Nem honra nem paixão

O problema da Espanha não foi perder, mas não levantar a cabeça, não deixar nenhum gesto de grandeza, vacilar sem um ato de rebeldia, sem nenhuma energia ou impulso

Xavi no banco de reservas junto a Juanfran e a Torres.
Xavi no banco de reservas junto a Juanfran e a Torres.ALEJANDRO RUESGA

O brinquedo se quebrou na Espanha. A bola passou do tic-tac ao toc-toc de forma tão previsível quanto irremediável, razão suficiente para que aflorem novamente as dúvidas e surjam as vozes do futebol de resultados, como se eles tivessem a fórmula do sucesso, incapazes de lembrar que a Espanha foi importante para o futebol pelo estilo, e não pela fúria. A Roja terá pela frente uma digestão muito difícil da derrota, se a compararmos com o Barcelona.

Já se sabia da dificuldade de poder jogar com segurança de bons resultados no Rio de Janeiro. Os jogadores espanhóis foram muito exigidos por seus clubes durante uma temporada que acabou com títulos do Atlético, do Sevilla e do Real Madrid. Também se sabia do mau momento de alguns jogadores do Barcelona, que há algum tempo esqueceram-se da cultura do esforço, como se pudesse jogar sempre apenas com a memória.

Não se pode esquecer, também, que os ícones da equipe envelheceram. Xavi, o jogador que simboliza a maneira de entender o futebol na seleção, já tem 34. Casillas, o capitão que fez a diferença com suas defesas, já não garante vitórias aos 33 anos. E, aos 32, Xabi Alonso mostra o desgaste físico e psicológico dos campeões já cansados de títulos, sintetizado em sua confissão: “Nos faltou fome”.

Os adeptos dos resultados tentarão aparecer de novo, como se essa era dos estilistas tivesse sido um parêntese no futebol

O plano futebolístico não funcionou, e isso ficou claro nos jogos com a perda repetida da posse de bola, a falta de segurança defensiva e o desequilíbrio no ataque, e também não houve mudanças marcantes, como se os ruins tivessem contagiado os bons, uns e outros sem qualidade nem agressividade. Não se pode jogar como a Espanha pretende sem que os jogadores estejam muito bem de pernas e de cabeça, ao contrário do que pensam aqueles que veem o tiqui-taca como um jogo de truques, de tocar e passar, como se os esforços físicos dele fossem limitados.

Um bom conhecedor do Camp Nou explicava com precisão como se destrói uma equipe de famosos: um dia eles deixam de treinar e vencem; no segundo dia, saem da dieta e continuam vencendo; no terceiro dia saem na noite e de novo conseguem vencer; no quarto, perdem sem que o jogador saiba se foi pela falta de treinos, pela alimentação, por não se cuidar ou porque o adversário era melhor. Não quer entender que a derrota é fruto da soma de todos os fatores.

A rotina e a inércia, a administração e a gestão, devoraram a paixão, e sem esse fogo não há vida, muito menos no futebol. Deve-se olhar para os jogadores para saber de sua voracidade. E Del Bosque advertiu que não havia fogo nos olhos de seus garotos mais famoso – só foi capaz de ver brilho nos olhos de Koke, reserva – e também não conseguiu acendê-los com a convocação de novos jogadores, como Diego Costa. Do mesmo modo, também não se acertou com a concentração na fria Curitiba.

A Espanha nunca esteve à vontade no Brasil e foi vítima de um ataque de melancolia que antecipou uma morte de certa forma anunciada desde a saída de Madri. Havia a sensação de que a seleção espanhola queria uma derrota digna ou pretendia ter uma grande desculpa para não ganhar a Copa. Conquistar o bicampeonato não parecia muito provável, nem possível pela força dos rivais e pelas próprias limitações da Espanha.

A rotina e a inércia, a administração e a gestão, devoraram a paixão, e sem esse fogo não há vida, muito menos no futebol

Então o treinador, os jogadores, os torcedores e a crítica fecharam os olhos e se entregaram à busca de uma despedida honrosa, que faça justiça com o currículo de jogadores que ganharam o direito de dizer adeus, intocáveis como campeões. Há situações que não têm mais volta, e poucas como a da Espanha no Brasil. O problema, no entanto, não foi perder, mas não levantar a cabeça, não deixar nenhum gesto de grandeza, vacilar sem um ato de rebeldia, sem nenhuma energia ou impulso para mudar.

A insegurança tornará muito difícil lidar com o jogo diante da Austrália, o último antes do retorno definitivo. Não será fácil defender o estilo como um conceito antes que se remeta aos lances do jogo e especialmente ao placar. Ainda que previsível, o final foi tão chocante que já se especula a possibilidade de demissão do treinador. Há que se respeitar a decisão de Del Bosque, mais do que obrigar-lhe a continuar, e menos ainda como se fosse um favor, nem que seja por respeito a sua obra gigantesca, que fica clara em sua excelente gestão dos egos, mais do que no trabalho tático.

Se a revolução futebolística da Espanha começou com Luís Aragonés, Del Bosque a elevou ao quadrado: vencer jogando bem, com os melhores jogadores, sem nenhum ataque de estrelismo nem vontade de aparecer mais que os outros, simplesmente com uma liderança bem compreendida. Agora chega a etapa de renovação e não basta ter cintura, mas sim cabeça e determinação. Os adeptos dos resultados tentarão aparecer de novo, como se essa era dos estilistas tivesse sido um parêntese no futebol.

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