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A esquecida Síria ainda sangra

Existem quatro frentes depois de 41 meses de guerra, durante os quais morreram 170.000 pessoas

Forças leais a Bashar al Assad levantam suas armas em sinal de vitória em Mleiha, nas proximidades do aeroporto de Damasco. Ampliar foto
Forças leais a Bashar al Assad levantam suas armas em sinal de vitória em Mleiha, nas proximidades do aeroporto de Damasco. REUTERS

Atravessar meia Síria fazendo o trajeto rodoviário entre Damasco e Alepo permite contemplar uma paisagem contraditória em que se alternam imagens de localidades arrasadas até os alicerces e terras cultivadas. Nas zonas habitadas, os moradores se esmeram para manter uma bolha de normalidade. Já transcorreram 41 meses desde o estouro dos primeiros protestos populares e pacíficos contra o regime de Bashar al Assad em Daraa, no sul do país. Boa parte da região – Tunísia, Egito, Líbia, Bahrein – estava em pleno fervor da primavera árabe. Longe de abrir as portas a novas reformas, a resposta marcial por parte do regime e a sucessiva proliferação de grupos oposicionistas armados e financiados por potências estrangeiras afundaram o país em uma guerra civil devastadora e agora estancada. Uma confrontação que, à medida que se agravavam os conflitos na Ucrânia e em Gaza, foi caindo no esquecimento.

Pouco resta do Exército Livre Sírio (ELS), o primeiro a se levantar em armas contra o regime de Assad – que herdou o cargo com a morte do pai – em julho de 2011. Hoje está relegado a um segundo plano por conta da miríade de brigadas de feições islâmicas, facções maiores como a Frente Al Nusra (vinculada à rede Al Qaeda) ou de surgimento mais recente, como o Estado Islâmico, que rapidamente tomou territórios do vizinho Iraque. O popularizado e midiatizado discurso jihadista da oposição armada calou as vozes tanto de ativistas como de oposicionistas pacíficos.

A estratégia bélica do Exército sírio se concentra em consolidar o controle das metrópoles e das grandes artérias de conexão com a capital, Damasco, empurrando os insurgentes à periferia das cidades enquanto assedia os bolsões de combatentes dentro delas. “Meu batalhão se encarregou de cercar a cidade de Homs. Hoje tentamos fazer o mesmo em Alepo. Trata-se de expulsar os homens armados das cidades para combatê-los mais tarde em campo aberto, onde as infraestruturas são menos afetadas e se perdem menos vidas civis”, afirma na frente de Alepo o general do Exército sírio Abu Ahmed.

A esquecida Síria ainda sangra

A várias centenas de metros, os rebeldes se esforçam para manter um corredor entre as cidades e as áreas periféricas. Recorrem a ataques com morteiros nas zonas limítrofes e fazem dos túneis e dos franco-atiradores sua melhor arma para compensar sobre o terreno sua inferioridade diante da aviação síria. Cerca de 23 milhões de civis tentam sobreviver entre as frentes forjando uma ilusória normalidade.

Os rebeldes controlam a zona rural; o Governo, as cidades e as estradas

Enquanto o Exército sírio se mostra unido sob a mesma liderança política que reivindica desde o primeiro dia a luta contra o que qualifica de “terrorismo”, as frentes rebeldes estão descoordenadas. “Faz mais de um ano que não temos contato com as brigadas do norte. Centramo-nos em nossa zona e [nos relacionamos] com outras brigadas daqui”, afirmava há poucos meses Abu Husein, líder rebelde do oeste do país.

Nem o Catar nem a Arábia Saudita, principais financiadores dos rebeldes, conseguiram até agora unir os oposicionistas em uma frente única. O resultado é uma atomização do campo rebelde em múltiplas brigadas que reúnem poucas dezenas de homens sob um líder. O Estado Islâmico (EI), com mais recursos do que o resto, parece substituir a Al Qaeda na região, controlando vastas zonas desde o nordeste da Síria (Raqqa e Deir Zor) até espreitar as portas de Erbil, no Iraque, no Curdistão iraquiano. O braço de ferro lançado pelo Estado Islâmico, com a declaração de um califado, teve a consequência de unir na dialética “antiterrorista” as potências regionais e internacionais – Estados Unidos, Iraque, Síria, Líbano, Arábia Saudita – que, simultaneamente, se opõem no tabuleiro sírio.

“O conflito só acabará com um pacto internacional”, diz um general

Seis milhões de sírios são deslocados internos; três milhões refugiaram-se em outros países. Segundo o Observatório Sírio para os Diretos Humanos, com sede em Londres, 170.000 pessoas morreram, um terço delas civis. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento cifrou, no mês de maio, as vítimas em 520.000 – entre mutilados, feridos e mortos na contenda. Em relação ao custo econômico da guerra, a maioria dos especialistas estima que oscila entre 90.000 e 130.000 milhões de euros (273 bilhões de reais e 394 bilhões de reais).

O país está divido em quatro frentes, onde os insurgentes contra al Assad controlam majoritariamente o campo aberto, e o Exército sírio controla as cidades e grandes estradas. Algumas das frentes nas cidades não se moveram mais de 300 metros em dois anos. “A guerra na Síria não terminará até que não haja uma solução política entre as potências internacionais e regionais. Até isso acontecer, podemos continuar anos assim”, garante o general Abu Ahmed.

No sul, a frente está na cidade de Daraa e em seus arredores, até a fronteira com a Jordânia. Na capital, os combates se concentram na periferia leste de Damasco e no anel externo que a circunda. No leste do país, as hostilidades são na região de Calamum, na fronteira com o Líbano. A frente mais ampla se estende do noroeste do país até o nordeste, na fronteira com o Iraque. Nas três primeiras frentes, o regime combate simultaneamente diferentes grupos oposicionistas como o Exército Livre da Síria, a Frente al Nusra e a Frente islâmica; no nordeste, o Estado Islâmico se impõe como o único inimigo do Exército. E a esses combates com as tropas regulares de al Assad se acrescentam as guerras internas entre os que se opõem ao regime sírio: principalmente entre o Estado Islâmico e as outras facções. Essa dissidência favorece o regime sírio e provoca constantes deslocamentos de população.

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