Copa do Mundo 2014

O futuro da Espanha é o seu passado

Del Bosque cogita deixar o cargo, mas a federação quer que ele continue e conduza a renovação

A equipe que foi titular contra o Chile treina em Curitiba.
A equipe que foi titular contra o Chile treina em Curitiba.ALEJANDRO RUESGA

Na sala de espera da Copa, nada preocupava mais Vicente del Bosque do que o olhar de seus jogadores. Precisava interpretar se depois de tantos triunfos ainda teriam apetite para competir ao máximo, se perdurava o fervor desses anos. O técnico se convenceu de que o núcleo do grupo ainda estava viciado em sucesso, ninguém vacilou, ninguém deu sintomas de estar desatualizado. Tinham demonstrado isso em Paris, no confronto com a França para assegurar a classificação no Mundial. Os pretorianos fizeram o técnico ver que não estavam empanturrados, que o Brasil era um estímulo extraordinário. Se não tinham relaxado com a ressaca depois de conquistar uma Eurocopa, e depois uma Copa e ainda outra Eurocopa mais, não se esperava que relaxassem agora. Para pessoas como Casillas, Xavi, Alonso ou Villa, para citar alguns dos mais experientes, desde 2008 a seleção sempre tinha sido um refúgio terapêutico para seus altos e baixos nos clubes. Alguns chegaram a sentir que a seleção era sua primeira casa e, salvo o parêntese por aquele temporal dos clássicos da era Mourinho, a harmonia tem sido uma constante, sem uma altercação para comentar, sem falatórios ou atitudes inoportunas.

O treinador manteve o conjunto da equipe com sua coluna principal –11 dos 23 convocados para o Brasil haviam ganhado os três títulos recolhidos pela Roja nessa época, mas não foi tão conservador como se poderia pensar. Fez sete mudanças em relação ao grupo da África do Sul-2010, o que representa uma reforma de 30%. Da Eurocopa de 2008 até a Copa africana foram feitas outras substituições, e depois houve quatro alternâncias entre Johanesburgo e o Europeu de 2012. As lesões de Thiago e Víctor Valdés perturbaram em alguma coisa os planos de Del Bosque, mas no substancial não houve clamor algum quanto à lista definitiva nem na mídia nem fora dela. Ninguém ilustre ficou em terra, além da decisão final sobre Navas, Negredo e Llorente, nenhum dos quais nunca fora titular nem teria sido nesta ocasião.

O viveiro da sub-21 receberá o bastão, junto a jogadores como De Gea, Koke, Isco, Thiago...

Apesar da longa trajetória de muitos de seus jogadores, a média de idade do elenco se aproximou muito da de outros torneios. A final de Viena foi disputada com uma média de 26 anos e um mês, a de Johanesburgo, com 26,8, e a do Kiev com 27,1. Contra a Holanda, a média foi de 28,3, e contra o Chile, de 27,4. A maior experiência se concentrou no meio de campo, onde a Espanha costura tudo de forma tão singular, onde nem todos estavam capacitados para a aula de futebol que essa seleção costumava dar. No eixo, onde se aninham jogadores enciclopédicos como Alonso e Xavi, também jogam Pirlo pela Itália, Gerrard pela Inglaterra e Lahm pela Alemanha.

Com a equipe modulada, o comboio espanhol ensaiou pelos Estados Unidos –como muitas outras seleções – e se aquartelou em Curitiba, nas magníficas instalações do Atlético Paranaense. Este grupo foge do calor, se sente acolhido por um friozinho, então se inclinou por um clima ao seu agrado. A mesma coisa que já fez em outras concentrações que acabaram de forma triunfal. Sem ir mais longe, na última Eurocopa se refugiou numa remota paragem gelada da Polônia, para depois disputar algumas partidas nas ensolaradas Donetsk e Kiev. “Estamos ligados, estamos ligados”, repetiam os mais veteranos do séquito na reclusão do Paraná.

Iker Casillas, depois da derrota contra o Chile.
Iker Casillas, depois da derrota contra o Chile.ALEJANDRO RUESGA

Tudo caminhava sem maiores sobressaltos além dos problemas físicos de Alba, Costa e Piqué, o normal em todas as seleções a esta alturas do calendário. Del Bosque escalou uma primeira equipe titular com três campeões da Champions (Casillas, Alonso e Ramos), o maior artilheiro convocável da temporada (Diego Costa), o jogador mais elogiado do time vencedor da Premier League (Silva), um titular fixo do Chelsea, onde defender é um decreto capital (Azpilicueta), e cinco jogadores do Barça (Piqué, Alba, Busquets, Xavi e Iniesta).

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Caberia apontar que os azuis-grenás não tiveram o seu melhor ano, mas no primeiro ato contra a Holanda Xavi e Iniesta foram os melhores. Até que se desencadeou a imprevista avalanche, e a Espanha se esquartejou por completo. De repente, a equipe incubou um vírus com o qual ninguém contava, como essas indisposições físicas que um dia, durante um campeonato, afetam sem aviso prévio os ciclistas mais épicos e legendários. A epidemia afetou todos, veteranos e novatos. Ninguém era o que já foi. A técnica abandonou alguns, e o físico zombou até daquele que há um mês era o jogador mais exultante do mundo, Sergio Ramos, a quem Robben quase deixa desmaiado num pique. Um aviso geral e inequívoco de que havia chegado a hora para uma geração gloriosa. O destino não lhe concedeu uma segunda chance contra o Chile, onde já não havia pernas nem cabeça. Uma partida para o arremate final e uma amarga despedida.

O futebol não atende a questões do coração, de forma que para muitos, para os que já haviam decidido se aposentar da seleção e para os que ainda iam pensar nisso, a situação foi traumática. É o caso de Xavi e Vila, que, contra os chilenos puseram seu ponto final na seleção com um olhar perdido, no banco de reservas. Depois da frustração, será preciso ver o que decidem Xabi Alonso e Iker Casillas, que não ofereceram sua melhor versão, e Fernando Torre. Por enquanto, nenhum deles deu pistas de que gostaria de deixar a Roja, mas pode ser que optem por um passo lateral após anos e anos de sobrecargas. Façam o que fizerem, a federação prevê expressar sua gratidão a toda essa geração ainda neste ano. Todos serão homenageados por ocasião de uma partida da seleção, e se aproveitará o ato para entregar a medalha pelos 100 jogos de Ramos, Puyol e Torres pela seleção.

O presente imediato passa pelo viveiro da sub-21, categoria fortalecida desde a chegada de Del Bosque ao time principal. Na opinião do técnico espanhol, a passagem por essa categoria é quase obrigatória antes de dar o grande salto. Seus acenos à segunda equipe foram constantes, tendo convocado Bartra, Nacho e Deulofeu, por citar alguns casos. Eles receberão o bastão, junto a jogadores como De Gea, Koke, Isco, Iturraspe, Thiago, Carvajal, Alberto Moreno e Íñigo Martínez.

Quanto a Vicente del Bosque, responsável como é, cogita agora deixar o cargo. Sente-se parte crucial do fracasso, e não é daqueles que olham para o outro lado ou ligam o ventilador. Os dirigentes da federação querem que ele continue no cargo a todo custo, e tentarão convencê-lo disso. Ontem mesmo, depois da surra, a direção da entidade reiterava que não cogita uma alternativa, não vislumbra um cenário sem Del Bosque, visto como o melhor guia possível para liderar a reforma. “Não há uma segunda opção, queremos conversar longamente com ele para convencê-lo quando retornarmos à Espanha”, afirmava um alto funcionário da federação. Nem sequer cogitam lhe oferecer o cargo de diretor técnico, como foi Fernando Hierro. Com contrato até a Eurocopa da França de 2016, querem que comande o futuro como treinador, no banco. Talvez porque o melhor futuro desta Espanha hoje penitente está em seu passado, em não se afastar nem um dedo do caminho dos últimos seis anos.

(atlas)