A OTAN acusa a Rússia de enviar 20.000 soldados para a fronteira com a Ucrânia

A aliança e os Estados Unidos alertam para uma possível operação direta de Moscou no leste

Washington / Bruxelas - 07 ago 2014 - 14:52 UTC
Soldados ucranianos em um posto de controle na cidade de Debaltseve, perto de Donetsk.
Soldados ucranianos em um posto de controle na cidade de Debaltseve, perto de Donetsk.V. Ogirenko / REUTERS

Nova movimentação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contabilizou nesta quarta-feira em 20.000 o total de soldados enviados pela Rússia na fronteira entre os dois países e alertou para a possibilidade de que Moscou tente uma operação direta no leste da Ucrânia “com o pretexto de uma ação humanitária para a manutenção da paz na região”, afirma um porta-voz. O número de soldados russos deslocados disparou para 40.000 em abril. No começou de junho, o total de militares identificados pela OTAN havia caído para poucos milhares, mas, desde então, o Governo de Vladimir Putin voltou a reforçar sua presença militar na região. O Ministério da Defesa negou as acusações da OTAN, à qual acusou de “improvisar”.

Na quarta-feira, os Estados Unidos fizeram declarações na mesma linha do diagnóstico da OTAN. Durante visita à Alemanha, o secretário de Defesa norte-americano, Chuck Hagel, alertou que o aumento das tropas russas de prontidão na fronteira com a Ucrânia eleva o risco de uma invasão russa no país, segundo a AP.

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Questionado sobre as declarações de Hagel e se pensa em reconsiderar sua recusa em proporcionar apoio letal ao Exército ucraniano, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, evitou avaliar diretamente o risco de invasão. Disse que por enquanto essa ajuda não é necessária, mas indicou que a situação pode mudar se o panorama se deteriorar. “Se começar a haver uma invasão por parte da Rússia é obviamente um tipo diferente de pergunta. Ainda não chegamos lá”, afirmou em uma coletiva de imprensa em Washington depois de destacar que o Exército russo é “muito maior” do que o ucraniano.

Obama reafirma a recusa em fornecer ajuda letal à Ucrânia, mas indica que o diagnóstico seria diferente se houvesse uma invasão russa

Obama lembrou que os Estados Unidos proporcionaram assistência humanitária e de segurança de fronteiras ao Governo de Kiev e que por enquanto não foi necessário oferecer ajuda letal, como armamentos, porque o Exército ucraniano é superior às forças dos rebeldes pró-russos. “Continuaremos trabalhando com eles para avaliar do que precisam exatamente para que possam defender seu país e fazer frente aos elementos separatistas. Mas o melhor que podemos fazer pela Ucrânia é tratar de voltar à via política”, afirmou.

A OTAN avalia que os 20.000 soldados deslocados por Moscou na fronteira com a Ucrânia — que incluem aviões, tanques, infantaria, artilharia, sistemas de defesa antiaérea, especialistas em logística e forças especiais — estão “preparados” para uma ação de combate.

“Não vamos especular sobre as intenções da Rússia, mas nos preocupa ver o que está fazendo sobre o terreno”, afirmou na terça-feira um porta-voz da OTAN. “Este acúmulo de tropas intensifica a tensão e soterra os esforços encaminhados para encontrar uma solução diplomática para a crise. É perigoso”, acrescentou.

A advertência da OTAN sobre uma possível operação do Exército russo reforça a tese do primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, que na terça-feira alertou sobre a “crescente ameaça” de uma intervenção militar direta do Kremlin no leste da Ucrânia.

“Qualquer deterioração da situação humanitária nas regiões do leste da Ucrânia provocadas por separatistas se deve à contínua desestabilização russa”, acusou o porta-voz da aliança militar. Estas mesmas fontes insistem para que o Governo de Putin retire as tropas da fronteira com a Ucrânia, e suspenda o fluxo de armas e combatentes através da passagem fronteiriça. “Deve exercer sua influência sobre os separatistas armados para que entreguem as armas e renunciem à violência”, conclui. O secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, visita Kiev, capital da Ucrânia, nesta quinta-feira, a convite do presidente do país, Petro Poroshenko.

Em Moscou, um porta-voz do Ministério de Defesa russo negou as acusações de Bruxelas, sede da OTAN, e comparou as repetidas denúncias da organização a um leilão no qual ganha o número mais alto. “O representante do Pentágono fala de um agrupamento de 10.000 soldados russos próximos à fronteira, a OTAN diz que existem 20.000”, disse a um grupo de agências de imprensa locais. “É impossível realizar uma manobra assim em um prazo de tempo tão curto, ainda mais às escondidas com os observadores da OSCE”, afirmou.

Washington pede que "estejam preparados" para uma piora na situação

“Quando se observa o aumento das tropas russas e sua sofisticação, seu treinamento e seu pesado equipamento militar na fronteira, fica claro que é uma ameaça e uma possibilidade”, respondeu Hagel a uma pergunta de uma jornalista sobre a ameaça de uma invasão russa mencionada pelo Governo polaco. Hagel deu a declaração em Stuttgart, onde visitou o comando militar norte-americano na Europa.

Washington também concorda com a estimativa da OTAN sobre o acúmulo de 20.000 tropas russas na fronteira com a Ucrânia, segundo disseram fontes de inteligência. O cálculo anterior do Pentágono era de 15.000 tropas. Além disso, os EUA denunciam que a Rússia continua treinando e fornecendo armamentos aos separatistas pró-russos. “[A situação] vai piorar quanto mais tempo a Rússia mantiver e alimentar esta tensão. [Também incentivará] a possibilidade de uma escalada da atividade. E temos que estar preparados para isso”, acrescentou Hagel.

No fim de julho, na semana da derrubada de um avião da Malaysia Airlines no leste da Ucrânia, o Governo norte-americano acusou a Rússia de disparar a partir de seu território contra posições militares ucranianas e de fornecer novos lançadores de foguetes aos rebeldes. Os fatos, casos sejam confirmados, representariam uma virada no papel desestabilizador de Moscou na crise ucraniana, pois deixaria de ser um conflito interno para se tornar uma guerra entre os dois países vizinhos.

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