O Exército tailandês dá um golpe de Estado depois de seis meses de crise

O chefe das Forças Armadas assume o poder dois dias depois de decretar estado de exceção Os militares tailandeses deram 18 golpes de Estado, 11 deles com sucesso

Soldados tailandeses em Bangkok / p. k. (AFP) / Reuters Live! (atlas)

O Exército da Tailândia declarou um golpe de Estado nesta quinta-feira, dois dias depois de proclamar o estado de exceção em meio a uma crise política que custou o cargo da primeira ministra Yingluck Shinawatra e depois de seis meses de protestos antigovernamentais. Os participantes dos protestos receberam ordem para dispersar-se, as reuniões de mais de cinco pessoas foram proibidas, a Constituição suspensa e se impôs um toque de recolher das 22h às 5 da manhã. Os integrantes do Governo interino receberam a ordem de se apresentar em um quartel militar antes do final do dia.

"Para que a situação volte rapidamente à normalidade e para que a sociedade recupere a paz novamente, o Exército tem que assumir o poder", declarou o chefe do Exército tailandês, Prayuth Chan-Ocha, em uma aparição ao vivo antes as câmeras de televisão. O anúncio do chefe militar foi feito após um encontro de sete pessoas que tentavam buscar uma saída para a paralisia política. "Como não pudemos encontrar um modo de pacificar o país e ninguém volta atrás, anuncio que tomo o poder", anunciou aos reunidos, segundo um membro da Comissão Eleitoral presente e citado por Reuters. "Fiquem quietos e sentados", acrescentou o general.

Os militares tailandeses deram 18 golpes de Estado, 11 deles com sucesso

Entre os participantes das reuniões estavam representantes do atual Governo interino e dos diversos partidos, o líder do movimento de oposição popular que protagonizou os protestos antigovernamentais, Suthep Thaugsuban, e do Senado e a Comissão Eleitoral. Mas, segundo informa o jornal The Nation em sua página, Prayuth considerou a reunião fracassada e os soldados levaram os participantes ao quartel do Primeiro Regimento da Infantaria. Dois dias antes, o chefe militar proclamou estado de exceção e censura aos meios de comunicação com o argumento de que era necessário para restabelecer a ordem, mas havia negado que teria sido um golpe. Depois do anúncio, o Exército proclamou o toque de recolher entre 22h e cinco da manhã, hora local, enquanto as reuniões de mais de cinco pessoas foram proibidas "por motivos políticos", com o risco de pena de um ano de prisão. As redes de rádio e televisão receberam ordem para suspender suas programações e somente emitem os comunicados militares.

O histórico da crise vem do enfrentamento entre os partidos do rei Bhumibol Adulyadej e o ex-primeiro ministro Thaksin Shinawatra, um antigo magnata das telecomunicações tailandesas e muito popular entre as classes menos favorecidas. Deposto pelo Exército em 2006 por acusações de corrupção e falta de respeito ao rei, fugiu do país em 2008 para evitar ir à prisão por corrupção.

Desde então, não deixou de exercer uma poderosa influência na política tailandesa, especialmente através do Governo de sua irmã Yingluck Shinawatra, deposta pelo Tribunal Supremo em 7 de maio por abuso de poder, mas cujo Governo continua no comando do país. O atual primeiro-ministro, Niwatthamrong Boonsongphaisan, era seu "número dois" e responsável pelo Comércio.

Os manifestantes acusam Thaksin e sua irmã de corrupção e abuso de poder e pedem que se nomeie um primeiro-ministro interino até as eleições, que o atual chefe de Governo ofereceu adiar até 3 de agosto. Os "camisas vermelhas", o movimento popular leal ao ex-magnata e concentrado na periferia de Bancoc, ameaçava ações violentas caso o Executivo atual terminasse.

Centenas de pessoas ficaram feridas e 28 morreram durante as manifestações em Bancoc, que desde novembro pedem reformas e mudança de Governo. Yingluck dissolveu a câmara baixa do Parlamento em dezembro, e a Tailândia celebrou eleições em fevereiro, mas os comícios foram cancelados pelo Tribunal Constitucional devido a incidentes durante os protestos em vários eleitorados.

Os militares tailandeses, considerados próximos aos manifestantes contra o Governo, não são alheios à intervenção na política de seu país. Desde o fim da monarquia absolutista em 1932 deram 18 golpes de Estado, 11 deles com sucesso.

A comunidade internacional reagiu ao golpe com preocupação. O presidente francês, François Hollande, condenou, assim como governos como o australiano, o japonês e o britânico. O Pentágono indicou que vai reaver sua colaboração com as Forças Armadas tailandesas.