O ‘Plano Draghi’ deixa o mercado entusiasmado

O novo pacote de estímulos do BCE impulsiona a venda da dívida pública espanhola com os menores juros da história do euro

Imagem dos escritórios do grupo encarregado do leilão de bônus.
Imagem dos escritórios do grupo encarregado do leilão de bônus.

O bom momento do mercado espanhol deu um salto qualitativo nesta sexta-feira devido a um plano de estímulos sem precedentes na história do Banco Central Europeu (BCE). Um dia depois de anunciar medidas extraordinárias de liquidez, os investidores exigiram pelos títulos da dívida espanhola menos juros pelos do Reino Unido. Há poucos indicativos mais ilustrativos que esse para mostrar que a dívida pública espanhola encontra-se em estado de graça. O título de dez anos foi trocado hoje com juros de 2,63%, valor mais baixo da história do euro, e o dos britânicos a 2,65%.

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Há dois anos, quando a Espanha estava prestes a pedir resgate à Europa para seus bancos, os investidores exigiram por esse mesmo título quase 7%. A diferença em relação ao da Alemanha, que é considerado o mais seguro, era de quase 700 pontos básicos (ou sete pontos percentuais). Hoje, essa discrepância, conhecida como prêmio de risco, caiu para 129 pontos básicos, 13 a menos que no dia anterior, o menor nível em quatro anos.

A rentabilidade que se pede a um Estado para emprestar-lhe dinheiro é um bom termômetro da confiança que a sua economia inspira, mas a chuva de liquidez nos mercados também influência a cotação dos títulos soberanos. Por isso, essa melhora para a Espanha foi possível antes de acabar a recessão da crise atual e apesar de uma taxa de desemprego de 25%.

A Bolsa chega aos 11 mil pontos

A. Mars

Os Estados Unidos, com os dados sonoros de que havia recuperado todos os empregos perdidos durante a crise, colocou a cereja no topo do bolo de um dia marcado pelos estímulos monetários do Banco Central Europeu (BCE). Tudo isso se traduziu em crescimento nos principais locais.

Madrid registrou o maior crescimento: o índice Ibex 35 subiu 1,73% durante o dia, maior avanço diário registrado desde fevereiro, o que permitiu terminar o dia acima dos 11 pontos pontos, uma barreira simbólica que não era atravessada desde abril de 2010. Acabou em 11.064. Depois da bolsa espanhola, foi a vez da italiana, que registrou os maiores ganhos em 1,54%, enquanto Frankfurt reagiu com um avanço de apenas 0,40%, e Paris, 0,71%.

Os investidores interpretaram as novidades do BCE como algo muito positivo para os bancos, que na Espanha puxam com força a Bolsa. O organismo dirigido por Mario Draghi oferecerá cerca de 400 milhões de euros a juros muito baratos que serão emprestados a empresas e famílias. O Santander e o BBVA, que representam aproximadamente um terço da cotação do seletivo, curiosamente subiram com a mesma taxa, 2,84%, enquanto outras entidades como o Caixabank e o banco Popular aproveitaram o dia com crescimentos de 1,83% e 1,22%, respecetivamente. O Sabadell experimentou a maior alta, de 2,90%.

Apenas quatro índices fecharam a sessão com perdas: Amadeus (- 0,72%), Técnicas Reunidas (-0,29%), Viscofan (-0,15%) e Dia (-0,02%).

Ainda falta muito para Bolsa espanhola alcançar o seu máximo de 16 mil pontos, um pico em 2007. No outro lado do Atlântico, em Wall Street, que já se recuperou depois da Grande Recessão, o índice de referência, o Dow Jones, avançava em 0,47% em meio dia.

Se no verão de 2012 o presidente do BCE, Mario Draghi, acalmou a tormenta ao anunciar um programa de compra de títulos de dívida para países com problemas - que não chegou a ser aplicado - e assegurar que faria "todo o necessário" para salvar o euro, agora atua com medidas muito mais fortes: taxas de juro em um solo histórico de 0,15% e uma injeção de 400 milhões de euros aos bancos para que eles emprestem a empresas e famílias para reanimar a economia.

A euforia também atingiu os títulos de três anos, cujos juros também estão em um mínimo histórico (0,7%), e os de cinco anos, para o qual os investidores exigiram 1,22%, também o valor mais baixo da história do euro.

Dessa vez, não foi o incêndio de algum país que levou o BCE a colocar em funcionamento a máquina de fazer dinheiro, mas uma economia anêmica generalizada, com problemas de acesso a créditos e inflação baixa. A fortaleza do euro não estava ajudando. No entanto, o euro teve pouca variação na última quinta-feira ou hoje, depois do anúncio do organismo europeu de colocar os juros próximos a zero, o que teoricamente pressiona a sua baixa cotação em relação ao dólar. O euro foi trocado por 1,36 dólares, com um leve retrocesso de 0,17%, e no dia anterior, o do anúncio do BCE, a moeda europeia inclusive se valorizou, devido em boa parte a que estava há semanas corrigindo-se em baixa depois de ficar em torno de 1,38 em meados de maio.

Houve um efeito imediato no Euribor, que é o juros utilizado pelos bancos para emprestar dinheiro entre eles e que serve de referência para as hipotecas. Recuou em um único dia em 19 milésimas, de 0,56% a 0,33%.

Debaixo desse otimismo que irradia do mercado, há uma economia real, a saber, produtiva e cheia de perigos. "O risco real é que o crescimento se mantenha em níveis baixos por causa dos dados demográficos e da prudência geral. Isso levará à recuperação das receitas fiscais, mas não será suficiente para começar a minimizar uma quantidade notável de empréstimos pendentes", avisou o gestor do fundo Henderson Horizon Pan European Equity, Tim Stevenson.

Se isso for feito de forma errada, o ás que Draghi ainda guarda na manga é a compra dos ativos. O vice-presidente do BCE, Vítor Constâncio, esteve em um evento em Londres 24 horas depois do anúncio do Plano Draghi. "Estamos em uma espécie de círculo vicioso por causa da baixa inflação, de expectativas pouco ancoradas e choques externos. Seria necessário um programa de compra de títulos", tranquilizou.