O medo esvazia Donetsk

A população foge em massa da cidade ucraniana devido à proximidade dos combates

Um miliciano se despede de sua família.
Um miliciano se despede de sua família.Dimitri Loevtsky (AP)

“Todos vocês se horrorizam pelas vítimas do Boeing, mas esquecem de nós. Como se não existíssemos, como se não fôssemos também pessoas que sofrem, como se nossas crianças não perecessem nesta guerra.” A declaração foi feita por Sergey, um minerador aposentado, referindo-se aos olhares estrangeiros que têm convergido em Donetsk a raiz da catástrofe do avião da companhia aérea da Malásia em 17 de julho.

A mesma repreensão é feita por outros moradores desta cidade tensa onde à noite se ouve as rajadas de metralhadores e os canhões com os quais nos arredores, e especialmente na região do aeroporto, se mantém à distância ou se intimidam entre si os insurgentes da autodenominada República Popular de Donetsk (RPD) e as tropas leais ao Governo de Kiev.

Donetsk, que já teve mais de um milhão de habitantes, vive à espera de um desenlace em um drama que começou depois que o presidente Victor Yanukovich, oriundo desta província, foi derrubado pela revolução Euromaidan. Após perder o líder que reunia seus interesses, setores russófonos do leste da Ucrânia se organizaram contra os novos governantes de Kiev, que consideravam uma ameaça a seus interesses econômicos, culturais e linguísticos. A anexação da Crimeia pela Rússia gerou a ilusão de que o Kremlin podia e queria cobiçá-los e as palavras de apoio dos russos pronunciadas pelo presidente Vladimir Putin acabaram de animá-los. Logo as coisas se complicaram, mas as denominadas República Popular de Donetsk (RPD) e República Popular de Lugansk (RPL) são o produto daquelas turbulências que agitaram o Sul e o Leste da Ucrânia.

Ninguém sabe quantas pessoas abandonaram Donetsk, mas as estimativas coincidem que cerca de metade dos habitantes se foi. Alguns tentam iniciar uma nova vida em outras cidades e outros tiraram férias longas. “Teremos uma ideia mais clara quando começar o ano escolar, ainda que está por saber se este ano o calendário escolar começará em 1o de setembro”, disse a jornalista Yelena, que permanece na cidade. Outros colegas já não estão: Oleg, que administrava uma página de Internet, foi para Kiev após sofrer uma prisão traumática e o “confisco” de seu computador e de sua equipe de trabalho por um “guarda” do edifício da antiga Administração Provincial, hoje a sede central dos separatistas. Alexandr, um jornalista de tevê, espera na Crimeia que o temporal melhore.

A cidade espera o desenlace com o barulho de tiroteios e jardins impecáveis

Em Donetsk se vive o dia. O aeroporto, orgulho da cidade durante a Eurocopa de futebol em 2012, está destruído. Os trens entram e saem das estação central, mas seus horários dependem dos “fronts”, ou seja, os pontos de conflito que se acalmam ou reavivam caprichosamente entorno da cidade. A violência chegou também a esta estação e aos bairros próximos. Na rua Kuibishev, junto ao número 226, um buraco profundo no asfalto marca o lugar onde caiu um míssil. Está entre um arranha-céu, cujos vidros foram quebrados, e o pátio de uma escola com seus escorregadors, que estão intactos. Um pouco mais abaixo, do outro lado da rua, uma pessoa morreu e outra ficou ferida por um projétil que caiu em um pátio da vizinhança.

A maioria das lojas está fechada, desde o luxuoso centro comercial Donetsk City Varus, com seus cinemas, boliche e pista de patinação, até os pequenos comércios. Em uma passagem subterrânea da avenida Artiom, somente Anna mantém aberta uma papelaria onde vende algumas canetas. Ao redor, fecharam as portas a mercearia, as lojas de ferragens e equipamentos eletrônicos, e até o clube de computação tão concorrido até pouco tempo. “O chefe me disse para ficar enquanto o caixa for suficiente para pagar meu salário”, disse Anna, enquanto tirava cópias dos documentos de Ivan, um aposentado que viaja esta noite para Kiev. “No meu bairro houve disparos e não sei quem fez isso. Eu não vou embora, mas não sei como vamos resistir aos enfrentamentos. Nos aconselharam a nos refugiar no porão se houver tiroteios, mas moro em uma piatietashka (casa de cinco andares dos tempos de Nikita Khrushchov) e o porão está cheio de água”, conta. Anna teme que não voltem os estudantes da universidade vizinha, seus principais clientes. “Não sabemos quando começarão as aulas e nem sequer se haverá quem vai se inscrever nelas. Isso é a ruína total”, diz.

Desaparecem cartões dos passageiros do avião malásio

NYT, Donetsk

Alguns cartões de crédito e débito de vítimas do avião malásio derrubado na Ucrânia desapareceram do local do incidente, ainda que não esteja claro se alguém tentou utilizá-los, de acordo com informações de observadores europeus. Os destroços da aeronave permanecem espalhados por dezenas de quilômetros quadrados, entre campos de girassóis, povoados e bosques. O local tem apenas vigilância.

Os rastros espalhados da guerra contrastam com a obsessão municipal por cuidar das áreas com jardins que também foram orgulho de Donetsk. Os canteiros de rosas, as cercas, as árvores e os gramados a cargo do município estão impecáveis. “Este cuidado cotidiano tem um efeito psicológico, tranquiliza muito as pessoas, ainda que no máximo seja um trabalho inútil”, disse Sergey.

O tempo parece congelado. Aos anúncios nas ruas, que ainda exibem propagandas de cerveja relacionadas ao campeonato europeu de futebol, se somaram cartazes (de estética soviética evocadora da Segunda Guerra Mundial) exortando os jovens a se alistar no Exército da RPD e também pedindo ajuda à Rússia.

À frente da RPD houve mudanças significativas com a chegada a Donetsk dos cidadãos russos Alexandr Borodai, que atua como chefe de Governo, e Igor Strelkov, que exerce o cargo de ministro da Defesa. Ao nome deste oficial se associa a disciplina, o toque de recolher (das 23h às 6h) e a luta contra o crime nas ruas e nas fileiras da RPD. A estrutura dos independentistas foi burocratizada e hierarquizada. As barricadas e a maioria das barracas de campanha desapareceram da praça em frente à antiga administração provincial. Na sede central da RPD funcionam os elevadores e os escritórios mais representativos estão limpos e presididos por fotos de Putin e Borodai.

Os “veteranos” da RPD que demonstraram eficiência foram promovidos. Klavdiya Kulbatskaya, uma agente imobiliária que foi porta-voz de imprensa, está hoje à frente de uma equipe encarregada de organizar a “propaganda” da RPD. Seu telefone celular toca incessantemente. Ligam para ela os aposentados locais preocupados porque os bancos ucranianos deixaram de funcionar e eles não podem mais receber suas pensões. Liga para ela, da Rússia, um homem de Komsomolskaya, na Sibéria, que aparentemente quer se unir à RPD. “Terá que ir até Rostov do Don (Rússia) e lá entrar em contato conosco”, diz a ele Klavdiya, sem entrar em detalhes sobre como poderá cruzar a fronteira. “Será bom para nós sua experiência. A maioria dos nossos rapazes nem sequer prestou o serviço militar. Não, não traga uniforme, não é conveniente”. "Manchado, nosso uniforme é manchado, com algumas manchas de cor", exclama.

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