O protesto volta às ruas brasileiras a um mês da Copa

Atos em várias capitais abrem a nova grande temporada de mobilizações contra os gastos do país no Mundial

Manifestantes em São Paulo, nesta quinta-feira.
Manifestantes em São Paulo, nesta quinta-feira.FELIPE RAU (ESTADÃO CONTEÚDO)

Depois de vários meses de um quase silêncio, os sindicatos e os movimentos sociais brasileiros lançaram o sinal inequívoco de que a próxima Copa do Mundo, que começará em pouco mais de um mês, não será o evento pacífico e calmo que pretendem a FIFA e o Governo de Dilma Rousseff. Pode ser dada por inaugurada a nova grande temporada de mobilizações e protestos no Brasil, pois as que aconteceram nesta quinta-feira em várias capitais do país devem se somar nas próximas semanas às já convocadas por diferentes setores sociais. A ressonância midiática do Mundial e a proximidade das eleições presidenciais, previstas para o próximo 5 de outubro, facilitarão o que poderia ser uma tormenta perfeita.

“Vamos ver muitos movimentos fazendo pressão, inclusive protagonizando choques violentos com a polícia, mas não acho que chegaremos à situação do ano passado. Tomara que as reivindicações sejam legitimas e que não se limitem a protestar contra a Copa”, reflete Darby Igayara, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Rio. “A tendência é que os protestos cresçam a partir de agora e que os servidores públicos públicos façam mais pressão”, vaticina.

Rousseff prometeu que esta será a “Copa das Copas”, em referência ao mega investimento realizado em instalações e infraestrutura e à eclosão de alegria e cor que o povo brasileiro costuma protagonizar durante as competições mundiais. Fazia 64 anos que o Mundial não voltava ao Brasil, país onde o futebol é vivido como uma questão de vida ou morte: como se fosse uma religião. Mas nenhuma destas razões parece ser um correto catalisador do entusiasmo popular. Algo falhou para que os brasileiros decidissem voltar às ruas no momento mais crítico, quando todos os olhos do mundo estão no país. O mal-estar social diante da forma como tem se gestado esta Copa do Mundo é palpável e o corroboram as pesquisas de opinião. Por enquanto, mobilizações de diferentes dimensões começaram a alterar a rotina de Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Belo Horizonte, Salvador e Manaus. Parece que o grito de guerra “Não vai ter Copa” voltou a acender como a pólvora.

Pequenas mobilizações de policiais federais (os que controlarão os fluxos turísticos nos aeroportos brasileiros durante o Mundial) deram lugar a uma greve de motoristas e cobradores de ônibus urbanos do Rio de Janeiro que deixou à cidade colapsada e milhares de usuários sem possibilidade de deslocar aos locais de trabalho durante todo o dia. Piquetes violentos terminaram em pedradas contra os ônibus que tentaram circular e, segundo o principal sindicado do setor, mais de 460 veículos ficaram danificados. No final da tarde, só 24% da frota estava rodando, gerando uma situação de caos, principalmente na zona norte do Rio. Segundo a principal organização de comerciantes da cidade, o faturamento do setor caiu 60%, o que, traduzido em dinheiro, poderia equivaler a 250 milhões de reais em perdas.

Uma cena parecida foi vista em Florianópolis, ao sul do país, onde outra greve de motoristas de ônibus deixou mais de 300.000 pessoas sem transporte público. Em Belo Horizonte, grupos cidadãos cortaram uma estrada principal em protesto pela precariedade do transporte.

Em São Paulo, o Movimento dos Sem Terra (MST), que se aliou ao partido de Rousseff (Partido dos Trabalhadores) durante a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva, e o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) fizeram cinco mobilizações simultâneas e ocuparam as sedes de três conhecidas empresas de engenharia que monopolizam o grosso das concessões de obras para o Mundial. O mote do protesto foi, uma vez mais, a excessiva despesa pública em um evento passageiro, ao mesmo tempo que o déficit de casa continua sendo um problema estrutural no Brasil.

Os professores da rede pública do Rio também convocaram uma nova greve indefinida a partir do próximo 12 de maio. O setor, que foi um dos mais beligerantes durante as greves de 2013, acusa a administração pública de não cumprir os acordos alcançados no ano passado. O aumento do preço do transporte público foi o estopim da onda de protestos que inundou as ruas durante a Copa das Confederações. Na época, diante de tamanha pressão, as autoridades deram um passo atrás e suspenderam a alta do transporte em várias cidades. Mas neste ano esses acréscimos terminaram se concretizando no Rio, não sem pouca resistência de grupos minoritários e diante da perplexidade de muitos cidadãos.