“Todo es culpa de Rita”

O bordão de Carminha, de Avenida Brasil, faz sucesso em espanhol, russo, francês, grego…

Adriana Esteves, atriz que interpretou Carminha.
Adriana Esteves, atriz que interpretou Carminha.Folhapress

Uma das frases que virou meme no Brasil, há dois anos, aparece agora no Twitter e outras redes sociais em vários idiomas. “A culpa é da Rita” foi uma das célebres frases de Carminha, vilã interpretada por Adriana Esteves durante a novela Avenida Brasil, um dos maiores sucessos do gênero produzido pela Rede Globo, veiculada em 2012. Rita era a personagem interpretada pela atriz Débora Falabella, enteada de Carminha, que queria vingança pela morte do pai, quando ainda era criança. Para cumprir sua missão, entrou na casa da madrasta como empregada para executar seu plano, a trama central da novela.

Em alguns países mantiveram o nh de Carminha. Na Espanha e Uruguai, ela virou Carmina. Na Rússia, o nome da novela mudou para Prospecto Brasil. Mas nada disso afetou o roteiro, que fisgou telespectadores de inúmeras nacionalidades. No Brasil, o capítulo onde a protagonista Carminha é desmascarada gerou uma alta na demanda de energia em outubro de 2012, o equivalente a duas usinas de Angra (usina nuclear de Angra dos Reis-RJ). Algo que preocupou o governo sobre futuros problemas de abastecimento na exibição do último capítulo. Até mesmo Dilma Rousseff desmarcou um compromisso no dia da transmissão final. Um padre da paróquia Nossa Senhora de Lourdes, em Barueri-SP, virou notícia ao colocar um telão na quermesse para exibir a novela, com medo de que ficasse sem público pela concorrência com a trama. “Essa recepção impulsionou sua performance no mercado externo e a novela foi licenciada para 125 países e foram feitas versões em 19 línguas, tornando-se o título mais licenciado da história da Globo”, explica Raphael Corrêa Netto, Diretor Executivo de Negócios Internacionais da emissora. A novela está sendo transmitida na Espanha desde segunda, dia 12 de maio, no canal Cuatro. As notícias sobre recordes de audiência em Portugal, no Chile, na Argentina e no Uruguai confirmam que a novela repetiu o sucesso também no exterior.

Como dizia Carminha, “a gente precisa comer um saco de sal com a pessoa para saber quem ela é”. E algumas famílias espectadoras podem dizer que durante os sete meses de convivência já conhecem bem os personagens da trama, tanto que alguns deles ganham destaque nas redes sociais - principalmente Jorgito, interpretado por Cauã Reymond.

E o frisson da audiência pela novela rende anúncios. Segundo a revista Forbes, esta novela arrecadou 1 bilhão de reais em publicidade enquanto esteve no ar no Brasil. Na mesma reportagem sobre os benefícios da Globo, a revista norte-americana alfinetou o brasileiro médio, dizendo que deveria estar mais preocupado com a política do país que com o enredo de João Emanuel Carneiro. As perguntas de “que fim levará Caminha” ou “quem matou Max?” não eram assuntos típicos de uma conversa de salão de beleza, mas sim exclusivos de toda a população, o que levou a revista norte-americana a interpretar o efeito como uma possível alienação da audiência televisiva. A conclusão é de que o apelo à classe média, retratada pelos personagens, refletem a melhora econômica do país nos últimos anos e fez com que muitas pessoas se identificassem e acompanhassem o desfecho da história.

A trama da ascensão social, misturada com vinganças, traições e golpes, prendeu a atenção do público, que acabou fixado no desenvolvimento dos laços familiares complexos e rancorosos entre os personagens. Para o autor Carneiro, em entrevista a este jornal, "o tema família é universal, dá muito pano para a manga". As alusões às diferenças entre classes, de uma mulher que ascendeu e, mesmo envolvida por outra realidade, não esquece de suas origens. Ou melhor, usa delas para se sentir superior aos demais, já que conseguiu sair do lixão para o luxo. “Pega uma sacolinha de plástico. Pobre sempre tá carregando uma sacolinha”, dizia a vilã a Max, seu amante. Apesar do próprio título ser uma bandeira nacional e, aparentemente, a realidade dos moradores do lixão, da vida de uma doméstica na casa da patroa ou o declínio de um ex-jogador de futebol serem muito próprios de um país com diferenças sociais gritantes, é uma história que tem referências humanas que anulam qualquer abismo entre culturas ou línguas. Para Esther Hamburguer, antropóloga e professora da Universidade de São Paulo, “a empregada doméstica é uma instituição bem brasileira, uma instituição central na sociedade brasileira, mas existe também em outros países da América Latina”, daí o interesse e sucesso em outras nações vizinhas.

Made in Brazil

A produção de 2.500 horas de teledramaturgia no complexo de estúdios da Globo em quase 2 milhões de metros quadrados extravasa. A exportação de novelas começou com ‘O Bem Amado’, em 1973, quando a TV aberta ainda não competia com as ofertas de entretenimento de outros canais, menos massivos. Desde então, através de feiras internacionais do gênero, como Natpe, Mipcom, a Discop ou o MipTV, os títulos globais chegam às telinhas de outros países e, surpreendentemente, repetem o sucesso na mesma medida que tiveram no país. Para Hamburguer isso ocorre porque apesar “dessas outras sociedades não serem tão desiguais quanto o Brasil, a desventura de um jogador de futebol de sucesso que se instala no subúrbio e lá atualiza preconceitos de nouveau riche é facilmente entendida - especialmente na pele da mulher a hiper-vilã Carminha, que rivaliza com Odete Roitman [interpretada por Beatriz Segall, em Vale Tudo, 1988] na história das vilãs queridas.”

No entanto, alguns produtos precisam de ajustes. Novelas com muitos sotaques regionais são suavizadas. Os capítulos são reduzidos a 45 minutos de duração. Algumas trilhas sonoras e personagens mudam de nome, para gerar uma maior identificação com o público internacional (o Iô iô iô do reggaeton universal Kuduro foi mantido, entretanto). “A novela ‘Salve Jorge’, por exemplo, ganhou o título de ‘La Guerrera’ em sua versão hispânica. Isso porque São Jorge, que é muito forte na nossa cultura, não tem a mesma força e impacto lá fora. Por isso, optou-se por trocar o título e focar na protagonista da história”, esclarece Netto. Tudo isso para que a novela seja um repertório compartilhado pela audiência. “Existe essa alusão constante ao choque cultural entre ricos e pobres do subúrbio, nos hábitos alimentares, no jeito de morar e se vestir, que aludem a flutuações sociais que talvez ocorram não só no Brasil”, conclui Hamburguer. Como diria Carminha, no auge de seus ataques contra pobres, “O porco larga o chiqueiro mas o chiqueiro não larga o porco, né?”. Pelo jeito, a audiência não vai largar tão cedo essa trama, seja onde for exibida.

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