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Eleições Europeias

Merkel ganha, mas a entrada do partido antieuro abre uma brecha para a direita

Os neonazistas alemães do NPD conseguem um assento na Eurocâmara

O chanceler alemã, Angela Merkel, após votar em seu colégio eleitoral em Berlín. Ampliar foto
O chanceler alemã, Angela Merkel, após votar em seu colégio eleitoral em Berlín.

Angela Merkel, protagonista da campanha democrata-cristã para uma eleição em que não disputava, terá que conviver com resultados agridoces. A chanceler alemã pode se gabar de que sua coalizão voltou a ganhar eleições nacionais —e já leva meia dúzia— mas as boas notícias acabam por ai. No horizonte da chefe de Governo do país mais populoso da Europa aparecem novas nuvens, tanto à esquerda como à direita.

Segundo a apuração ainda não definitiva, os social-democratas ficaram a 8,2 pontos de distância da união democrata-cristã, mas tiveram o maior crescimento em eleições europeias. Com essa subida, o partido que atua como irmão menor no Governo de coalizão diminui as distâncias em comparação com as eleições nacionais de apenas oito meses atrás: se então os democratas-cristãos tiveram quase 16 pontos de vantagem, a diferença agora se reduz à metade.

Mas ainda mais preocupante para Merkel e os seus é a irrupção no Parlamento Europeu do partido antieuro Alternativa para Alemanha, com sete eurodeputados. Os defensores da expulsão dos países do sul da Europa da união monetária ameaçam se tornar uma dor de cabeça permanente para as forças europeístas, temerosas de perder votos pelo flanco direito.

Assim se explicariam os esforços de Merkel de última hora para marcar um perfil mais duro perante os imigrantes europeus que se beneficiam do estado de bem-estar alemão. “A UE não é uma união social”, disse a chanceler em entrevista na quinta-feira passada, a apenas três dias das eleições. “Alternativa para Alemanha tem florescido como um novo partido majoritário”, disse ontem o líder dos eurocéticos, Bernd Lucke.

O perfil dos 96 eurodeputados que a Alemanha mandará para Estrasburgo —o grupo mais numeroso em toda a Eurocâmara— terá pequenas mas relevantes mudanças. Os democratas-cristãos continuam sendo a primeira força do país, como repetia com insistência o candidato da CDU, David McAllister, com um sorriso que parecia circunstancial. O político britânico-alemão insistia que o êxito de seu grupo permitiria a eleição de Jean-Claude Juncker como próximo presidente da Comissão Europeia. Mas se a CDU e seus irmãos bávaros da CSU tinham até agora 42 cadeiras, nos próximos cinco anos terão que se conformar com 35. A pior parte deve ser atribuída à CSU, que obteve o pior resultado que se tem lembrança na Baviera. “Se trata de uma amarga decepção”, admitiu o líder dos social-cristãos, Horst Seehofer.

O SPD terá quatro deputados a mais, totalizando 27. Os social-democratas se beneficiam por uma parte de sua participação no Governo de coalizão em Berlim, em que conseguiram impor sua impressão social. Aposentadoria aos 63, salário mínimo, passaporte duplo para os filhos de imigrantes, freio nos preços dos aluguéis... A maioria das medidas postas em prática pelo Executivo no último meio ano leva o selo do SPD.

O crescimento dos socialistas também se explica pelos resultados desastrosos nas últimas eleições

Mas para explicar a recuperação social-democrata há que se levar em conta outro fator. Como lembrou o líder do partido, Sigmar Gabriel, a figura de Martin Schulz foi decisiva. A onipresença do candidato dos socialistas à Comissão Europeia e cabeça de chapa do partido na Alemanha contrastou com um McAllister que era difícil de ser encontrado nos cartazes de seu partidos. Nos debates televisivos, Schulz discutia com o luxemburguês Juncker, enquanto o democrata-cristão alemão estava desaparecido. Após os primeiros prognósticos anunciados pelos dois canais da televisão pública, um eufórico Schulz se sentia recompensado e assegurava que os resultados poderiam catapultar os socialistas ao posto de grupo majoritário da Eurocâmara. Por último, a subida dos socialistas também se explica pelos resultados desastrosos da última eleição, que foi a segunda pior na história do partido centenário.

A jornada eleitoral —na qual também se elegiam os governantes locais de 10 Estados federados e em que os berlinenses deram uma sonora bofetada em seu prefeito ao rejeitarem a construção de moradias no entorno do antigo aeroporto de Tempelhof— deixa outra surpresa negativa para as forças europeístas e democráticas. O partido de ultradireita NPD conseguiu, segundo os últimos dados, um eurodeputado. Esta vaga foi possível devido à decisão do Tribunal Constitucional, tomada no mês de fevereiro, de eliminar a porcentagem mínima para obtenção de uma cadeira no Parlamento Europeu. A decisão da alta corte foi contrária ao governo, que via nela um elemento que complicaria a governabilidade. Os juízes de Karlsruhe, no entanto, defendiam que assim seria assegurada a igualdade de oportunidades aos partidos.

Os populistas apareceram, mas o outro grande fantasma que se temia nestas últimas semana, uma abstenção elevadíssima, não teve vez na Alemanha. Ao contrário, a participação subiu para 47,9%. É uma porcentagem baixa, que não chega nem à metade da população com direito a votar, mas são quase cinco pontos a mais do que na última eleição europeia, em 2009.