Cessar-fogo até 27 de junho entre Kiev e os separatistas do leste da Ucrânia

O acordo foi fechado em uma reunião entre representantes de Kiev, Donetsk e Lugansk, e a Rússia

O ex-presidente ucraniano Leonid Kutchma, a embaixadora da OSCE, Heidi Tagliavini e o embaixador russo na Ucrânia, Mikhail Zurabov.
O ex-presidente ucraniano Leonid Kutchma, a embaixadora da OSCE, Heidi Tagliavini e o embaixador russo na Ucrânia, Mikhail Zurabov.S. ZHUMATOV (REUTERS)

Os separatistas da denominada República Popular de Donetsk (RPD) se comprometeram a manter o cessar-fogo até o dia 27 de junho em resposta à medida análoga adotada na semana passada pelo presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko. O acordo foi conseguido em uma reunião sem precedentes nesta segunda-feira entre altos representantes das partes em conflito (as autoridades de Kiev, os separatistas das regiões de Donetsk e Lugansk, e a Rússia) que foi realizada no edifício da ocupada Administração regional de Donetsk sob o patrocínio da Organização de Cooperação e Segurança na Europa (OSCE).

“Chegamos a um acordo sobre um cessar-fogo bilateral até as 10 da manhã do dia 27 de junho", disse Leonid Kutchma, ex-presidente da Ucrânia, que participava nas negociações junto com seu antigo chefe de Administração, Víktor Medvedchuk, hoje líder da organização A Opção Ucraniana e bastante vinculado ao presidente russo Vladimir Putin. Estavam acompanhados pelo embaixador da Federação Russa, Mikhail Zurabov e a representante da OSCE, a diplomata suiça Heidi Tagliavini. Os separatistas estavam representados pelo chefe de governo de Donetsk, Alexander Borodai; Andrei Purgin, líder da RPD; o chefe do movimento do Sudeste, Oleg Tsaryov, e dirigentes não identificados da autoproclamada República Popular de Lugansk (RPL), segundo informa Ukrainskaya Pravda e a agência Interfax. Os separatistas pró-russos prometeram ajudar para conseguir a liberação dos oito membros da OSCE detidos no leste da Ucrânia.

“Nós nos comprometemos a parar os enfrentamentos até 27 de junho em resposta ao cessar-fogo por parte de Kiev”, disse Borodai, segundo a agência russa Ria Novosti. Se há um cessar-fogo, "podemos chegar a um acordo, e pelo menos, começar consultas sobre a manutenção de conversas para uma regulamentação pacífica do conflito", assinalou o líder separatista, um ex-jornalista que assessorou os separatistas da Crimeia. "Interrompemos o deslocamento de tropas pelo território da república e o uso das armas", agregou Borodai, que expressou, além do mais, sua esperança de que a Federação Russa vigiará o cumprimento do cessar-fogo.

“É um sintoma positivo, mas outra coisa é que as negociações deem resultado", manifestou uma fonte da RPD, segundo a qual os separatistas não aceitam nenhum tipo de integração na Ucrânia e só querem negociar "sobre a independência”. O porta-voz do centro de informação do Conselho de Segurança Nacional e Defesa, Vladimir Chepovoi, havia constatado antes que os enfrentamentos armados em Donbas (a bacia do Don, correspondente ao território de Lugansk e Donetsk na Ucrânia) tinham sido interrompidos e que desde as 9 da manhã até as 5 da tarde não tinham sido detectadas nem tentativas de usar as armas nem de ocupar edifícios administrativos, por isso era possível falar, comentou, em "um cessar-fogo de fato na região”.

Medvedchuk manifestou que as conversas têm como objetivo a entrada em prática do plano de paz para regular a situação no leste da Ucrânia, o fim do derramamento de sangue, assim como evitar novas vítimas e manter a unidade do país. Medvedchuk é considerado o “homem de Vladimir Putin” em Kiev pela estreita relação pessoal que o une com o presidente russo, que aparentemente também é padrinho de sua filha. Tsariov, que durante um tempo se perfilou como o político capaz de aglutinar as regiões do leste e do sul da Ucrânia, foi expulso da Rada Suprema (parlamento), onde era deputado do Partido das Regiões, e sobre ele há uma ordem de captura. O domicílio do político, que apoia abertamente os separatistas, foi saqueado e sua família precisou fugir para a Crimeia. Por sua experiência como diretor da fábrica de mísseis da URSS (Yuzhmash em Dnipropetrovsk), Kutchma, é possivelmente o ex-presidente da Ucrânia mais aceitável em uma negociação com os separatistas. Quanto a Tagliavini, é uma diplomata com ampla experiência internacional e a autora do relatório da União Europeia sobre a guerra de agosto de 2008 entre Rússia e Geórgia na Ossétia do Sul.