Opinião
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O sistema do sorteio dos grupos da Copa é injusto. Vamos mudá-lo

O autor critica o atual método de definição da primeira fase da Copa do Mudo e propõe uma forma mais equilibrada

Dilma Rousseff e Joseph Blatter (centro), no sorteio do Mundial.
Dilma Rousseff e Joseph Blatter (centro), no sorteio do Mundial. (REUTERS)

O controverso sorteio da Copa do Mundo, em que a composição dos potes causou muita polêmica, deixou em evidência a injustiça de um sistema fundamentalmente mal concebido. No entanto, existe uma maneira simples de solucioná-lo. 

Este ano, cinco continentes estarão representados na Copa do Mundo: Europa (13 seleções), América do Sul (6), América Central e do Norte (Concacaf, 4), África (5) e Ásia (4). Ao dividir as 32 seleções em oito grupos com quatro, a Fifa se guia por dois critérios legítimos: o equilíbrio e a separação geográfica.

A Fifa se guia por dois critérios legítimos: o equilíbrio e a separação geográfica

O princípio do equilíbrio significa que os oito grupos devem ter um nível de competitividade parecido, enquanto o critério de separação geográfica implica que não haja duas equipes do mesmo continente no mesmo grupo (exceção feita à Europa, que pode ter um máximo de duas equipes).

O sistema atual dá prioridade ao critério geográfico e prejudica o do equilíbrio, dividindo primeiramente as 32 seleções em quatro grupos chamados “potes”. Esta foi a composição dos quatro potes anunciados pela Fifa em dezembro de 2013, três dias antes do sorteio:

POTE 1 (cabeças-de-chave): Brasil, Espanha, Alemanha, Argentina, Colômbia, Bélgica, Uruguai e Suíça.

POTE 2 (África/America do Sul): Argélia, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Chile e Equador.

POTE 3 (América do Norte e Central/Ásia): Costa Rica, Honduras, México, Estados Unidos, Austrália, Irã, Japão e Coreia do Sul.

POTE 4 (Europa): Bósnia-Herzogóvina, Croácia, Inglaterra, França, Grécia, Itália, Holanda, Portugal e Rússia. (Devendo um deles mudar para o pote 2 no dia do dorteio).

O evento esportivo mais importante do mundo merece o sorteio mais justo possível, à altura de seu prestígio e paixão que desperta em todo o planeta

No sorteio, cada grupo de quatro inclui uma equipe escolhida aleatoriamente de cada um dos potes. Neste sistema, consegue-se um nível mínimo de equilíbrio, colocando as equipes mais fortes e o país anfitrião no pote 1, dos cabeças de chave. Depois, a Fifa forma os potes 2, 3 e 4 usando somente o critério geográfico, ignorando a posição em seu ranking de todas as equipes. Este ano, o pote 2 foi composto por times africanos, Chile, Equador e mais uma seleção europeia (que no fim acabou sendo a Itália). O pote 3 formou-se com equipe da Concacaf e da Ásia. O 4, ficou com as oito equipes europeias restantes. Desta forma, era fácil assegurar a diversidade geográfica.

Mas muitos torcedores reclamam, com razão, de que o sistema é injusto. Os Estados Unidos, por exemplo, apesar de ocuparem a posição 13 no ranking da Fifa, ficaram no pote 3 com o 24o, 31o, 44o, 49o, 56o e 57o. Assim, eles têm certo que jogarão contra um cabeça de chave (1o ao 7o do ranking, mais o Brasil, 11o ) e contra um time Europeu (8o ao 21o lugar no ranking), e que, em nenhum caso, enfrentaria as frágeis seleções asiáticas (classificadas entre 44o e 57o). De fato, os Estados Unidos acabaram naquele que acabou sendo considerado o grupo mais difícil, ou o “grupo da morte”, com Alemanha (2o), Portugal (14o) e Gana (23o).

Os chilenos também têm direito a sentirem-se prejudicados já que, sendo o 12o colocados no ranking, foram incluídos no pote 2, com equipes que estão entre o 17o e o 59o lugares, e colocado automaticamente em um grupo com dois europeus, um deles entre 1o e 7o lugares no ranking, os outros entre 8o e 21o. E assim foi: o Chile foi sorteado junto da Espanha (1o) e Holanda (8o), os finalistas de 2010.

Comparando os dois resultados, os novos grupos são mais equilibrados

O ponto mais polêmico do sorteio (que alguns chegada a chamar de “potegate”) surgiu quando a Fifa divulgou que a seleção europeia do pote 2 seria, também, sorteada. Em edições anteriores, o europeu pior colocado era o escolhido para mudar da pote, o que neste caso significaria a França, enquanto este novo critério colocava seleções muito bem classificadas também em perigo. Isto provocou uma reação nervosa de federações, torcedores e jornalistas, mostrando que o Secretário Geral da Fifa, Jeróme Valcke, foi quem sugeriu a mudança, e suspeitando que um influente compatriota, o presidente da Uefa Michel Platini, ajudou na aprovação.

No dia seguinte, o jornal italiano Corriere dello Sport gritava em sua manchete: “Sorteio da Copa do Mundo 2014: que escândalo!”

Dito isto, a ideia deste artigo é provar que um sorteio mais equilibrado, e ao mesmo tempo respeitador do critério geográfico, é possível se os potes forem organizados de forma diferente.

Eis a minha proposta:

As 32 seleções se agrupariam em oito potes de quatro equipes cada uma, seguindo suas respectivas classificações no ranking da Fifa. No pote 1, colocaríamos as quatro equipes melhores classificadas (neste caso o Brasil – país-sede –, Espanha, Alemanha e Argentina), no pote 2 os quatro seguintes (Colômbia, Bélgica, Uruguai e Suíça), e assim sucessivamente. Para assegurarmos o equilíbrio, as equipes do pote 1 se agrupariam com as dos potes 4, 5 e 8 (primeiro sorteio), enquanto as do pote 2 ficaram em grupos com as dos potes 3, 6 e 7 (segundo sorteio).

MAIS INFORMAÇÕES

Antes de sortear as equipes dos potes 3 a 8, sortearíamos primeiro seus continentes. Este ano, por exemplo, o pote 4 teria tido três equipes europeias e uma da Concacaf, enquanto o pote 5 teria três europeus e um africano. O pote 8 teria três seleções asiáticas e uma africana. Isso nos deixa com 6 possíveis distribuições continentais para o primeiro sorteio, cumprindo o princípio da separação geográfica, sendo a seguinte uma delas:

- Brasil, Europa, Europa, Ásia

- Espanha, Europa, África, Ásia

- Alemanha, Concacaf, Europa, África

- Argentina, Europa, Europa, Ásia

Para o segundo sorteio, 24 distribuições continentais dos potes 3, 6 e 7 cumpririam o critério geográfico. No dia do sorteio, escolheríamos primeiramente duas combinações geograficamente aceitáveis de forma aleatória, uma para o primeiro sorteio e a outra para o segundo. Para isso, poderíamos utilizar dois dados, um 6 faces e um de 24.

Depois, sortearíamos as equipes. Começando pelo pote 8, escolheríamos as equipes de forma sequencial, e elas seriam colocadas no primeiro espaço disponível para seus continentes. No exemplo acima, se Camarões fosse escolhida primeiro no pote 8, iria diretamente para o grupo da Alemanha. Depois, se o Irã fosse escolhido em segundo, iria para o grupo do Brasil, e assim sucessivamente. Uma vez terminado, repetiríamos a mesma operação para os potes de 7 a 3.

Além disso, para garantir o equilíbrio dos cruzamentos depois da fase de grupos, os cabeças de chave 4, 5 e 8 seriam colocados aleatoriamente nos grupos C, E e G, e os cabeças de chave 2, 3, 6 e 7 aos grupos B, D, F e H (o grupo A está reservado para o anfitrião Brasil). Ao contrário do sistema de que se utiliza a Uefa atualmente para formar os grupos da Champions League, este sistema é totalmente justo. Todos os possíveis resultados são igualmente prováveis. Fiz um novo sorteio seguindo essas regras, e o resultado foi:

A: Brasil, Bósnia-Herzegóvina, Rússia e Irã

B: Bélgica, Chile, Gana e Japão

C: Argentina, Grécia, Croácia e Coreia do Sul

D: Espanha, Portugal, Costa do Marfim e Austrália

E: Suíça, Holanda, Equador e Honduras

F: Uruguai, Inglaterra, Costa Rica e Nigéria

G: Colômbia, Itália, México e Argélia

H: Alemanha, Estados Unidos, França, Camarões.

Enquanto os grupos formados pela Fifa são:

A: Brasil, Croácia, México e Camarões

B: Espanha, Holanda, Chile e Austrália

C: Colômbia, Grécia, Japão e Costa do Marfim

D: Uruguai, Costa Rica, Itália e Inglaterra

E: Suíça, Equador, França e Honduras

F: Argentina, Bósnia-Herzegóvina, Irã e Nigéria

G: Alemanha, Portugal, Gana e Estados Unidos

H: Bélgica, Argélia, Rússia e Coreia do Sul.

Comparando os resultados, os novos grupos são mais equilibrados. A Nigéria substitui a Itália no grupo da Inglaterra. A Holanda entra no lugar da França no grupo E. Chile e Estados Unidos têm grupos mais justos para tentar chegar às oitavas. Ah, e além disso elimina-se a possibilidade de uma nova polêmica como a do “potegate”: Inglaterra, Uruguai e Itália nunca poderiam acabar no mesmo grupo, assim como Espanha, Holanda e Chile.

Este novo sistema é simples, totalmente justo, proporciona resultados equilibrados e respeita a diversidade geográfica dos grupos, além de ser um formato atrativo para fazer do sorteio um evento midiático no mundo inteiro.

Acho que o sorteio deveria ser realizado assim, e espero poder convencer a Fifa e os torcedores. O evento esportivo mais importante do mundo merece o sorteio mais justo possível, à altura de seu prestígio e paixão que desperta em todo o planeta.

Julien Guyon é matemático, francês e fanático por futebol. Todos os detalhes sobre este sistema alternativo estão disponíveis no seguinte link. Este artigo foi publicado, também, pelo The New York Time e pelo Le Monde

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