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Copa do Mundo 2014

Do Brasil ao México a bordo de um Fusca para não assistir à Copa

Dois brasileiros repetem a 'road trip' que em 1970 os levou para ver o Mundial em quatro cidades mexicanas. A aventura se tornará um filme

Os amigos Ivan e Fael viajarão até México em um fusca.
Os amigos Ivan e Fael viajarão até México em um fusca.

O roteiro dessa viagem tem um pouco de On The Road, bíblia da geração Beat, escrito por Jack Kerouac na década de 1950, e Into the Wild, do jornalista Jon Krakauer, lançado na década seguinte.

O elenco é formado por apenas três personagens: os brasileiros Ivan Charoux e Fael Sawaya, dois jovens amigos que se conhecem desde os seis anos de idade, quando eram vizinhos em uma pacata rua no bairro da Lapa em São Paulo. O terceiro protagonista é um Fusca de 1962 branco “impecável”, como um deles descreveu.

Tudo aconteceu em 1970, ano da Copa do Mundo no México, a nona edição do Mundial, que ocorreu entre 31 de maio de 21 de junho nas cidades de León, Cidade do México, Puebla, Guadalajara e Toluca. No início daquele ano, os dois amigos, que na época eram solteiros, sem filhos e com a pouca responsabilidade que tem alguém de vinte e poucos anos, decidiram que assistiriam a todos os jogos do Brasil naquele ano. Ao vivo e em cores.

E assim foi. Partiram com o Fusca, de São Paulo até Guadalajara, com mil dólares no bolso cada um “E alguns cruzeiros, que depois trocamos em uma lojinha de antiguidade”, conta Sawaya.

A experiência marcante ficou na lembrança, o que motivou a dupla a reviver a aventura. Agora, 44 anos depois, os amigos partirão novamente para o México do mesmo jeito que fizeram naquele ano de Mundial. Com duas grandes diferenças: Uma, é que a Copa estará acontecendo no Brasil no momento da viagem. E a outra é que agora a grande aventura da vida deles vai virar um filme.

Do Brasil ao México a bordo de um Fusca para não assistir à Copa

Em parceria com uma produtora brasileira e uma mexicana, e com uma infraestrutura de cinema, Fael e Ivan estão de malas prontas para a nova viagem, que deve começar nos próximos dias.

Segundo o cineasta responsável pela jornada aqui no Brasil, Cao Quincas, a viagem deve durar pouco mais de um mês. “Calculamos 64 dias de viagem a bordo de um Fusca idêntico ao que eles usaram em 70”, conta. Parte do filme, batizado de Filhos da Pista, será feito com as gravações que os amigos fizeram durante a primeira viagem, mais de 40 anos atrás. A previsão é de que o material todo fique pronto para passar na TV logo depois do final da Copa do Mundo deste ano.

Para isso, Sawaya deixará por alguns dias seu trabalho em uma editora de livros em São Paulo, e Charoux deve interromper parte de suas atividades como empreiteiro em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. Além dos trabalhos suspensos, provavelmente os dois perderão a Copa do Mundo no Brasil, já que estarão on the road durante os jogos. "Mesmo que eu estivesse aqui, não assistiria a nenhum jogo", diz Charoux. "Hoje existe muita violência, os tempos são outros".

Os amigos Ivan e Fael.
Os amigos Ivan e Fael.

Se hoje Charoux diz que não tem planos de assistir aos jogos da Seleção, no México de 70, todas as partidas foram acompanhadas de perto. "Assistimos a todos os jogos do Brasil. Não perdemos nenhum", diz Sawaya.

Embora torcedores convictos naquela época, na realidade, o evento futebolístico foi apenas um fim para justificar o meio: a viagem, essa sim, era o grande acontecimento. Por serem sócios em uma loja de carros, os dois tinham acabado de comprar o Fusca, ano 1962, que acabaria sendo o meio de transporte para a viagem que durou 22 dias até o México. “Foram 15 dias dirigindo e os outros sete foram paradas ao longo do caminho”, explica Fael Sawaya.

Ao chegar no México com pouco dinheiro e muito espírito aventureiro, o jeito foi fazer amizade. O que não foi muito difícil. “Bastava ser brasileiro em Guadalajara em 1970. Não era preciso mais nada”, conta Sawaya. E o futebol foi o grande elo entre os hóspedes brasileiros e os anfitriões mexicanos. “Como naquela época o México não tinha time, eles acabaram torcendo para o Brasil”, conta Charoux. “E eles vibravam, choravam, era uma grande farra”, emenda Sawaya. “Os mexicanos queriam mostrar para o mundo que ainda existia amizade”, diz Sawaya.

A Copa do Mundo acabou com a taça sendo levantada pela seleção brasileira depois de uma final com placar de 4 a 1 para o Brasil em cima da Itália. O apito final já tinha sido dado, mas os amigos resolveram continuar em campo por mais um mês antes de ir embora, não para casa, e sim para os Estados Unidos, segundo destino da viagem. “Depois que a Copa do Mundo acabou, ainda ficamos mais um mês no México, de graça, morando na casa de uns amigos que fizemos por lá”, conta Charoux. “E a única coisa que eles queriam era que a gente dançasse samba e jogasse futebol, porque eles eram muito ruins no futebol”, emenda Sawaya.

Do México, os amigos brasileiros partiram rumo a Nova York e depois Chicago. “Entramos nos EUA e a brincadeira da receptividade acabou”, diz Sawaya sobre a diferença de tratamento entre os mexicanos e os norte-americanos. De lá, partiram rumo ao Canadá e depois para o Alaska. “Só não fomos para a Rússia porque não havia uma estrada que nos levasse até lá”, conta Charoux.

O Fusca 62 aguentou firme a viagem, embora com alguns imprevistos. “Ele congelou no Alaska. A gente não sabia que isso existia, mas existe. Congela tudo por dentro e aí você tem que aquecer o carro”, lembra Sawaya. No retorno para casa, voltaram pela costa oeste dos Estados Unidos, trabalhando alguns dias nas cidades que paravam “para poder comprar presentes para a família. Não podíamos voltar de mãos vazias”, lembra Sawaya.

Ao ser perguntados se fariam todo esse percurso de novo, Sawaya nem pensa duas vezes: “Eu iria. Tenho um Calhambeque de 1929 e gostaria de voltar para o Alasca com ele”, conta. Já o amigo não tem tanta certeza assim. “Não sei”, diz Charoux. “O carro até aguentaria, quem não aguentaria sou eu!”.

Por isso, a viagem que será refeita neste ano terá o México como destino final, não devendo se estender para os Estados Unidos, Canadá e Alasca. E se o roteiro for fiel ao de 1970, a taça do mundo será, mais uma vez, da seleção brasileira.