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A reunião anual dos socialistas franceses cristaliza a fratura do partido

Os críticos às reformas de Hollande e Valls criam a corrente “Viva a Esquerda”

Manuel Valls, primeiro-ministro francês, em La Rochelle.
Manuel Valls, primeiro-ministro francês, em La Rochelle. REUTERS

A reunião anual dos socialistas franceses, que é realizada durante o verão europeu na comuna La Rochelle, na França, terminou neste domingo com uma fratura maior na esquerda governante. Centenas de militantes, liderados por dezenas de deputados rebeldes, criaram durante o encontro de três dias a corrente de oposição “Vive la Gauche” (Viva a Esquerda) e ameaçam por em risco o apertado apoio do Governo na Assembleia Nacional (290 votos, um a mais do que a maioria absoluta). Entre grandes aplausos mesclados com vaias, o primeiro-ministro, Manuel Valls, encerrou o encontro com um apelo à “unidade e à responsabilidade”.

“Não há nenhuma mudança ou desvio”, afirmou Valls diante da cúpula do partido na universidade de verão de La Rochelle. Não é isso o que dizem os cerca de 200 a 300 militantes que, na sexta-feira passada, se reuniram paralelamente nessa localidade no sudoeste da França para criar a corrente crítica. Foi um passo perigoso que oficializa a fratura interna mostrada até agora nas críticas que cerca de 50 deputados socialistas rebeldes manifestam na Assembleia Nacional. Quatro dezenas deles inclusive se abstiveram em uma votação sobre as profundas reformas lançadas pelo presidente François Hollande e seu primeiro-ministro.

A criação dessa corrente interna teve muito mais transcendência e gravidade porque o ato de sua constituição teve a presença da ministra da Justiça, Christiane Taubira, a única representante da ala mais de esquerda do Governo, depois da recente expulsão do Executivo de Arnaud Montebourg e Benoît Hamon, que comandavam os ministérios de Economia e Educação até terça-feira passada.

Reunidos sob o lema “Nos reinventemos”, os militantes socialistas escutaram Valls dizer que a esquerda governa agora “para avançar, para reformar, para progredir” e que, embora seja lógico haver debates internos, é preciso ter cuidado com as palavras e gestos utilizados. Sobre isso, disse não entender que alguns reprovem seu apoio às empresas, “que são a origem da riqueza e do emprego”. “Que mensagem enviamos desta forma aos franceses?”, perguntou.

A ministra da Justiça, Christiane Taubira, esteve no ato da criação da corrente crítica

Diante dos críticos e de sua corrente alternativa, o primeiro-secretário dos socialistas franceses, Jean-Christophe, lançou durante o encontro “os Estados Gerais do PS (Partido Socialista)”. Deste momento até 6 de dezembro, dirigentes e militantes se debruçam sobre a elaboração de propostas e debates para encaminhar e repensar a esquerda. Este período vai coincidir com duas reuniões-chave: Valls deve submeter seu novo Governo a um voto de confiança em setembro ou outubro e, em paralelo, apresentará as linhas gerais dos orçamentos de 2015, onde serão incluídos importantes ajustes de reformas que pretendem reduzir em 50 milhões de euros (150 milhões de reais) os gastos públicos até 2017.

A desunião do partido governante já tem um claro reflexo nas pesquisas. Cerca de 72% dos franceses, segundo um levantamento da Liberation, acreditam que o PS não apoia adequadamente o Governo e uma porcentagem maior (76%) avalia que o partido no poder não tem um projeto concreto para a França, que enfrenta sua maior crise econômica e política das últimas décadas. Segundo outra pesquisa divulgada hoje no Le Journal du Dimanche, 76% dos franceses acreditam que o PS acabará dividido em facções separadas. Um total de 64% dos simpatizantes do partido pensam a mesma coisa.