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Crimes de guerra contra a identidade

A destruição do patrimônio pelos jihadistas ameaça a diversidade cultural do Iraque

A mesquita em honra ao profeta Yunus (Jonas) em Mossul, destruída em julho por terroristas do Estado Islâmico.
A mesquita em honra ao profeta Yunus (Jonas) em Mossul, destruída em julho por terroristas do Estado Islâmico.reuters

Não são apenas pedras. “A destruição do patrimônio cultural e arqueológico acaba com a diversidade que caracteriza o tecido social iraquiano”, declara Mary Shaer, diretora de projetos da Unesco para o Iraque, em um pequeno escritório na Cidadela de Erbil. Os terroristas do Estado Islâmico (EI) sabem disso. Entre seus primeiros objetivos estiveram as mesquitas xiitas de Mossul e Tel Afar; depois veio a retirada de uma estátua da Virgem de uma igreja de Mossul e a destruição do templo yazidi das Três Irmãs em Bashiqa e do templo Mazar Yad Gar, da religião kaka’i, em Hamdaniya.

“É muito difícil supervisionar a situação nas zonas sob controle do EI, como por exemplo em Mossul”, admite Shaer. “Estamos em contato com o Ministério do Turismo e Antiguidades em Bagdá para conhecer o que está acontecendo”, explica. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, que é o significado da sigla Unesco, também pediu ao pessoal envolvido na ajuda humanitária na zona que informe os casos detectados de destruição.

Por enquanto, não existe informações de que as tropas do EI tenham danificado sítios arqueológicos, mas a Unesco está alerta. Três dos quatro recintos iraquianos declarados patrimônio da humanidade, Hatra, Ashur e Samarra, se encontram em território do autoproclamado califado. No entanto, Shaer evita enumerar locais em risco para não chamar a atenção sobre eles.

“Sabemos que existem lugares ameaçados, mas consideramos que quanto mais falarmos sobre eles, pior será. Esperamos que não sejam atacados”, afirma.

Relatório de baixas

Esta é uma lista dos sítios destruídos pelo Estado Islâmico desde sua ofensiva de junho último:

Junho:

  • Qabr al Bint ou Túmulo da Menina, um popular monumento de Mossul.
  • Mesquitas xiitas de Mossul e Tal Afar.
  • Mausoléu do historiador Ibn al Athir no centro de Mossul.
  • Estátuas do músico Ozman al Musuli e do poeta Abu Tamam em Mossul.
  • Retirada da Virgem do telhado da Igreja da Imaculada em Mossul.

Julho:

  • Túmulo do profeta Jonas em Mossul.

Agosto:

  • Santuário xiita do imã Redha Maqam nas proximidade de Bartella.
  • Templo yazidi das Três Irmãs em Bashiqa.
  • Templo yazidi do xeque Mand em Sinjar.
  • Templo kaka'i de Mazar Yad Gar em Hamdaniya.
  • Templo kaka'i de Sayed Hayyas em Hamdaniya.

Apesar disso, a responsável insiste que “tudo que foi destruído intencionalmente é importante e significativo, e não deve ser minimizado por estar associado a um grupo ou fé determinada”. Shaer reafirma o valor da diversidade. “O patrimônio é um elemento central da coesão social”, insiste.

Os milicianos do EI e outros grupos semelhantes seguem uma interpretação extrema do islã sunita conhecida como salafismo que considera idolatria a veneração de estátuas e tumbas. Mas existe algo a mais do que motivos religiosos em sua forma de atuar.

“[Os monumentos] são sinais de identidade de outras comunidades políticas ou espirituais, portanto destruí-los é uma forma de se opor e de se definir”, explica Pedro Azara, professor de Estética na Politécnica da Catalunha. O arquiteto, membro de uma missão arqueológica internacional entre Erbil e Mossul, compara a destruição com o ato de rasgar fotografias ou jogar pela janela os pertences de alguém no meio de uma briga. “São destruídos porque sabe-se que isso vai doer profundamente no outro, que se identifica com seu objeto admirado”, acrescenta.

Para a Anistia Internacional, essas ações fazem parte da “política de limpeza étnica” dos jihadistas. “Reforça a mensagem para as minorias étnicas e religiosas de que não existe lugar para elas no Iraque”, afirma em seu último relatório no qual acusa o EI de “destruir e danificar de maneira sistemática os lugares de culto das comunidades não sunitas”.

A diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, fez vários chamados durante estes últimos três meses para que todos os envolvidos “se abstenham de destruir o patrimônio cultural, inclusive os lugares religiosos”. Também lembrou que se trata de “crimes de guerra”, cujos autores devem ser perseguidos. Não parece que a referência à legalidade internacional causará alguma impressão em um grupo que a despreza e chega a se gabar de violá-la.

“Nossa mensagem à comunidade internacional e ao público em geral é que eles podem ajudar a diminuir os danos”, explica Shaer. A Unesco colocou em marcha um Plano de Ação para minimizar as ameaças sobre o patrimônio iraquiano tanto pela guerra em si quanto pela destruição deliberada, as escavações ilícitas ou o tráfico de peças arqueológicas. Entre as medidas, foram entregues aos EUA as coordenadas dos lugares que são patrimônio da humanidade, ou candidatos a essa lista, para que seus militares levem em conta e evitem danificá-los durante suas operações.

De volta a Cidadela, declarada Patrimônio da Humanidade no último dia 21 de junho, Ranan Tawfiq, subdiretora da Comissão de Revitalização, aponta para um dano colateral do conflito: “Já faz um mês que todas as obras de reforma do recinto estão paradas.” Embora a frente de batalha esteja a uns 50 quilômetros, a falta de fundos registrada por diferenças entre o governo regional curdo e o central de Bagdá, piorou pela ausência de turistas e o esforço bélico.

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