O abecedário da arte gratuita em Londres

Uma rota por museus que não cobram nada pela entrada

Uma visitante posa junto à obra 'Casa Tomada'.
Uma visitante posa junto à obra 'Casa Tomada'.ADRIAN DENNIS (AFP)

Se você estiver no verão de Londres e for amante da arte e da cultura, tem duas opções: gastar uma nota vendo as grandes exposições do momento ou buscar exibições mais modestas, porém talvez mais complexas e, acima de tudo, gratuitas.

Se dinheiro não é um problema e você gosta de se gabar sobre a grande cultura do consumo, Malevich e Mattise o esperam na Tate Modern, Virginia Woolf na National Portrait Gallery, Dennis Hooper na Royal Academy e Bill Viola na Catedral de São Paulo, para mencionar cinco possibilidades. Mas saiba que para um casal com dois filhos e a avó, esse banho de cultura custaria cerca de 1.000 reais, com descontos incluídos.

Outra opção é ir aos quatro pontos cardeais de Londres e visitar exibições que não custarão nem um centavo no Imperial War Museum, na National Gallery, na Saatchi, na Whitechapel e na Wellcome Collection. Claro, também é possível visitar gratuitamente as coleções permanentes dos grandes museus e galerias.

Nosso percurso, apenas uma possibilidade entre muitíssimas outras e não necessariamente a mais interessante ou a mais atual, poderia começar na primeira hora da manhã no Imperial War Museum, no sul de Londres, para ver as novas salas dedicadas à Primeira Guerra Mundial, coincidindo com o centenário de seu início precisamente nestes dias. Convém chegar cedo porque é possível ser surpreendido e ter que esperar várias horas para poder entrar devido às filas.

Dentro do museu podem ser encontrados todos os tipos de artefatos de guerra, desde uniformes, armas curtas e longas até facas, baionetas, algum canhão de consideráveis dimensões e muitos telões de todas as dimensões que o transportarão na penumbra até a Frente Ocidental. Como quase sempre ocorre na Europa ocidental, é uma visão da Primeira Guerra centrada nas trincheiras da Frente Ocidental. E, como não podia deixar de ser, com o denominador comum da presença britânica por todas as partes.

Mas haverá a oportunidade de sentir-se na lama do Somme, calibrar o tamanho de um tanque ou entender os detalhes da vida diária da Frente, desde o sistema de censura das cartas dos soldados às latas de comida ou também os pequenos cartões de visita distribuídos por um bordel especializado em servir as tropas britânicas, que eram atraídas com os dizeres: “Où irons-nous ce soir? Chez Madame Juliette, 7 rue Héronval, ARRAS, English Spoken”. A rua ainda existe em Arras, a 180 quilômetros ao norte de Paris e o cenário em 1917 de uma das grandes batalhas da ofensiva britânica no norte da França. O bordel, já com certeza não.

Para deixar para trás o pesadelo da guerra podemos nos dirigir a uma estação próxima, Lambeth North, e viajar com a Bakerloo Line até Charing Cross, no coração da capital. São apenas duas estações e o metrô nos deixará a um passo da National Gallery. Quando entrar, não se deixe intimidar pelos rebanhos de turistas que transitam pelos longos corredores da grande pinacoteca londrina, discutindo a gritos se vão comer em um pub ou em um restaurante. Se quiser, deixe-se seduzir pela grande exibição do momento, Making Colour. Não está entre as mais caras (os três adultos podem entrar por 23 libras, ou cerca de 87 reais, no total e os menores de 16 anos não pagam se estiverem acompanhados), mas dificilmente se encontrará ali o recolhimento que se respira na Sunley Room, onde é exibida a minúscula, mas deliciosa Building the Picture: Arquitetura na Pintura do Renascimento Italiano.

Ali poderá descobrir como às vezes o insignificante matiz arquitetônico dos quadros renascentistas esconde as chaves sobre o lugar, a data ou o simbolismo da cena representada. Na Anunciação com Santo Emídio (1486), Carlo Crivelli nos fornece várias pistas da época a partir da arquitetura, mas acima de tudo utiliza o edifício para dar uma visão privilegiada de Maria ao observador externo, que nem o Espírito Santo nem o resto dos personagens da tela conseguem ter. Outros autores se baseiam nos edifícios para situar uma cena no tempo. Ou pintam um edifício real para que nos localizemos geograficamente.

A segunda jornada deste percurso poderia começar em Chelsea, no oeste de Londres. Na Saatchi Gallery está sendo exibida a Pangaea: Nova Arte da África e da América Latina. A visita vale a pena ainda que só fosse pelas formigas gigantes do colombiano Rafael Gomezbarros que recebem o visitante, e que já invadiram no passado a fachada do Congresso Nacional em Bogotá ou o Altar da Pátria na Quinta Bolívar, em Santa Marta.

Se é sua primeira visita à Saatchi, não perca a 20:50, a genial instalação de Richard Wilson criada em 1987. Infelizmente, em sua localização atual, não é permitido ao público utilizar a passarela que faz parte da própria obra (“para evitar incidentes”), anulando 95% do charme da instalação. Mas, ainda assim, não perca.

Depois se dirija à Sloane Square e pegue a District Line em direção ao leste, até Aldegate East. Na porta anexa à estação encontra-se a mítica Whitechapel Gallery. Ali poderá testar seus dotes intelectuais mergulhando no mundo conceitual de Giulio Paolini, adotado por Turim, mas nascido em Genova em 1940, e sua exibição To Be or Not to Be, que leva o nome de umas de suas principais obras. Se suas montagens em plexigás ou suas fotografias com imagens justapostas não convencem, pegue novamente o metrô e viaje até o noroeste com a Hammersmith e City Line até a Euston Square. Ali, bem perto, está a Wellcome Collection, um centro que combina arte, ciência, pedagogia e atividades lúdicas, criado pela Wellcome Trust, uma organização beneficente que explora as conexões entre a medicina, a vida e a arte.

No mesmo local é possível visitar o ABC Idiossincrático da Condição Humana, uma exibição que usa cada letra do alfabeto para explorar nossa idiossincrasia. Desde o D de Deleite ao H de Hereditário, o M de Música ou o Y de Yawn (bocejo), o visitante pode expressar suas emoções, compartilhá-las com o resto do mundo, testar sua memória ou simplesmente pensar e interagir. Uma forma de encontrar a si mesmo se seu banho de arte fez com que se sentisse um pouco bobo ou duvidasse de seu lugar no mundo.

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