A ex-mulher de François Hollande atinge sua imagem pública já prejudicada

Um livro da jornalista Valérie Trierweiler descreve o ex-presidente francês como uma pessoa fria, cruel, obcecada com as pesquisas e que despreza os pobres

O novo livro da ex de François Hollande foi lançado nesta quinta.Reuters-live! (reuters_live)

A França acordou nesta quinta-feira mergulhada numa tragicomédia político-sentimental. A ex-mulher do chefe de Estado, a jornalista Valérie Trierweiler, lança hoje, após uma cuidadosa campanha de marketing, seu livro-vingança contra o homem que em janeiro a traiu e abandonou, obrigando-a a sair do Eliseu. No livro, a jornalista despeitada relata sua vida ao lado de François Hollande: nove anos de relação, sendo os dois últimos no Palácio do Eliseu. O retrato não poderia ser mais prejudicial para o presidente que tem o menor índice de apoio popular (17%) da V República Francesa. A imprensa francesa se pergunta se este não será o golpe de misericórdia em Hollande. O livro não revela segredos de Estado, mas detalhes demolidores. Por enquanto, o suposto desprezo do presidente pelos pobres – aos quais, segundo Trierweiler, ele alude reservadamente como “os desdentados” – já está sendo visto como mais um peso para afundar sua imagem pública.

“Ele se apresenta como um homem que não aprecia os ricos. Na realidade, o presidente não gosta dos pobres. Ele, homem de esquerda, os descreve reservadamente como ‘os desdentados’ e se orgulha da brincadeira”, diz Trierweiler no trecho mais incendiário do livro. Intitulada com certo cinismo Obrigada por este momento, a obra chega às livrarias europeias nesta quinta-feira em meio a grande fanfarra de marketing – tiragem inicial de 200 mil exemplares – e num dos momentos políticos mais delicados da Presidência do socialista. O desemprego continua descontrolado, a economia se encontra estagnada, e o próprio partido do presidente se aproxima do abismo do cisma ideológico, devido às reformas econômicas de Hollande. A crise governamental recente, com a saída de críticos como o ministro da Economia Arnaud Montebourg, faz parte da crise profunda em que estão mergulhados o país e, especialmente, seu presidente.

Trierweiler serviu sua vingança bem fria. Na próxima semana vai chegar às livrarias outro livro que pode afundar ainda mais a má imagem de Hollande. O jornalista Valentin Spitz lança Eu, presidente, com suas conversas com Montebourg, das quais já emergiu outro punhal a ser enfiado no chefe de Estado: “Hollande mente o tempo todo, desde o começo”, diz o ministro rebelde, segundo Spitz. Mente, mas também, segundo sua ex-companheira, é frio e impiedoso, é obcecado pelas pesquisas de opinião e, de algum modo, continua a ser intimamente apegado à mãe de seus filhos, a agora ministra da Ecologia Ségolène Royal. A pergunta que a imprensa faz é se um homem incapaz de administrar bem sua vida privada é capaz de administrar um país que vive uma conjuntura econômica tão negativa.

Contribuem para essa dúvida algumas revelações íntimas, como a de que esse chefe de Estado é capaz de enviar a sua ex-mulher, depois de separados, até 29 mensagens de celular em um só dia ou que encontra tempo para perguntar sobre o hotel em que ela está hospedada e lhe mandar flores entre um encontro com o presidente americano Barack Obama e outro com o presidente russo Vladimir Putin.

Apesar de seu tom íntimo, o livro caiu como uma bomba política. Valérie Trierweiler, que hoje trabalha para a revista Paris Match, onde faz jornalismo literário, foi cronista política. Foi essa circunstância que a aproximou do agora presidente da República, e graças a isso Trierweiler pôde ter um conhecimento profundo do tipo de revelações capazes de derrubar a imagem de um político. De fato, o primeiro-ministro Manuel Valls já se manifestou para denunciar o “ultraje” que seria a publicação do livro. De passagem, a ex-primeira-dama vai ganhar dinheiro. A revista para a qual trabalha, Paris Match, publica hoje com exclusividade alguns trechos do livro, e, com uma tiragem própria apenas de autores de best-sellers, seu livro foi um segredo bem guardado do qual nem mesmo o Eliseu teve conhecimento até três dias atrás.

Não é improvável que a estratégia de marketing tenha os frutos desejados. Sexo, paixão, poder, ciúmes, desamores e traições são os ingredientes do relato de Trierweiler, uma mulher “perdida”, como ela própria admite, no jogo de poder, em que Hollande e Royal se movimentam com toda naturalidade, para angústia da jornalista, que nunca pôde entrar no Palácio do Eliseu pela porta da frente. “Tão facilmente eles se enfrentam quanto apoiam um ao outro”, explica a jornalista, que confessa o ciúme quase doentio que sente da mãe dos filhos de Hollande, cuja carreira política ela quis torpedear com uma mensagem no Twitter apoiando o candidato rival de Royal na região eleitoral desta e pedindo a Hollande, na época seu companheiro, que não apoiasse a candidatura dela à presidência da Assembleia Nacional.

O jornal Le Monde traçou um paralelo demolidor entre a vida privada e pública de François Hollande, como se algumas de suas decisões políticas fossem frutos de suas experiências íntimas. Isso teria se traduzido, fundamentalmente, em sua relação política tempestuosa com Ségolène Royal, candidata à presidência da República que concorreu com Nicolas Sarkozy em 2007 e nomeada ministra da Ecologia em março, apenas quando Valérie Trierweiler estava deixando o Palácio do Eliseu, humilhada. Cercada de homens ambiciosos, diz a jornalista, ela tentou, segundo conta agora, ingerir soníferos para suportar a traição de Hollande com Julie Gayet, antes de abandonar o cenário político. Até agora.

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