Obama estuda ataques aéreos para frear os jihadistas

A escalada de violência causou perplexidade nos EUA, envolvidos em uma estratégia de retirada no Iraque

O presidente Obama durante a reunião bilateral com o primeiro-ministro australiano na Casa Branca, nesta quinta-feira.
O presidente Obama durante a reunião bilateral com o primeiro-ministro australiano na Casa Branca, nesta quinta-feira.MANDEL NGAN (AFP)

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, cuja ascensão foi indissociável do ‘não’ à guerra do Iraque, estuda intervir com ataques aéreos no país árabe para ajudar o Governo de Bagdá a frear o avanço dos jihadistas. Entre as opções que Obama estuda, figura o envio de drones – aviões não tripulados – ou de caças militares, mas sem a mobilização de tropas.

Os avanços do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL) conturbaram a estratégia de retirada da Administração Obama do Oriente Médio, desmentindo os diagnósticos otimistas dos colaboradores do presidente a respeito desse país e obrigando os EUA a se ocuparem das repercussões de uma guerra que Washington gostaria de esquecer.

A Casa Branca, diante das críticas por ter debandado antes do tempo, esforçou-se na quinta-feira em esclarecer por que os EUA deixaram o Iraque em segundo plano, em quais condições poderiam agora retornar e como a escalada de violência e de sectarismo no país poderá alterar os planos da principal potência para se retirar do Afeganistão em 2016.

“Não descarto nada, porque colocamos muita coisa em jogo ao nos assegurarmos de que esses jihadistas não se estabeleçam nem no Iraque nem na Síria”, declarou Obama. O presidente acrescentou que sua equipe de segurança nacional “estuda todas as opções”. No entanto, “não se cogita colocar tropas no terreno”, esclareceu seu porta-voz, Jay Carney.

Barack Obama chegou ao poder em 2009 contrapondo-se à invasão do Iraque em 2003. Prometeu a retirada e cumpriu: desde o final de 2011, depois do fracasso de um pacto entre Washington e Bagdá que permitiria a permanência de milhares de soldados, não há mais militares dos EUA no Iraque. Mas o que Obama esgrimia como um êxito em sua política externa ameaça agora manchar seu legado.

A violência dos últimos dias coloca o presidente perante um dilema: ou ele se abstém de intervir e permite uma escalada que deixa em xeque os resultados da retirada, ou envia aviões ou drones e reaviva a lembrança de uma intervenção que, mesmo sem tropas, seria comparada àquela que ele rejeitou, que dividiu os EUA e que estimulou o antiamericanismo.

“Durante anos, o presidente Obama atribuiu-se o mérito de ‘acabar guerras’ quando, na realidade, estava retirando os Estados Unidos de guerras que estavam longe de ter acabado”, escreve em editorial o The Washington Post. Na Síria, o presidente cancelou em setembro uma intervenção aérea já programada, mas as matanças continuaram.

Obama decidiu então submeter o ataque ao regime de Bachar el Asad à votação no Congresso dos EUA. Ao suspender a intervenção, a votação não aconteceu. Mas a decisão de consultar abriu um precedente que o Congresso pode citar em caso de uma intervenção aérea no Iraque.

O Iraque expõe os limites da doutrina Obama: a ideia, que o presidente formulou em seu discurso recente em West Point (Nova York), de que os EUA liderarão o mundo sem necessidade de resolver os problemas de outros países com intervenções militares. Aqueles que nos EUA se opunham à retirada completa em 2011 veem agora sua posição reivindicada.

“O que os americanos deixaram foi um Estado iraquiano incapaz de funcionar por si só. O que construímos agora se desmorona”, disse em um discurso ao Senado o republicano John McCain, senador por Arizona e rival do democrata Obama nas eleições presidenciais de 2008. McCain pediu a demissão da equipe de segurança nacional do presidente.

A escalada no Iraque é um augúrio inquietante para o Afeganistão, a outra guerra em um país muçulmano que os EUA realizaram após os atentados de 2001. Obama anunciou a retirada completa para o final de 2016, mas o risco de que o Afeganistão pós-EUA se pareça com o Iraque pós-EUA – dividido, corrupto, violento – reabre o debate sobre o calendário.