CRISE NA UCRÂNIA

Urnas e cobertores no quartel rebelde

Os separatistas pró-russos de Donetsk se preparam para um confronto bélico A convocação do referendo separatista é mantida para o próximo domingo

As batalhas na Ucrânia continuam. (reuters_live)

O fechamento do aeroporto Serguei Prokofiev de Donetsk durante a manhã desta terça-feira devido à operação militar contra os rebeldes pró-russos demonstrou duas coisas: que nem a protegida capital da província está a salvo das turbulências causadas pela revolta contra Kiev e que a segurança é reforçada a passos largos ante o referendo autonomista convocado para o domingo pela autoproclamada República de Donetsk, em cuja sede, o edifício ocupado da Administração provincial, cresce a tensão e proliferam os preparativos para qualquer contingência, da eleitoral à bélica.

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Às medidas de segurança adotadas até agora em torno do quartel-general rebelde –a cada dia um pouco mais estritas, mais visíveis– se somou nas últimas horas um segundo perímetro defensivo levantado com barricadas, pneus e chassis de carros e caminhões. Informações não confirmadas dando conta de uma breve troca de tiros perto do edifício durante a madrugada contribuíam para a atmosfera ficar mais pesada. No fim da manhã desta terça-feira, as corridas nervosas de vários milicianos encapuzados, fuzil em riste, se mesclavam ao incessante tráfego de voluntários que reabasteciam o edifício com itens necessários para suportar um longo assédio: cobertores, sacos de dormir, centenas de galões de água e alimentos secos e em conserva.

No forte rebelde, entravam algumas jovens com urnas de tampas azuis, enquanto dois voluntários tinham pilhas de papéis que pareciam ser cédulas, mexendo nelas como se formassem um baralho. No centro de imprensa já foram inscritos mais de 200 veículos para a eventual jornada eleitoral, mas nenhum conseguiu ter acesso ao censo de votantes ou ver a pergunta impressa: “Você apoia a declaração de independência da República de Donetsk?”. Os rapazes com as pilhas de papeletas nas mãos as guardavam como se fosse ouro, protegendo-as da curiosidade alheia. No pátio de acesso ao edifício, de 11 andares e que ocupa dimensões semelhantes às de uma quadra, e entre os postos de recrutamento dos principais grupos rebeldes, uma tenda de campanha azul abrigava o escritório de um sacerdote, dedicado aos seus incensos e velas.

À tensa contagem regressiva para o referendo se une a aproximação de outra data importante para os pró-russos: a comemoração, nesta sexta-feira, da vitória soviética na II Guerra Mundial, uma celebração tradicional no leste da Ucrânia –assim como na Rússia– e que, no entanto, passa quase desapercebida no oeste. Kiev teme uma demonstração de força pró-Moscou em 9 de maio; os rebeldes, um golpe que atrapalhe a festa e possivelmente a consulta. Como se de uma senha tácita se tratasse, a cada dia que passa se reúnem mais pessoas ante a sede da Administração provincial com a imagem de São Jorge na lapela, a preciosa insígnia do valor militar da época soviética e que na sexta-feira será protagonista dos festejos.

O Serviço de Fronteiras da Ucrânia se encontra em estado de alerta ante a chegada ao leste do país de pelo menos 150 cossacos russos procedentes da Crimeia

Outro tipo de vestimenta tradicional, a dos cossacos russos, também tira o sono das autoridades de Kiev. O Serviço de Fronteiras da Ucrânia se encontra em estado de alerta ante a chegada ao leste do país de pelo menos 150 cossacos russos procedentes da Crimeia. Os portos e aeroportos da península do mar Negro, anexada por Moscou em março depois de um referendo sem validade legal, permaneceram fechados na segunda-feira, segundo o Centro de Jornalismo Investigativo, um grupo de jornalistas locais pró-Ucrânia. Durante o alerta, o aeroporto de Donetsk cancelou todos os voos nesta terça-feira logo na primeira hora da manhã; depois restabeleceu os domésticos e, por volta das três e meia da tarde (horário local), os internacionais.

Para os milicianos russos, no entanto, o posto fronteiriço mais delicado é a cidade de Krasnoarmeysk, limítrofe com a província de Dnipropetrovsk, que permanece leal a Kiev sob o mando do oligarca Igor Kolomoisky, e a partir da qual os insurgentes temem um hipotético segundo assalto militar. Kolomoiyski é o dono do PrivatBank, que teve várias de suas sucursais, como a de Mariupol, incendiadas e invadidas nos últimos dias na província durante a revolta.

A Rada Suprema (Parlamento) da Ucrânia aprovou o prolongamento da mobilização militar contra o leste rebelde

Enquanto a cada minuto que passa se aproxima um pouco mais o incerto desfecho da crise, a Rada Suprema (Parlamento) da Ucrânia aprovou nesta terça-feira o prolongamento da mobilização militar contra o leste rebelde, onde segundo o ministro do Interior, Arsen Avakov, lutam oficiais russos e chechenos junto dos milicianos pró-Moscou, “bem ensinados e com armamento pesado, o que complica o avanço das forças armadas”, informou em uma rede social. Entre os efetivos rebeldes, cerca de mil, segundo Avakov, há veteranos de guerra e ex-militares dos Exércitos soviético, russo e ucraniano. Fontes militares citadas por agências locais cifram em torno de 800 o número de “separatistas” que desde segunda-feira tentam romper o cerco de Slaviansk.

Putin e Medvedev preparam uma visita à Crimeia

Enquanto o ministro da Defesa, Serguei Shoigu, anunciava a exibição de novos submarinos e navios na frota do mar Negro, as intenções do presidente russo, Vladimir Putin, de visitar a Crimeia na sexta-feira, dia em que se comemora a vitória soviética na II Guerra Mundial —ou, o que dá no mesmo, a rendição nazista—, levantaram nesta terça-feira novas fervuras na Alemanha, onde vários meios de comunicação repercutiram os seus planos de viajar à Crimeia depois de participar do tradicional desfile na praça Vermelha, em Moscou.

Naquela que seria a visita de mais alto nível à península anexada por Moscou em março, depois da do primeiro-ministro, Dmitri Medvedev, a suposta celebração apresenta algumas circunstâncias agravantes: realizar em um território estrangeiro ocupado, e em plena ofensiva militar ucraniana contra a revolta pró-russa no leste do país. A Crimeia celebrará também na sexta-feira o 70º aniversário da recuperação da península pelo Exército Vermelho dos nazistas.

Com o Governo interino de Kiev ultrapassado pelos acontecimentos —isto é, pelo escasso resultado da operação militar na província de Donetsk—, a reação mais sagaz aos supostos planos de Putin chegou de Berlim. A chanceler alemã, Angela Merkel, classificou como uma "vergonha" a intenção do Kremlin de celebrar a vitória soviética sobre os nazistas "em uma zona de conflito como a Crimeia", assim como a tentativa de "instrumentalizar a história".

"Faz alguns anos estive em Moscou em um 9 de maio para mostrar o que aprendemos com a história. Por isso me parece vergonhoso que nesses momentos, em meio a uma crise como a atual, se pense em instrumentalizar essa data", disse a chanceler, que, no entanto reconheceu a relevância da data para a Rússia.