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Copa do Mundo 2014

Marcelo se livra do álbum fatídico

O lateral do Real Madrid é o primeiro brasileiro a marcar gol contra em uma Copa, no toque que abriu o placar para a Croácia

Marcelo marca no próprio gol. Ampliar foto
Marcelo marca no próprio gol. AP

Os vagões da linha do metrô que leva ao Itaquerão, no sopé da colina na qual se ergue a moderna Arena São Paulo, formavam uma lagarta amarela radiante, embora silenciosa. A torcida brasileira abarrotava os trens com rostos impacientes em um trajeto que desde o centro da cidade leva 40 minutos, a maior parte entre os milhares de arranha-céus que desenham uma paisagem de sequoias de tijolo habitáveis. De vez em quando, alguma corneta e algum grito agudo de Brasil rompia essa atmosfera estranha, que terminava somente quando os torcedores começavam a se ver perto do estádio, já sem sombras de edifícios grandes e pontilhado ao redor por construções mais baixas e modestas.

Mas nas imediações do estádio o ambiente já demonstrava que o Brasil ia jogar. Milhares de camisetas amarelas desfilavam em direção ao estádio preparadas para uma festa e uma vitória que Luiz Felipe Scolari pretendia que se consolidasse já nos primeiros minutos do jogo. Durante toda a semana o técnico brasileiro havia insistido com seus jogadores em um início vulcânico. Pretendia uma arrancada com o mesmo tipo de ação com garra e ofensiva que na Copa das Confederações levou o Brasil a marcar a maioria de seus gols antes dos primeiros quinze minutos de partida. Na intenção ambiciosa de Scolari também se incluía a união da arquibancada com seus jogadores desde o primeiro momento. Está muito convencido Felipão de que a arquibancada pode ajudar aos jogadores a criarem um ambiente insuportável para seus rivais. Em cada conversa ressaltou a importância de marcar logo.

Ninguém festejou mais o gol de Neymar do que o jogador da defesa, resgatado pelo atacante

Apareceram todos no campo para o aquecimento apontando com o dedo indicador para o céu, invocando uma ajuda divina. Explodiu o estádio, que a partir daí não deixou de emitir um ruído estrondoso até que um chute rasteiro de Olic pela esquerda cruzou com a fatal presença de Marcelo. O lateral do Real Madrid não viu a bola e com o impulso de sua própria corrida viu como sua perna direita o inseria na história nefasta do Brasil. O infortúnio o transformou no primeiro jogador brasileiro a marcar um gol contra em uma Copa do Mundo. O rosto e o olhar dele ficaram tensos, em meio ao silêncio que durou pouco, mas evocou esses velhos fantasmas que tanto atormentam o futebol brasileiro.

Petrificado, Marcelo recebeu o consolo de Julio César, que lhe passou a mão por sua encaracolada cabeleira. Ainda mantinha uma aparência de desespero enquanto caminhava até sua posição conversando dom David Luiz. Parecia estar consciente de que esse gol, se não houvesse uma reviravolta, o colocaria no mesmo álbum de figurinhas malditas da Canarinha inaugurado por Barbosa. Os próprios companheiros o viram pouco quando passou ao ataque e se esfumaçou esse lateral ousado e anárquico no ataque devido ao peso do erro.

Ninguém celebrou o gol de empate de Neymar mais do que Marcelo. Correu de uma ponta à outra do campo para festejar esse disparo rasante e daninho. Recuperou então o sorriso que o havia acompanhado durante os dias anteriores à partida.

Seu erro no gol da Croácia aterrorizou um país que não esperava um começo como esse

Na concentração de Teresópolis, Marcelo é um dos grandes animadores nos treinamentos e nos quartos. Seus companheiros o procuram e o rodeiam em grupinhos nos quais faz rir até mesmo a Scolari. Sua atuação na final da Liga dos Campeões, com gol inclusive, tinha elevado no vestuário seu papel de jogador de peso.

Festejou como se fosse um gol o pênalti em Fred e voltou a empreender uma corrida eufórica para voltar a abraçar Neymar. Aliviado, atendeu ao chamado de Scolari, que havia insistido que, já em vantagem, ele mantivesse sua posição e não se aventurasse no ataque. No entanto, encorajado, não pôde conter-se em um par de vezes. Talvez procurasse redimir-se de um erro que aterrorizou um país inteiro, ante o qual se ajoelhou quando Oscar acertou esse chutaço, também encaixado. Terminada a partida e, de novo, tendo ao fundo o eco dos protestos contra a presidenta Dilma Rousseff, ajoelhou-se no gramado.

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