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Lucros generosos mostram que a 'recessão' no Brasil é parcial

Temporada de balanços do segundo trimestre revela que bancos e redes de varejo não se contaminaram com o pessimismo do mercado brasileiro. Juros altos explicam parte do sucesso

Funcionário corrige o preço do tomate em um supermercado.
Funcionário corrige o preço do tomate em um supermercado. Folhapress

Na crise, enquanto muitos choram, outros vendem lenços, diz o ditado popular. E neste momento de sentimentos pessimistas em relação à economia brasileira, há muita empresas no país ‘vendendo lenços’ com lucros generosos. Em meio à temporada de divulgação de balanços financeiros do segundo trimestre, fica claro que setores como o de bancos e varejo no Brasil estão longe da contaminação do temor de recessão. Nesta terça-feira, o banco Itaú, o maior do país, divulgou seu resultado de abril a junho. O lucro no período foi de 5 bilhões de reais. No primeiro semestre, o lucro foi de 9,5 bilhões de reais, 33,2% acima do mesmo período de 2013.

Na semana passada, o Bradesco também havia divulgado seu resultado um aumento de 22,9% do lucro líquido no primeiro semestre deste ano, fechando em 7.277 bilhões de reais. Até mesmo o Santander, que ficou visada nas últimos semanas, celebrou uma melhora nos resultados. A filial brasileira do banco espanhol lucrou 1.437 bilhão no segundo trimestre, 1,9% superior ao mesmo período do ano passado. Em comum, entre as três instituições, o fato de que todos ganharam com a expansão do crédito imobiliário e consignado, ao mesmo tempo que reduziram exposição a clientes de maior potencial de risco.

O ciclo da alta de juros na economia, que torna mais caro o custo do dinheiro, é uma das explicações para esses resultados, segundo Luis Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating. “O Brasil tem as maiores taxas do mundo, então os bancos podem se dar ao luxo de reduzir o volume de crédito, e mesmo assim o lucro aumenta, pois os juros cobrados compensa”, diz Santacreu. A taxa de referência do Banco Central saiu de 7,25% em março do ano passado, para os atuais 11% em abril deste ano, gradativamente. Esse patamar tem se mantido desde então.

Outra explicação para o bom desempenho do setor, segundo o analista, é que diferentemente dos bancos no exterior, o setor bancário brasileiro concentra diversas atividades na mesma ‘holding’: crédito, seguro, previdência, gestão de recursos e bancos de investimento. “Isso também garante a diversificação de receitas, ou seja, um setor compensa o outro”, completa Santacreu.

Seja como for, os números chamam a atenção, pelo contraste entre os balanços cada vez mais gordos das empresas e o magro crescimento do país como um todo, que fez reviver a palavra 'recessão' nos dicionários dos economistas. Na segunda, por exemplo, o boletim semanal Focus, que reúne as expectativas do mercado sobre a economia, reduziu pela décima vez consecutiva a sua previsão para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. Os analistas ouvidos pelo Banco Central revisaram de 0,90% para 0,86% as suas expectativas.

No mesmo dia, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) esfriou ainda mais os ânimos em relação ao crescimento brasileiro. Embora mais otimista que os agentes do mercado, a organização rebaixou para 1,4%, ante os 2,3% previstos anteriormente, a sua previsão de alta neste ano para o país –a média para a região como um todo é de 2,2%. No fim de julho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) já havia recortado pela quinta vez seguida a sua estimativa para a expansão brasileira em 2014, de 1,9% para 1,3%.

O varejo é outro setor que ainda se beneficia de uma demanda reprimida no Brasil por eletrodomésticos, principalmente da chamada classe C. A rede de lojas de móveis e eletrodomésticos Magazine Luiza, que divulgou seu balanço no último dia 31, fechou com lucro líquido de 26,6 milhões de reais entre abril e junho deste ano, 130,6% maior do que o mesmo período do ano passado. Em termos de receita, a empresa faturou 2,3 bilhões de reais de receita, 28,5% em relação ao primeiro trimestre.

Segundo Marcelo Silva, CEO da empresa, o primeiro semestre de 2013 foi mais duro para o setor varejista, por isso o resultado deste ano se destaca na comparação. Mas, a empresa se beneficiou da Copa do Mundo, da qual foi patrocinadora oficial. “Fizemos um bom planejamento para a Copa, o que nos beneficiou”, explica. Sem o evento esportivo, porém, que favorece a troca de televisores, por exemplo, o segundo semestre tende a ser um pouco mais modesto. “Vamos manter crescimento, e lutaremos para que seja de dois dígitos, com muita transpiração”, afirma Silva. “Enquanto a taxa de desemprego estiver baixa, a classe C não 'esfria'”, diz ele. “Se a inflação for alta e houver desemprego, aí sim afeta o varejo.”

Na Companhia Brasileira de Distribuição, dona das bandeiras Pão de Açúcar, Casas Bahia, Ponto Frio, Assaí, Barateiro e Extra, o lucro líquido no segundo trimestre foi de 183 milhões de reais, 20,9% maior do que em relação ao segundo trimestre do ano passado. Em termos de receita, o grupo fechou em 1,155 bilhão no segundo trimestre (Ebitda), ou 21,1% superior ao mesmo período do ano passado. Christophe Hidalgo, CFO do GPA, acredita que a manutenção dos planos de investimentos do grupo, independente do pessimismo no mercado, explicam parte do bom desempenho. “Só no primeiro semestre foram 600 milhões de reais, e devemos completar 1,9 bilhão neste ano”, explica Hidalgo.

Embora mantenha o pé no acelerador, o segundo semestre ainda é uma incógnita. “Não há magia possível. Vamos acompanhar o mercado como ele é”, diz ele.

Para Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), as incertezas típicas dos períodos eleitorais ajudam as empresas a serem mais cautelosas, reduzindo a exposição a riscos e aumentando as suas margens nos balanços.

“Como também ocorreu em 2002, busca-se garantir a posição e segurar ainda mais o investimento, para constituir fundos e poupança”, avalia. “Até porque a expectativa é de que, qualquer que seja o vencedor da eleição presidencial de outubro, venha a anunciar mudanças pró-mercado na economia”, acrescenta.

Entre essas mudanças, o professor destaca um novo marco regulatório para destravar os investimentos e uma série de correções nos preços administráveis pelo governo e que estão reprimidos, como no caso dos combustíveis.