O G-7 despreza Putin em Bruxelas

É a primeira reunião das sete potências industrializadas desde 1997 sem a presença de Moscou

Putin (esq.) e Obama (dir.), em junho.
Putin (esq.) e Obama (dir.), em junho.Y. K. (AFP)

A intensidade das medidas de segurança costuma estar diretamente relacionada à importância de um evento. Bruxelas acordou nesta quarta-feira cercada pela polícia para sediar a reunião do G-7 marcada por uma ausência: é a primeira reunião sem a Rússia nos últimos 17 anos daquelas que um dia foram as sete maiores potências industrializadas do mundo, um desprezo explicado pela incursão de Vladimir Putin na Ucrânia nos últimos meses. Putin, ainda assim, permanecerá como um fantasma durante todo o encontro.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, põe à prova em solo europeu a sua nova doutrina: liderar o mundo por meio de coalizões internacionais sem recorrer à força; os EUA passaram em pouco tempo de acreditar que podiam lutar duas guerras ao mesmo tempo a vislumbrar os seus limites com o Iraque e o Afeganistão. Porém, mais além da estratégia norte-americana, o G-7 terá como tema principal da reunião de cúpula as relações com a Rússia e a situação na Ucrânia, após as eleições vencidas por Petro Poroshenko, um veterano com uma boa relação com Putin, o que lhe dá margem para se aproximar simultaneamente de Moscou e da União Europeia.

“A Ucrânia é a prioridade da agenda; será o momento de avaliar os últimos aspectos da situação na Ucrânia e no seu entorno, e de continuar trabalhando para superar este e outros desafios”, disse o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy. O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, e ele vão jantar na noite desta quarta-feira com os líderes de EUA, Alemanha, França, Reino Unido, Canadá, Japão e Itália, em um G-7 que já tem 40 anos de história: o primeiro encontro foi em Rambouillet (França), em 1975; A Rússia não ficava de fora desde 1997.

Obama apresentará ao G-7 o seu novo plano de energia como exemplo para um acordo global sobre a mudança climática e fará um chamado à Europa para manter a pressão sobre a Rússia e reduzir a sua dependência energética de Moscou. Mas os líderes europeus têm agendas paralelas: logo após o G-7, a chanceler alemã, Angela Merkel, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e o presidente francês, François Hollande, terão reuniões bilaterais com Putin nas imediações durante as comemorações do 70º aniversário do desembarque na Normandia. Hollande também deve ter um encontro privado com Obama.

A decisão de deixar a Rússia fora do G-7 foi tomada em março, após a anexação da Crimeia, uma região do leste da Ucrânia que já está sob a soberania russa. Desde então, tanto os EUA como a UE – muito dependente do gás e do petróleo russos – impuseram duas rodadas de sanções econômicas contra Moscou, que representaram um duro castigo à economia russa, e ameaçam impor uma terceira rodada de sanções comerciais, econômica e financeiras se a Rússia não diminuir a tensão, algo que começa a acontecer muito lentamente, embora ainda persista o risco de desestabilização no leste da Ucrânia.

“Não se pode excluir um agravamento da situação, por isso a UE e o G-7 terão de considerar novas medidas se isso acontecer”, garantem fontes oficiais europeias. Voltam os tempos da dissuasão: os aliados – outra palavra que ressurgiu com a incursão de Putin perto das fronteiras da UE – pretendem conter os ânimos da Rússia com a ameaça de sanções, mas a Rússia está ciente de que, apesar dos esforços da Europa não vai ser fácil reduzir a sua dependência da energia procedente do Cáucaso.

Durante o jantar desta quarta-feira e durante toda a reunião de quinta-feira, em Bruxelas, não se falará apenas de Rússia e Ucrânia. Síria, Afeganistão, Mali, República Centro-Africana e Coreia do Norte também estão na agenda do G-7. Os acordos comerciais entre a UE e os EUA (bastante empacados), a recuperação da economia global, a ajuda ao desenvolvimento, a luta contra a mudança climática e a cooperação em matéria de evasão fiscal também estarão na mesa de negociações. Apesar de que, no fim das contas, o resultado da cúpula dependerá de Ucrânia e Rússia: Obama usará a visita à Europa – a segunda em um curto período de tempo, depois de alguns anos com foco nas suas relações no Pacífico – para apelar aos líderes europeus a não fragmentar a posição comum sobre a Rússia. O Ocidente se mobiliza para deixar clara a exclusão de Putin. Mas Putin joga em todas as frentes: nas três reuniões bilaterais com Merkel, Cameron e Hollande, e com a recente oferta à Ucrânia de uma semana a mais para pagar as suas contas de gás.