oito netos.

A comunicação entre os dois Reis é fluída. O escritório do pai e do filho estão um em cima do outro. A relação entre ambos sempre foi boa, mas o tempo de preparação para a mudança na Coroa serviu para aproximá-los ainda mais.

Dom Juan Carlos não vai se divorciar, não precisa. Sua amizade com Corinna, como ela mesma contou esta semana na Semana da Moda de Nova York, continua, embora não seja mais a mesma. Faz tempo que não se veem, mas mantêm contato telefônico. O Rei não se aposentou totalmente de sua vida profissional, mas parece que se afastou dessa relação.

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