Os líderes europeus reagem ao castigo eleitoral

Diante da ascensão dos radicais, Paris e Londres propõem uma reforma da União, com apoio de Roma O Parlamento Europeu dá a Juncker um mandato para tentar presidir a Comissão

Transeuntes passam por cartaz alusivo às eleições europeias, em Bruxelas.
Transeuntes passam por cartaz alusivo às eleições europeias, em Bruxelas.EFE

O avanço dos radicais (e a queda do bipartidarismo) nas eleições de domingo passado causa inquietação nas instituições europeias, mergulhadas em uma batalha que se prenuncia longa pela presidência da Comissão Europeia. Mas, sobretudo, provoca espanto em algumas capitais: o nervosismo se apoderou ontem dos líderes dos países mais afetados pela ascensão dos extremistas na União, especialmente a França e o Reino Unido. A primeira grande briga desta nova era já está acontecendo: ao chegarem a uma cúpula informal, em Bruxelas, o presidente socialista francês, François Hollande, e o premiê conservador britânico, David Cameron, exigiram uma reação fulminante da UE para abortar essa tendência nas urnas, a qual reflete o desencanto de muitos votantes. A Itália também está empenhada nisso.

O continente se rebela assim – à boca pequena, por enquanto – contra o Diktat da chanceler Angela Merkel: diante dos resultados eleitorais, volta o rufar de tambores contra a austeridade alemã que dominou a gestão da crise nos últimos tempos, em favor das políticas de crescimento e de um relaxamento das regras fiscais. E chegam também novos ventos para reformar a União; uma espécie de segunda transição, ainda pouco definida, que permita frear os extremistas.

Pela primeira vez em muito tempo, Paris ontem ergueu a voz, em alto e bom som. Após dois anos e meio sendo ofuscado por seus problemas internos, Hollande retornou ao discurso que adotou depois de ganhar a eleição presidencial francesa, em 2012, e lançou uma ambiciosa agenda reformista: “A Europa se tornou ilegível, distante, basicamente incompreensível, inclusive para os Governos. Isso não pode continuar assim. O projeto europeu precisa ser simples e claro, e deve se retirar de onde não seja necessário”, disse, em uma mensagem muita pouco habitual para um dirigente francês.

“É meu dever reformar a França e devolver o foco à Europa”, acrescentou, num claro aceno ao primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, a nova esperança da esquerda após seu espetacular triunfo nas eleições europeias. Renzi está prestes a assumir a presidência temporária da União. E deixou clara sua intenção de aproveitar o próximo semestre para ativar uma espécie de processo constituinte europeu, que inclua uma flexibilização das normas fiscais e outros assuntos. Só que, para isso, será preciso convencer Merkel, um osso duro de roer.

Orações após o atentado antissemita

L. ABELLÁN, Bruxelas

Antes de se lançarem numa longa noite de negociações políticas, destacados dirigentes socialistas europeus foram ontem até a frente do Museu Judaico de Bruxelas para prestar homenagem às vítimas do atentado de sábado passado. O presidente francês, François Hollande, o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, e o da Bélgica, Elio di Rupo, assim como o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, conversaram com representantes da comunidade judaica no mesmo lugar onde um homem alvejou quatro pessoas, das quais três morreram na hora, e uma continua em estado crítico.

Os dirigentes escutaram em silêncio uma breve oração iniciada por um rabino às portas do museu, um local transformado em memorial improvisado, com velas e flores em homenagem às vítimas. Desde o impactante ataque, numerosos líderes políticos recriminaram essa agressão antissemita, o que não impediu o primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, de criticar no domingo os dirigentes europeus que não estariam se mostrando suficientemente enérgicos nas condenações. Em Tel Aviv, ocorreu ontem o funeral de Emmanuel e Miriam Riva, casal israelense morto no atentado.

Durante a cerimônia em Bruxelas, o diretor do museu, Philippe Blondin, apresentou novas informações à imprensa, embora as autoridades tenham se recusado a confirmá-las. Blondin afirmou que a ministra de Justiça, Annemie Turtelboom, havia comunicado a detenção de um suspeito, conforme publicavam ontem vários meios de comunicação belgas. Antes dessa afirmação, a promotoria havia desmentido uma informação semelhante, embora seja provável que hoje haja mais dados sobre a investigação oficial.

Cameron também foi direto ao assunto, com o habitual toque britânico: “A União não pode ignorar estes resultados e continuar como antes. Precisamos de uma mudança. A Europa deve se concentrar no que importa, no crescimento e no emprego, em vez de tentar fazer tanto em tantos outros âmbitos. Bruxelas se tornou grande demais, autoritária demais, intrometida demais”, disse, taxativo, ao chegar para a cúpula.

Parece inevitável que a eleição europeia provoque uma sacudida em Bruxelas, embora reste ver em que direção se cristalizará todo esse mal-estar que emerge em várias capitais. A cúpula informal, que estava desenhada para dar início ao toma-lá-dá-cá com os principais cargos das instituições, é a primeira amostra de turbulências adiante – de que a mensagem dos eleitores começa a gerar reações em vários Executivos, tanto os já citados como outros em dificuldades (o da Grécia, por exemplo).

Num continente enredado em uma trama de complexidades, atolado em uma crise devastadora, entorpecido por um governo coletivo ineficaz e curvado por uma população envelhecida e pela chegada de imigrantes que o continente não sabe exatamente como absorver, os líderes dos 28 países da UE se reuniram para tentar reagir aos resultados eleitorais. As primeiras declarações deixam entrever um esforço de rebelião contra Alemanha: com a Itália e a França afligidas por problemas econômicos similares – parecidos também com os da Espanha –, volta a ganhar força a possibilidade de um eixo franco-italiano capaz de rebater a liderança indiscutível de Berlim.

Renzi tem defendido nas últimas semanas a necessidade de definir uma nova pauta para a União, que inclua uma “operação keynesiana” com estímulos e investimentos, além de uma convenção constitucional para abrandar as rigorosas regras fiscais da zona do euro. Cameron e Hollande, junto com outros líderes, apontam para a mesma direção, lançando mensagens diretas para Merkel, que tem a chave de quase tudo, inclusive a polêmica nomeação do próximo presidente da Comissão Europeia (o Poder Executivo do bloco), talvez o cargo fundamental na estrutura institucional de Bruxelas.

Não parece fácil que a chanceler dê o braço a torcer. Seu partido perdeu vagas parlamentares no domingo, mas continua dominando a política da Alemanha, apesar da ascensão dos sociais-democratas de Martin Schulz. E, no âmbito na União, resta ver o papel de Schulz a partir de agora, pois ele saiu muito prejudicado pelos maus resultados da centro-esquerda na Espanha, Irlanda e Grécia, que o deixaram longe do candidato conservador, Jean-Claude Juncker, na disputa pela presidência da Comissão. Os cinco grandes partidos do Parlamento Europeu moveram suas fichas ontem, numa mensagem telegrafada aos primeiros-ministros: deram a Juncker um mandato para tentar forjar uma maioria que lhe permita presidir o braço executivo da UE.

Os eurodeputados há tempos preparam cuidadosamente esse processo, e agora confirmaram a designação do candidato mais votado. Cinco dos sete grupos parlamentares – todos, menos o Europa da Liberdade e da Democracia, liderado por Nigel Farage, e o grupo que aglutina os tories britânicos e os conservadores poloneses – votaram a favor de Juncker, embora isso não signifique que irão apoiá-lo nas negociações posteriores, segundo fontes do Parlamento Europeu.

O Parlamento está ciente de que os candidatos à liderança do Executivo comunitário têm detratores entre os Estados membros: Juncker, por exemplo, tem sérios problemas com Cameron e inclusive em seu próprio partido, com o veto do PP húngaro. Mas o Parlamento Europeu ameaça bloquear o processo se o Conselho tirar da cartola nomes que não disputaram as eleições. Em caso de desacordo, avizinha-se uma batalha cruenta entre o Parlamento continental e os chefes de Estado e de Governo.

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