A mudança climática modificará a fragrância das flores

A variação do aroma poderá afetar o comportamento dos polinizadores

Azinheiras, flores e cistos no parque natural de Hornachuelos (Córdoba).
Azinheiras, flores e cistos no parque natural de Hornachuelos (Córdoba).pedro retamar

A mudança climática acarretará graves secas, elevações do nível do mar e uma série de catástrofes que todos conhecem. Mas o aumento de temperatura também causará outra alteração que, à primeira vista, não parece muito perniciosa: a do aroma das flores. Quanto maior a temperatura, maior é a produção vegetal dos compostos orgânicos voláteis: as substâncias químicas que as plantas desprendem e que determinam tanto a intensidade como a qualidade do seu aroma. Uma mudança que, além de modificar o cheiro do planeta, poderia afetar a polinização das plantas.

Segundo as previsões mais otimistas do Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPCC), órgão ligado à ONU, a temperatura da Terra poderia aumentar em um grau Celsius até o final deste século. Com essa previsão conservadora, as flores chegariam a aumentar em 1,4 a sua produção de compostos orgânicos voláteis. E, se as temperaturas chegassem a subir cinco graus - o panorama mais pessimista exposto pelo IPCC - as plantas gerariam até 9,4 vezes mais substâncias aromáticas, segundo um estudo realizado pelo Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) da Espanha e pelo Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF), de Barcelona.

Nem todas as flores reagirão da mesma forma à mudança de temperatura. As que agora desprendem menos fragrâncias, como a azinheira, terão um maior aumento da produção de substâncias aromáticas em relação àquelas que já são altamente cheirosas.

Além deste aumento na produção de substâncias, algumas plantas também modificarão a composição do seu perfume. E o aroma que as flores desprendem é, no fim, um de seus canais de comunicação com outros seres vivos, por isso os cientistas preveem que o novo aroma repercutirá no comportamento de alguns insetos polinizadores, os seus autênticos reprodutores.

“Há polinizadores que confiam em maior grau na aprendizagem constante das fragrâncias das flores do seu entorno, ao passo que outros se apoiam em preferências inatas. Portanto, espera-se que alguns polinizadores possam se adaptar e responder de forma mais dinâmica do que outros às mudanças na composição química dos aromas”, afirma Josep Peñuelas, pesquisador do CREAF.

Peñuelas adverte que, em testes, observou-se um maior índice de falha nos insetos quando o aroma da flor muda, o que colocaria em perigo a reprodução dessas espécies vegetais. Mas nem tudo são más notícias para as plantas. As que aumentarem a intensidade, mas não modificarem a qualidade da sua fragrância, conseguirão estimular mais os polinizadores.