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O vice-presidente da Argentina terá de depor por tráfico de influências

Amado Boudou foi acusado de apropriar-se de uma empresa monopolista para poder ser contratado pelo Estado para imprimir papel-moeda

O vice-presidente argentino, Amado Boudou, o passado 4 de fevereiro.
O vice-presidente argentino, Amado Boudou, o passado 4 de fevereiro. EFE

O juiz Ariel Lijo citou para terça-feira, 15 de julho, o vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, a responder às acusações de tráfico de influência, processo em que está envolvido há três anos. É a primeira vez, nos 30 anos de democracia argentina, que um vice-presidente do Governo tem de responder como acusado perante um juiz. Depois de estudar as contribuições feitas pelos promotores na instrução do caso, o juiz avalia que quando Boudou era ministro da Economia (2009-2011), ele adquiriu, com seu sócio José María Núñez Carmona, 70% da empresa falida e monopolista Ciccone Calcográfica “com a finalidade última de que fosse contratada pelo Estado Nacional para a impressão de papel-moeda e documentos oficiais”. O juiz indica que o vice-presidente realizou a “manobra” por meio da sociedade The Old Fund e de Alejandro Vandenbroele, suposto testa-de-ferro.

A intimação volta a colocar a figura de Boudou no primeiro plano da agenda política, obscurecendo assim para o Governo a grande conquista alcançada pelo atual ministro da Economia, Axel Kicillof, ao firmar um acordo com os credores internacionais do Clube de Paris. Agora restam apenas duas semanas para começar a Copa do Mundo do Brasil.

Com o início da Copa, em 12 de junho, o noticiário político será substituído pelo esportivo. E justamente dois dias depois do jogo final é que Boudou terá de se apresentar no tribunal para prestar depoimento. Também devem estar presentes seu antigo sócio, José María Núñez Carmona, o suposto testa-de-ferro e os antigos donos da Ciccone Calcográfica.

Ao saber da intimação, o vice-presidente afirmou que não pensa em renunciar nem em pedir uma licença do cargo, como antecipam os meios de comunicação mais críticos ao Governo há várias semanas. Ele disse ter aceitado “com muita tranquilidade” a decisão do juiz, acrescentou que aguardava o momento de demonstrar sua inocência e ressaltou que as acusações são “um caso midiático, que tem a ver com a agenda dos jornais”.

Amado Boudou garante que não pensa em renunciar nem em se afastar do cargo

Boudou já declarou em um programa de televisão pública transmitido em 18 de maio que está disposto a prestar depoimento “para o que for necessário, na hora em que for necessário”. “Esta causa tem três hipóteses”, destacou. “Ou eu fiz algo para ajudar a empresa Ciccone por estar no Governo, ou fiquei com a empresa Ciccone, ou houve lavagem de dinheiro no resgate da empresa Ciccone. Vamos começar pela mais fácil, a terceira opção: não há nem um peso meu dando voltas por aí (...), não tenho nada a ver com lavagem de dinheiro. Quanto à primeira, não fiz nada em favor da empresa Ciccone no levantamento da falência porque não podia fazer. E vou dizer mais: ninguém no Governo fez nada para levantar a falência da empresa Ciccone (...). E essa pessoa, Vandenbroele, que dizem ser meu testa-de-ferro... Os documentos do processo mostram que Vandenbroele não tem nenhum bem. Então, mal poderia ser testa-de-ferro de alguém, nem de Boudou, a quem não conhece, nem de ninguém”, afirmou o vice-presidente.

No entanto, o juiz Lijo destaca em sua citação que Boudou aproveitou “sua condição de funcionário público” para entrar em acordo com os proprietários da empresa para a cessão de 70% da Ciccone Calcográfica “em troca da realização dos atos necessários para que a empresa pudesse voltar a operar e ser contratada pela Administração Pública”. “Nesse sentido, Amado Boudou teria tido ingerência, de forma direta, presenciando as reuniões para a aquisição”, relata o documento de seis páginas. Em seguida, o juiz acrescenta: “Além disso, [Amado Boudou] teria intervindo, por meio de intermediários, nos atos necessários para o levantamento da falência com o objetivo de obter o certificado fiscal para contratação pelo Estado Nacional. Essa finalidade teria sido satisfeita uma vez que Bodou já era vice-presidente em pelo menos uma oportunidade com a Casa da Moeda”.

Apesar de a presidenta não costumar fazer alusão em seus discursos à denúncia contra Boudou, Cristina Fernández de Kirchner expressou seu apoio incondicional ao mantê-lo no cargo. Em abril de 2012, em plena ebulição do caso Ciccone – que se diz Chicone –, a impressão era a de que Boudou poderia pedir demissão a qualquer momento. Mas, em vez disso, ofereceu uma coletiva de imprensa no Senado sem direito a perguntas. Soltou acusações contra o promotor geral Esteban Righi, um peronista histórico de 73 anos, que pediu demissão pouco depois; atacou também o juiz e o promotor que o investigavam e ambos foram afastados do caso. Boudou venceu claramente, mas não convenceu a todos. Seu poder no Governo foi se diluindo, ainda que Cristina Fernández nunca tenha pedido sua renúncia.

Agora, o advogado de Amado Boudou pediu o afastamento do juiz Lijo do caso, com o argumento de que ele ouviu depoimentos de membros da família Ciccone imputados no caso como testemunhas. Portanto, a mesma Câmara formada por três juízes que na época afastou do caso o juiz que deu início à investigação deve decidir se o juiz Lijo continua com a instrução.