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O Papa sente vergonha da “monstruosidade” do Holocausto

O Papa visita a Esplanada das Mesquitas e reza na frente do Muro das Lamentações antes de visitar o Museu Yad Vashem

O Papa reza no Muro das Lamentações, em Jerusalém.
O Papa reza no Muro das Lamentações, em Jerusalém. AP

"Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência". A frase é de Francisco. Foi pronunciada esta manhã na frente do grande mufti de Jerusalém, Mohamad Ahmad Husein, na linda Esplanada das Mesquitas, tão perto - apenas alguns metros - e tão distante - dezenas de policiais e militares, junto com séculos de incompreensão mútua - do Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado do judaísmo. Aqui, Jorge Mario Bergoglio cumpriu um velho sonho de quando nem sonhava em ser Papa, o de rezar junto com seu amigo, o rabino argentino Abraham Skorda. Francisco permaneceu por uns instantes na frente do muro, fez uma prece e depois abraçou Skorka e seu amigo muçulmano Omar Abboud. "Conseguimos", felicitou-se.

A ideia de Bergoglio de convidar em sua primeira viagem à Terra Santa dois de seus amigos de religiões diferentes faz parte de uma mensagem muito clara: é possível. Não apenas dialogar, mas também chegar a acordos e até mesmo romper a velha inércia da guerra. Foi o que assinalou em seu discurso em frente ao grande mufti e outros altos representantes do mundo muçulmano: "Ouvimos a repetição, de forma intensa, do chamado a sermos agentes de paz e de justiça. Queridos amigos, deste lugar santo lanço um veemente chamado a todas as pessoas e comunidades que se reconhecem em Abraão: devemos respeitar e amar uns aos outros como irmãos e irmãs. Devemos aprender a compreender a dor do outro. Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência. Vamos trabalhar juntos pela justiça e pela paz."

Depois da visita à Esplanada das Mesquitas, o Papa se dirigiu ao Muro do Ocidente ou Muro das Lamentações, onde rezou, e dali, em uma jornada tão cheia de atos e conteúdo quanto as duas anteriores, dirigiu-se - junto com o presidente Shimon Peres - até o túmulo de Theodor Herzl, o fundador do sionismo, onde Bergoglio depoistou flores. O Pontífice fez uma parada inesperada em um memorial às vítimas israelenses do terrorismo antes de partir para o museu do Holocausto.

Ali, Yad Vashem, o Papa beijou a mão de seis sobreviventes - quatro homens e duas mulheres - do horror nazista e, em vez de discurso, usou uma reflexão bíblica, uma oração amarga para reconhecer a vergonha frente à "tragédia incomensurável do Holocausto". O papa Francisco simula em sua oração um diálogo no qual Deus procura Adão e o repreende pela "monstruosidade" cometida. No final da reprimenda de Deus, é Adão que responde ao chamado: "Lembre-se de nós em sua misericórdia. Dê-nos a graça de nos envergonhar do que, como homens, fomos capazes de fazer, de nos envergonhar desta máxima idolatria, de ter desprezado e destruído nossa carne. Nunca mais, Senhor, nunca mais! Aqui estou, Senhor, com a vergonha do que o homem, criado à sua imagem e semelhança, foi capaz de fazer!"