“Quando estamos em crise, pedimos até para Jesus voltar”

Ministro Gilberto Carvalho diz que movimento “volta Lula” é momentâneo e que ex-presidente só deverá concorrer em 2018

“Em momentos de crise política, pedimos até a volta até de Jesus Cristo”. É assim que o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, tenta botar um fim no movimento “volta Lula”.

Em uma rápida entrevista ao EL PAÍS quando deixava o ato do dia do trabalhador da Força Sindical nesta quinta-feira, em São Paulo, Carvalho afirmou que o ex-presidente já descartou 100% a possibilidade de ser candidato na eleição. “O Lula já falou isso diversas vezes. Não sabe mais o que fazer para convencer a todos de que não será candidato”, disse.

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Parece difícil acabar com esse rebuliço em torno do ex-presidente. Não são apenas os partidos aliados ao Governo federal que tem pedido o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva, como o PR e o PTB. No ato dos trabalhadores desta quinta-feira, o deputado federal oposicionista Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, criticou a presidenta Dilma Rousseff por não comparecer ao encontro e chamou para subir ao palanque dois humoristas do programa Pânico, da TV Bandeirantes. Um deles é sósia de Dilma e o outro, de Lula. O comediante que imita Dilma pegou o microfone e perguntou: “Quem de vocês vota em mim”, poucos levantaram a mão. Na sequência, questionou quem votaria em seu companheiro Lula, o outro sósia. A maioria levantou a mão. No mesmo momento, Paulinho começou a rir e expulsou os dois do palco. Situação semelhante aconteceu no edição de 2013 deste evento.

Tido com um dos principais aliados de Lula, Carvalho está no Governo há mais tempo que Dilma. Ex-seminarista, ex-metalúrgico e bacharel em filosofia, ele foi chefe de gabinete de Lula por oito anos e, no fim de 2014, completará seu 12º ano no poder. Diz que 2006 foi um dos anos mais difíceis para o PT, no ano da campanha de reeleição em que Lula teve de lidar com o escândalo do mensalão (pagamento irregular a parlamentares). Foi nessa época que alguns petistas pediram até a "volta de Jesus" para amainar a crise e diminuir os problemas do partido, conta Carvalho. Para estancar agora os pedidos por Lula, o ministro afirma que é preciso controlar o empecilho da Petrobras, acusada de irregularidades na compra de uma refinaria americana, e controlar a inflação, que vem aterrorizando a gestão Rousseff.

Carvalho diz que 2006 foi um dos anos mais difíceis para o PT, no ano da campanha de reeleição em que Lula teve de lidar com o escândalo do mensalão

Desde 2010, Carvalho é uma das principais pontes de Lula com Rousseff e conselheiro de ambos. Nos últimos meses tem representado a presidenta na maioria dos encontros com movimentos sindicais, que demonstraram certa insatisfação com a gestão dela. De vários militantes escuta o pedido de “volta Lula” e sempre diz: “Repito, ele não quer voltar agora. Agora, por mim, ele voltaria só em 2018, para completar um ciclo e depois renovar, porque isso é importante também”.

Se Dilma Rousseff for reeleita e Lula vencesse a eleição de 2018 o PT completaria 20 anos de poder (2003-2023). Essa conversa de 20 anos de poder existe desde 1989, quando Lula perdeu a eleição presidencial para Fernando Collor. É o grande temor da oposição brasileira.

Escudo do Governo

Além do diálogo com os sindicalistas, cabe a Carvalho iniciar um processo de convencimento de que a Copa do Mundo será benéfica para o país. Para onde vai, carrega uma cartilha de 12 páginas chamada “O Brasil já ganhou com a Copa”. Nela, há dados sobre o quanto tem sido gasto e como o país espera impulsionar seu turismo. Ameniza as críticas de que alguns estádios, como o Mané Garrincha de Brasília, serão elefantes-brancos e que não haverá um legado para o país, apenas para os clubes beneficiados pelas obras em suas arenas.

“Temos que admitir que falhamos na comunicação sobre os benefícios da Copa. Agora, temos de correr atrás do tempo perdido”, afirma Carvalho fazendo um mea-culpa.

Sobre os protestos contra o torneio, ele diz que é um movimento natural do qual participam dois tipos de pessoas: as que não estão bem informadas dos benefícios do evento (“por nossa culpa”, frisa ele) e as que já têm uma tendência para se manifestar independentemente do Governo. “Estamos enfrentando o mesmo que o presidente Juscelino Kubitscheck enfrentou quando anunciou que iria construir Brasília [na década de 1950]. Pode parecer algo ruim para o país, mas depois ficará provado que não será.”

Carvalho ainda dá um recado aos manifestantes: “Aceitamos os protestos. Achamos que eles são democráticos e importantes, mas estamos aparelhando as polícias para reprimir os atos violentos sem gerar mais violência”.