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Koons coleciona recordes em Nova York

O Museu Whitney escolhe o artista mais cotado do mundo para se despedir de sua sede original

'Mujer na bañera', uma das esculturas incluídas em 'Jeff Koons: a retrospective'.
'Mujer na bañera', uma das esculturas incluídas em 'Jeff Koons: a retrospective'. afp

Em outubro deste ano, o Museu Whitney de Nova York se despedirá daquela que foi sua sede durante 48 anos. O edifício de concreto armado projetado por Marcel Breuer, no Upper East Side, passará a ser uma extensão do Metropolitan, e o Whitney se mudará, em 2015, para um novo espaço, mais amplo e adequado para as grandes dimensões (e ambições) da arte contemporânea. Como um centro de exposições dedicado à arte norte-americana, faz sentido que o canto do cisne do velho Whitney seja uma mostra de Jeff Koons, quintessência do criador americano de êxito e detentor do recorde em leilão de obras de artistas vivos. Em novembro de 2013, sua escultura Balloon dog (Orange), leiloada pela Christie’s, foi arrebatada por mais de 58 milhões de dólares (127,5 milhões de reais). A exposição intitulada, simplesmente, Jeff Koons: a retrospective (Jeff Koons: uma retrospectiva), poderá ser vista em Nova York até o dia 19 de outubro. Depois irá para o Pompidou, em Paris (França), e para o Guggenheim de Bilbao (Espanha).

Para que os superlativos não decaiam, a exposição ficará na história como a maior retrospectiva dedicada, pelo Whitney, a um único artista. E a primeira consagrada ao legado de Koons na cidade em que vive. “Não queríamos deixar o edifício olhando para trás com nostalgia. Queríamos fazer algo audaz que fosse novo para o Whitney, para Jeff e para Nova York”, disse Scott Rothkopf, curador da antologia.

Jeff Koons, na apresentação à imprensa da exposição. ampliar foto
Jeff Koons, na apresentação à imprensa da exposição. afp

Demorou quatro anos para organizar esta grande retrospectiva que percorre toda a carreira do artista, “desde sua série de 1978 até obras terminadas, literalmente, na semana passada”, explica Rothkopf. Foram necessárias três semanas, com equipes trabalhando durante os sete dias em turnos de 11 horas, para arrumar as mais de 150 peças em exibição, cujo custo, “milhões de dólares”, o museu prefere não revelar. Espera-se que a mostra bata o recorde de público.

A faraônica tarefa de encapsular a trajetória de Koons já foi empreendida pelo Guggenheim de Nova York no final da década de 1990, mas fracassou devido aos custos excessivos e às elevadas exigências do artista. Koons – que levou 20 anos para terminar sua última obra, Play-Doh, porque não encontrava o material correto para imitar a famosa massa de modelar – tem altos padrões de qualidade, e sempre quer mais.

Segundo Adam D. Weinberg, diretor do Whitney: “Jeff Koons é o Andy Warhol de seu tempo”. E não apenas porque também eleva o objeto cotidiano e temas populares — um aspirador de pó, um colchonete, um Popeye — a peças (caríssimas) de museu, mas também porque, além disso, está à frente de seu tempo ao influenciar, por exemplo, Damien Hirst. Como Warhol e Dalí, Koons fez dele mesmo sua melhor obra.

“Isto é o que queria neste momento da minha vida”, explicou o autor com seu incessante sorriso durante a apresentação à imprensa. “Tenho 59 anos, e [com esta retrospectiva] posso compartilhar meu diálogo com a arte com outros artistas jovens. Acredito, de verdade, na arte; ela me ensinou a ser uma pessoa melhor”, disse.

Cada série da obra de Jeff Koons corresponde a uma etapa de sua vida; nunca impôs limites entre o pessoal e o profissional. Celebration, por exemplo, a mais famosa, dedicou ao seu filho, quando sua ex-esposa, ex-atriz pornô e ex-política, Cicciolina, o levou para a Itália. Aprendeu a lição de Dalí, seu primeiro ídolo e por quem começou a pintar: “Minha experiência com ele me fez sentir que podia fazer o que quisesse. Você pode ter uma vida, e a arte pode ser o centro da sua vida”.

'Play Doh' (1994-2014), uma das obras de Koons na amostra. ampliar foto
'Play Doh' (1994-2014), uma das obras de Koons na amostra.

Por isso, a mostra foi organizada de maneira “tradicional, cronologicamente”, disse Rothkopf. E de baixo para cima: “As salas deste prédio são maiores conforme se sobe, e a escala do trabalho de Koons também”. Tudo está presente, desde as pequenas Flores infláveis de 1978, sua primeira obra, até os aspiradores de pó na vitrine chamados de The new, Gorilla e a série Balloon dog, passando por Celebration, além de objetos de sua época mais controvertida, quando criou, precisamente para o Whitney, Made in Heaven. Desta coleção, fazem parte fotos de atos sexuais, incluindo cenas do artista com Cicciolina.

“É como juntar a família”, afirma ao ver toda a sua obra disposta cronologicamente pela primeira vez. “Cada um é como um filho; cada um é único, têm seu próprio espírito, mas compartilham o DNA”. O código genético de sua carreira, para a qual o artista não vê um fim, está em sua obsessão pelos materiais e por incluir o espectador na obra. “Esta exposição é uma plataforma para o futuro. Acredito no trabalho que há aqui, e espero que outras pessoas possam encontrar um significado, mas para mim é o futuro. Espero ter outras três décadas, talvez mais, para criar arte, e ser capaz de fazer uso da minha liberdade como indivíduo”, ressalta.

Essas são as esperanças que os gerentes do museu resumem no novo Whitney. Situado no moderno bairro de Meatpacking, ao sul de Manhattan. Ele foi projetado por Renzo Piano para abrigar peças de grande formato e outros sonhos selvagens.

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