A economia recua 0,6% e o Brasil assume uma 'recessão técnica'

O resultado do segundo trimestre reflete uma queda da atividade industrial

Funcionários em uma obra em Brasília.
Funcionários em uma obra em Brasília. (Ag. Brasil)

A 'sensação térmica' de que a economia anda devagar foi confirmada pelo resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo semestre, que recuou 0,6% em comparação com trimestre anterior, que havia registrado, inicialmente, um avanço de 0,2% sobre o período anterior, mas cujo resultado foi revisado para 0,2% negativo. Quando há dois trimestres com resultado negativo a leitura do mercado é de recessão técnica. No caso de três períodos consecutivos, aí é considerada recessão no sentido pleno.

Quase todos os indicadores registraram queda. A taxa de investimento, por exemplo, que marca os projetos de longo prazo patrocinado pelas empresas, caiu de 17,7% no primeiro trimestre para 16,5% do PIB. Na comparação com o período de abril a junho de 2013, a queda é de 11,2%. Até mesmo a importação de bens e serviços fechou com uma queda de 2,4% sobre o ano passado.

O setor industrial, como um todo, caiu 3,4%, com destaque para a construção civil, que já contabiliza um recuo de 8,7% na atividade. Somente a área extrativa mineral, ligada à cadeia de petróleo, registrou uma alta de 8% em comparação com o mesmo trimestre do ano passado. Um relatório do banco Bradesco destaca que o ajuste na produção de caminhões e bens de capital, após elevado grau de antecipação ao fim dos incentivos fiscais ao setor ocorrido no final de 2013, influenciou nesse resultado.

Os números vêm fortalecer os argumentos sobre a dificuldade do Governo para atenuar os efeitos da crise internacional, e retomar a confiança dos empresários para investir no país. O mercado, como um todo, espera um avanço do PIB de 0,7% neste ano, segundo pesquisa elaborada pelo Banco Central feita com mais de 100 instituições financeiras. Até mesmo a agricultura, que sempre se destaca em relação as demais setores, teve crescimento zero na comparação com abril a junho de 2013. “A Copa [que reduziu os dias úteis nas empresas] explica uma parte dessa queda. Mas o fato é que a economia já vem com uma perda de ritmo desde o início do ano, o que na nossa avaliação é fruto de uma política equivocada, que começou a cobrar seu preço”, diz Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria.

Os dados contrastam, ainda, com as expectativas do Governo para os resultados do ano que vem. Nesta quinta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o cenário deve melhorar nos próximos meses e que o país pode alcançar um crescimento de 3% em 2015. “Os problemas conjunturais deste ano não vão se repetir em 2015”, disse Mantega, em referência, por exemplo, à seca que atingiu a região Sudeste neste ano. Além disso, segundo o ministro, a recuperação dos Estados Unidos é mais evidente, o que vai beneficiar o Brasil. Mantega fez as afirmações durante a apresentação do orçamento para 2015.

A consultoria Tendências, por exemplo, projeta um avanço de 1,5% para o ano que vem, um ano que será difícil, independentemente de quem vencer as eleições. Ribeiro observa que as notícias negativas acabam por contagiar a confiança dos consumidores, que também se inibem a assumir grandes dívidas. Nesta quinta-feira, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou uma pesquisa mostrando que a confiança das famílias mantém uma tendência de queda.

O levantamento da CNI revela que as expectativas da população sobre o emprego, e principalmente a inflação estão se deteriorando. E desta forma, o consumidor se torna mais conservador.

O Bradesco espera a reversão da queda acumulada no primeiro semestre de 2014 na segunda metade do ano. A previsão de crescimento do banco, em todo caso, foi ajustada de 1,0% para 0,5% em 2014. A Tendências também prevê uma leve recuperação, e desta forma o país não chegaria a completar  três trimestres consecutivos de queda do PIB, ou seja, não se configuraria a recessão no sentido clássico do termo.

Em coletiva depois do anúncio do resultado, Mantega disse que não se pode falar em recessão, pois o emprego e a renda continuam crescendo.

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