A Argentina envia delegados a Nova York para evitar a suspensão de pagamentos

O Governo de Cristina Kirchner se reunirá com o mediador designado pelo juiz ante os fundos 'abutres'

A presidenta argentina, durante a inauguração de uma fábrica de motocicletas em Buenos Aires, no dia 23 de julho.
A presidenta argentina, durante a inauguração de uma fábrica de motocicletas em Buenos Aires, no dia 23 de julho.Raúl Ferrari (EFE)

A negociação da Argentina com os chamados fundos abutres ao longo deste último mês adquiriu contornos de filme de suspense. Tanta intriga, tanta surpresa de última hora não parecem o melhor remédio para a saúde econômica de um país. Mas assim estão as coisas. O Governo de Cristina Fernández de Kirchner e os fundos contavam desde 30 de junho com um mês de período de graça para evitar a suspensão de pagamentos que não beneficiaria nem aos três fundos que reivindicam 1,5 bilhão de dólares (3,4 bilhões de reais) nem a um Governo necessitado de investimentos estrangeiros. As duas partes deixaram o relógio correr, trocaram desqualificações por meio de comunicados e se posicionaram a apenas um dia do precipício da quarta-feira à meia-noite, quando termina o prazo para chegarem a um acordo.

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Confiaram quase tudo à reunião que previam realizar na terça-feira pela manhã os representantes do Governo argentino com o advogado Daniel Pollack, mediador designado pelo juiz Thomas Griesa, para buscar um acordo entre o Governo e os fundos abutres. O Governo enviou na segunda-feira a Nova York uma delegação formada pelo secretário de Finanças, Pablo López, o secretário da área Jurídica e Técnica, Federico Thea, e a procuradora do Tesouro, Angelina Abbona.

Vários jornais argentinos indicaram na segunda-feira que o ministro a Economia, Axel Kicillof, tinha mantido conversações telefônicas com o mediador durante o fim de semana. Mas Daniel Pollack desmentiu esse contato na segunda-feira: “A delegação dos técnicos partiu da cidade de Nova York na sexta-feira à noite para consultar seu Governo em Buenos Aires. Não voltei a ter notícias deles desde esse momento”.

À medida que Cristina Kirchner foi elevando a tensão nas declarações contra os fundos abutres, ela subia nas pesquisas ao longo do mês. Da Casa Rosada partiu uma campanha sob o lema “pátria ou abutres” que caiu fundo nas organizações aliadas. A oposição ficou deslocada, vítima desse aparente binômio “pátria ou morte”, sem matizes nem opções alternativas.

Houve quem, como o opositor e ex-ministro da Economia Roberto Lavagna (2002-2005), respaldasse o Governo em sua decisão de não pagar os fundos abutres enquanto o país não depositar o que deve aos investidores que aceitaram a reestruturação da dívida soberana em 2005 e 2010. E houve opositores, como a deputada Elisa Carrió, que denunciaram a “malvinização” do problema por parte do governo, ou seja, o apelo aos sentimentos patrióticos diante de um inimigo exterior, com a finalidade de ocultar as próprias deficiências. “O Governo tenta 'malvinizar' essa questão, quer dizer: os abutres ou nós”, declarou Carrió na Rádio Mitre. “E na realidade, eu posso odiar o meu credor, mas tenho um credor (...) Sempre os pseudoditadores e os personagens autoritários, quando se encontram perdidos, fazem a jogada nacionalista, heroica (...) Eles [os membros do Governo] estão pensando mais em qual jogada patriótica fazem para ter mais adeptos e não no pranto de um povo, posterior à jogada patriótica. Esse é o caso das Malvinas. [Cristina Kirchner] está com a imagem em alta porque muitos gostam disso de pátria ou abutres, sem saber que depois podem ficar sem trabalho”.

Enquanto isso, o relógio corre. E o Governo demonstrava uma calma digna de um herói de cinema. O secretário-geral da Presidência, Oscar Parrilli, garantia na segunda-feira: “Não vai acontecer nada”.

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