Maduro acusa uma líder opositora de complô para assassiná-lo

A ex-deputada María Corina Machado rejeita as acusações e promete procurar a promotoria pública para denunciar o Governo

Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello apresentando o suposto complô.
Jorge Rodríguez e Diosdado Cabello apresentando o suposto complô. (AFP)

A primeira grande denúncia de tentativa de assassinato do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi divulgada nesta quarta-feira. Tanto o cenário da denúncia, o proscênio do Teatro Nacional, em Caracas, como os personagens que acompanharam seu porta-voz, o prefeito do município de Libertador (centro-oeste de Caracas), Jorge Rodríguez, revelaram a gravidade da acusação que seria lançada. O próprio chefe de Estado havia divulgado a notícia na noite anterior em seu programa En contacto con Maduro. O alto comando político da revolução faria anúncios importantes sobre o golpe de Estado contínuo contra o Governo.

Baseados em várias mensagens de e-mail interceptadas de duas contas do provedor Gmail, os principais líderes do chavismo – além de Rodríguez, estavam presentes o vice-presidente Jorge Arreaza, o número dois e presidente do Poder Legislativo, Diosdado Cabello, a primeira-dama, Cilia Flores, os ministros da Energia e Petróleo, do Interior e da Justiça e os governadores dos Estados de Aragua e Carabobo—acusaram a deputada cassada María Corina Machado de tramar um plano para assassinar Maduro. Os líderes não apresentaram outras provas senão os e-mails, em que se fala em “aniquilar Maduro”, frase em que eles se apoiam para fazer a acusação, embora ela possa ser entendida como metáfora da derrocada política do presidente.

Machado, que reconheceu em coletiva de imprensa posterior que as contas de e-mail lhe pertencem, teria enviado as mensagens entre março e maio de 2014 em diferentes momentos dos protestos que há quatro meses reivindicam a renúncia imediata de Maduro. Em março, quando os distúrbios tinham semiparalisado as principais cidades do país, a ex-deputada teria contado a um assessor, o advogado e ex-deputado Gustavo Tarre Briceño, sobre a pouca solidariedade de alguns membros da oposição com a causa encabeçada por ela e o líder opositor encarcerado Leopoldo López. “Já Kevin Whitaker me reconfirmou seu apoio e me indicou os novos passos a seguir. Contamos com recursos maiores que os do regime para romper o anel de segurança internacional que eles mesmos criaram às custas do dinheiro de todos os venezuelanos dado de presente”, ela teria escrito.

Kevin Whitaker é um funcionário do Departamento de Estado que foi nomeado embaixador dos Estados Unidos na Colômbia. Desde Washington, uma nota da agência EFE rechaçou a acusação, dizendo que é “falsa e infundada”. “Já vimos muitas vezes o Governo venezuelano tentar desviar a atenção de suas próprias ações, culpando os Estados Unidos por acontecimentos ocorridos na Venezuela”, acrescentou a fonte, pedindo anonimato.

Ela acrescentou que a acusação “reflete uma falta de seriedade por parte do Governo venezuelano ao lidar com a situação grave que enfrenta”. A Venezuela “deveria dar respostas às reivindicações legítimas do povo”, concluiu a fonte americana.

Rodríguez também mostrou comunicações trocadas entre a ex-deputada Machado e os ex-candidatos presidenciais Diego Arria e Henrique Salar Romer para tentar demonstrar que as manifestações contra o Governo não são espontâneas, mas são eventos produzidos “pela direita venezuelana” para provocar “um golpe de Estado lento”. Em março Maduro anunciou a prisão de três oficiais da Aviação Bolivariana acusados de tramar uma conspiração. Mas até o momento não se conhecem detalhes desse suposto movimento para afastá-lo do poder. O Alto Comando Político da Revolução prometeu aprofundar esse assunto nos próximos dias.

Machado tinha uma viagem prevista ao Panamá, mas decidiu suspendê-la para denunciar junto à promotoria pública os funcionários que levaram a público seus e-mails privados. “O governo quer intimidar uma cidadã enquanto o país cai aos pedaços”, ela disse, pouco depois de ser informada sobre a denúncia. A deputada destituída alegou que deixou de usar uma das contas de e-mail depois que imagens de sua vida privada foram difundidas nas redes sociais. “Eu a usei pela última vez em 21 de abril de 2013. Portanto, todas as mensagens enviadas desde esse endereço e todas as palavras usadas são falsas.”

Com o passar dos meses, os protestos vêm perdendo o fôlego que tiveram entre fevereiro e março. Apenas ocorrem enfrentamentos isolados e menores nas principais cidades do país. O Governo, que parece ter os manifestantes sob controle, agora parece estar disposto a afastar o setor da liderança opositora que convocou a população a sair às ruas para exigir sua saída. Com Leopoldo López preso e Machado fora da Assembleia Nacional, a denúncia supõe um golpe contra todo o lobby internacional que a dirigente formou desde que foi afastada. Ao mesmo tempo, o Governo quer aprofundar a divisão existente na oposição. “Queremos convocar a Mesa da Unidade a uma reunião para que eles digam se participaram destes planos. Se não, cabe a dúvida de se estão fazendo o papel duplo de policial bom e policial mau”, disse Rodríguez quase ao final da conferência, que foi transmitida ao vivo por todas as emissoras do país, como se fosse uma ordem do Ministério de Comunicação e Informação.

A denúncia foi feita no mesmo dia em que a Câmara dos Representantes americana aprovou um projeto de lei que define sanções aos funcionários venezuelanos envolvidos em violações dos direitos humanos desde fevereiro deste ano. Juntamente com uma resolução semelhante aprovada pelo Comitê de Assuntos Externos, o projeto passará pelo crivo da Câmara Alta do Senado. Se for aprovado nessa instância, irá para a Casa Branca, onde o presidente Barack Obama decidirá se o converte em lei.

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