Morre o general Jaruzelski, último presidente da Polônia comunista

O militar foi peça-chave na transição do país para a democracia

O ex-presidente Wojciech Jaruzelski, em 2009.
O ex-presidente Wojciech Jaruzelski, em 2009.

O general Wojciech Jaruzelski, último presidente da Polônia comunista, faleceu hoje aos 91 anos, como consequência de um acidente vascular cerebral sofrido dias atrás. Jaruzelski foi um figura importante na história recente da Polônia: para alguns, defendeu o regime comunista até o último momento e reprimiu implacavelmente o movimento Solidariedade de Lech Walesa; para outros, decretou a lei marcial em 1981 –sua medida mais polêmica- para evitar uma invasão soviética e ajudou a lançar as bases para uma futura democratização do país.

Sempre com óculos escuros, sua imagem transformou-se no símbolo da Polônia comunista. Foi acusado de autorizar o fuzilamento em 1979, quando era ministro da Defesa, de trabalhadores de estaleiros em Gdansk, que se rebelaram contra o regime, em um movimento semelhante ao vivido na Hungria em 1956 e na Checoslováquia em 1968. A repressão causou 44 mortos e dezenas de feridos. Jaruzelski sempre negou sua participação no ocorrido, pelo qual foi julgado na Polônia no começo dos anos 2000. Nunca chegou a ser condenado.

A tentativa de ser julgado por haver imposto a Lei Marcial foi freada por juízes polacos, que destacaram o fato de a lei ter sido exonerada em 1996. Durante a lei marcial, que durou até 1983, dezenas de manifestantes morreram e centenas de ativistas, entre eles o próprio Walesa, foram presos.

Em uma entrevista realizada por este diário em abril de 2005, Jaruzelski foi perguntado se sentia arrependido de ter imposto a lei marcial. “Foi uma decisão muito difícil e dolorosa, mas não me arrependo”, afirmou. “A alternativa poderia ter resultado numa grande tragédia. E sem aquela decisão não sabemos se depois teria sido possível a ascensão de [Mikhail] Gorbatchev na URSS e os acontecimentos que se desencadearam. Vou lembrar, de cabeça, o que disse Brejnev em 1o de março de 1982: “Se os comunistas polacos não tivessem colocado uma barreira à contrarrevolução, se não tivessem detido seus adversários, teriam colocado em perigo o destino do continente e da Polônia”. Em outras palavras, Jaruzelski acreditava que a lei marcial evitou uma invasão soviética, como a da Hungria em 1956 e a da Checoslováquia em 1968.

Como presidente da Polônia em 1989, aceitou a legalização do Sindicato Solidariedade e a realização de eleições, parcialmente livres, que acabaram com o monopólio comunista do poder e, ao final, com o regime.

Nascido em julho de 1923 na Silésia, sua história resume em grande parte a tragédia do século XX na Polônia, primeiro como ator e depois como protagonista. Foi deportado com sua família como consequência da invasão soviética de uma parte da Polônia, depois do pacto de não agressão entre Hitler e Stalin. Seu pai morreu na Sibéria e o mesmo foi condenado a trabalhos forçados, ainda que, depois da invasão nazi na URSS, tenha formado parte das unidades polacas do Exército Vermelho e participado da batalha de Berlim, em 1945.

Ocupou diferentes cargos, primeiro no Exército e depois na nomenclatura comunista a partir dos anos sessenta até o final do regime. Ocupou a pasta de Defesa em 1968 e formou parte da cúpula dirigente da Polônia comunista; foi primeiro-ministro de 1981 a 1985, presidente do Conselho de Estado de 1985 a 1989, e presidente do país entre 1989 e 1990.

“O fato de a Polônia poder ter deixado a lei marcial para trás de forma tranquila foi em parte graças ao Papa e a seu pedido de moderação”, afirmou na mesma entrevista, realizada em razão da morte do papa João Paulo II. “Depois desempenhou um papel enorme nas transformações históricas a partir de 1990, mas falar do Papa como pessoa que propiciou a queda do comunismo é uma simplificação vulgar. Sua semente caía em terra fértil; era um processo que o Papa apoiava e que contribuiu para que avançasse”.

Jaruzelski permanecia internado em um hospital de Varsóvia desde 11 de maio, depois do agravamento de seu estado de saúde. Foi outro ex-presidente, o socialista Aleksander Kwasniewski, quem comunicou à imprensa a morte do veterano militar, segundo a agência Efe.