Quais os efeitos das medidas?

A diminuição das taxas de juros levará à queda do euribor, deveria facilitar o crédito e fará cair o euro

A diminuição das taxas de juros oficiais – de 0,25% a 0,15% – e o fato de que o Banco Central Europeu (BCE) irá cobrar pela primeira vez das entidades que deixam seus depósitos (juros negativos de 0,10%) têm o objetivo de estimular o crédito e acabar com a anemia da zona do euro: menos juros, hipotecas mais baratas. Além do mais, será realizada uma grande injeção de liquidez de 400 bilhões de euros (1,235 trilhão de reais) destinados a créditos à economia real e que não poderão ser usados nem para hipotecas, nem para empréstimos ao setor público. Às vezes atrasadas e às vezes ruins, mas as decisões anunciadas nesta quinta-feira em Frankfurt costumam acabar influenciando de diferentes formas no fluxo de dinheiro na rua, apesar de que as decisões monetárias atuam mais rapidamente e de forma mais previsível quando são repressivas do que quando são expansivas. Como dizia o economista John M. Keynes, a política monetária é como uma corda nas mãos dos dirigentes dos bancos centrais: podem puxá-la subindo o preço do dinheiro e freando excessos econômicos, mas é difícil empurrar essa corda.

Hipotecas mais baratas... mas só as já contratadas

É o efeito mais rápido e comprovável de uma baixa do preço do dinheiro, já que o tipo de juros variável usado como referência na maioria das hipotecas na Espanha, o euribor a 12 meses, que é o preço pelo qual os bancos emprestam entre si e está vinculado às taxas de juros oficiais. Assim que foi anunciada a medida, o euribor estava cotado a 0,562%, em comparação com 0,567% do dia anterior. O indicador já estava em baixa há vários dias frente à expectativa de uma baixa do preço do dinheiro, que era vista como certa nos mercados.

Em julho de 2012, quando o BCE diminuiu pela primeira vez o preço do dinheiro abaixo do 1% (até 0,75%), o euribor diminuiu oito centésimos em um único dia. Continuou descendo até tocar o mínimo, 0,47% em 23 de maio de 2013. Depois voltou a subir.

Agora é preciso ver com que intensidade e rapidez isso se traduz na queda das taxas, porque o euribor já está em um nível tão baixo (0,56%) que não servirá para comemorar com champanha: se essa redução de um décimo da taxa de juros for transferida em sua totalidade, a economia para uma hipoteca de 120.000 euros a 20 anos com um financiamento pelo euribor mais meio ponto seria de uns 60 euros anuais.

Mais crédito disponível... ao menos em teoria

O BCE anunciou hoje uma nova munição para que o aperto de crédito se abra de uma vez por todas na zona do euro, depois de vários anos nos quais as injeções de crédito barato (os chamados LTRO pela sigla em inglês) para os bancos e a diminuição das taxas oficiais não tiveram nenhum efeito. Ao baratear o financiamento dos bancos, em teoria deveria ocorrer o mesmo com os empréstimos finais a empresas e famílias.

Desta vez, esses LTRO estão vinculados à concessão de empréstimos a famílias e empresa, buscando com isso evitar que essas toneladas de liquidez sirvam apenas para fortalecer os balanços dos bancos e investir na dívida pública, não chegando ao cidadão.

Mas agora, além desse outro corte das taxas oficiais, são penalizadas as entidades que tiverem depósitos no BCE com o objetivo de estimular que destinem a liquidez aos empréstimos. Os depósitos terão juros negativos, de 0,10%, o que implica na prática que os bancos pagarão ao BCE por ter ali depositado seu dinheiro, por isso a medida anunciada por Maria Draghi procura forçá-los a dar crédito.

O euro baixa: bons para exportadores e ruim para viajantes

A expansão monetária será traduzida em uma queda da cotização do euro frente ao dólar, em um momento no qual a fortaleza da moeda europeia começava a se tornar um problema para a competitividade exterior e a preocupar o BCE, como admitiu Mario Draghi em abril. Se cada euro se trocava ontem por 1,359 dólares, segundo o dado de fechamento da sessão, às três da tarde de hoje, conhecidas as decisões do banco, a moeda comum perdia ao redor de 0,37%.

O euro mais fraco favorece o câmbio das divisas de outros países e portanto melhora a competitividade dos produtos que se pretende exportar para fora da zona do euro. Por outro lado, é uma notícia um pouco mais negativa para os turistas espanhóis que, este verão, pensavam em viajar para algum país no qual é necessário trocar euros por dólares e ainda não tinham feito o câmbio.

Uma barreira a mais contra o risco da deflação

A baixa inflação que a zona do euro possui já há vários meses significou o último empurrão para que o BCE, pelo menos até agora o mais recatado dos grandes bancos centrais em termos de expansão monetária, utilizasse a artilharia pesada. Quando aumenta a massa de dinheiro disponível no sistema, teoricamente aumenta o crédito, melhora o investimento, o consumo e portanto, os preços acabam sendo impulsionados. Esse mecanismo serviria para deixar o índice de preços ao consumo (IPC) da eurozona, que em maio ficou em 0,5%, mais próximo do objetivo europeu: perto mas ainda abaixo dos 2%.

Na Espanha, a situação é paradoxal: a baixa inflação termina sendo positiva porque, depois de duas recessões e seis milhões de desempregados, realizou um tipo de desvalorização interna com cortes de salários e preços, e a busca de maior competitividade, mas se seus vizinhos tinham também uma inflação baixa, o esforço se perdia no caminho. O Fundo Monetário Internacional (FMI), apesar disso, advertiu que a economia espanhola é a que mais riscos possui de cair em deflação, que é uma queda generalizada e sustentada dos preços que acaba bloqueando o consumo e a atividade, porque a expectativa de uma perda de valor monetário desincentiva qualquer investimento.

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