A espionagem de aliados abre uma brecha entre Obama e seus serviços secretos

O presidente dos Estados Unidos não foi informado sobre a prisão do agente duplo na Alemanha

Angela Merkel em visita à Casa Branca, em maio.
Angela Merkel em visita à Casa Branca, em maio.T.J. Kirkpatrick (Bloomberg)

A prisão de pelo menos um agente norte-americano infiltrado nos serviços secretos da Alemanha, um dos mais próximos aliados dos Estados Unidos, dificulta a relação entre os dois países e revela o desconhecimento, por parte do presidente Barack Obama, das ações de seus próprios espiões.

Na última quinta-feira, quando Obama conversou por telefone com a chanceler alemã Angela Merkel sobre a Ucrânia e  outros assuntos bilaterais, nenhum dos dois líderes mencionou a prisão do agente duplo, ocorrida um dia antes. Segundo o The New York Times, a notícia ainda não havia chegado ao presidente. E ainda não está claro se tampouco havia sido dada a John Brennan, diretor da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês).

Mas, de acordo com o jornal, a CIA sabia havia vários dias, talvez até semanas, que seu homem no Serviço de Informação Federal (BND, na sigla em alemão) se encontrava em uma situação delicada.

Assim como no outono de 2013, com as revelações sobre a espionagem da Agência de Segurança Nacional americana (NSA) à chanceler alemã, Angela Merkel, o novo caso apresenta um contratempo para o presidente em um momento em que ele precisa da Alemanha para questões que vão desde o conflito com a Rússia na Ucrânia à negociação de um acordo comercial com a União Europeia.

Obama já disse em várias ocasiões que os agentes não deveriam espionar alguém só porque dispõem das condições para isso. Os espiões precisariam levar em conta outras variáveis, como por exemplo os custos diplomáticos de suas ações, na hora de decidir vigiar um alvo.

Mas no caso da NSA e da infiltração no BND, a diplomacia e a espionagem vão por caminhos distintos: os interesses das duas entidades nem sempre são os mesmos e, às vezes, até se contradizem. E o presidente, que aparentemente também desconhecia que a NSA estava grampeando um telefone de Merkel, passa a imagem de estar sobrecarregado por serviços de inteligência que ele nem sempre controla.

“A pergunta do dia é: Quem é que manda? A Casa Branca sabe o que a comunidade de inteligência está fazendo?”, diz o historiador Matthew Aid, autor de livros sobre a NSA e os serviços de inteligência dos Estados Unidos.

Os documentos sobre a NSA, vazados para a imprensa pelo ex-agente Edward Snowden, revelaram uma vasta rede de espionagem eletrônica. E abriram o debate sobre a influência de um complexo de espionagem industrial – semelhante ao complexo militar-industrial cuja influência foi denunciada pelo presidente Dwight Eisenhower em 1961 – que em parte escapa da tutela política.

Fontes anônimas da Casa Branca manifestaram ao The New York Times sua perplexidade por não ter recebido a informação sobre a prisão do agente duplo, nem sobre o fato de que ele passou semanas sob a vigilância alemã. O caso não seria tão incômodo se não complicasse a relação de Obama com Merkel, sua aliada privilegiada na Europa.

O mandatário não tocou no assunto ao conversar por telefone com Merkel

Mas os gestos que o presidente dos EUA está disposto a fazer para apaziguar a raiva da chanceler são limitados. Os EUA resistem a fechar com a Alemanha um acordo de não agressão em matéria de espionagem, semelhante ao que mantêm com o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia.

O escândalo da NSA levou Obama a prometer que os agentes norte-americanos não voltarão a grampear o telefone de Merkel. Mas ele reservou aos serviços dos EUA o direito de continuar trabalhando em território alemão e espionando altos funcionários do Governo do país.

Não é comum que os presidentes dos EUA, que toda manhã recebem um relatório de inteligência, se interessem pelos detalhes das operações. Eles querem saber dos resultados, não dos métodos. E a espionagem entre aliados não chama sua atenção porque não é novidade.

Em 1995, a França expulsou cinco agentes da CIA, entre eles Dick Holm, chefe da delegação da agência em Paris, por espionagem em torno de negociações comerciais. Jonathan Pollard, um norte-americano que nos anos oitenta forneceu documentos classificados para Israel, um dos aliados mais próximos de Washington – está há quase 29 anos na prisão, nos EUA

Para Aid, o caso alemão é especial. “Nós fizemos o BND funcionar”, afirma. Ele lembra que foram os ocupantes norte-americanos que fundaram os serviços secretos alemães após a Segunda Guerra Mundial, na época batizados de Organização Gehlen em homenagem ao militar da Wehrmacht escolhido para dirigi-la.

O especialista em espionagem diz que, desde então, os EUA ofereceram ao BND recursos financeiros e tecnologia. “Continuamos envolvidos, diariamente, em todos os aspectos das operações do BND. Sabemos mais sobre o que o BND faz do que o contrário. Eu descreveria nossa relação com o BND como íntima”, afirma.

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