CRISE NA UCRÂNIA

O Governo de Kiev admite a perda de duas províncias no Leste

O presidente interino da Ucrânia reconhece que Donetsk e Lugansk estão “fora de controle” A inação da polícia permitiu o avanço dos rebeldes, segundo TurchInov

Ativistas entram em confronto com policiais na porta do Parlamento em Kiev.
Ativistas entram em confronto com policiais na porta do Parlamento em Kiev.ANDREW KRAVCHENKO / POOL (EFE)

A debilidade institucional do Governo interino da Ucrânia ficou clara nesta quarta-feira, quando o presidente interino do país admitiu abertamente a absoluta perda de controle sobre as duas províncias insurgentes do leste, Donetsk e Lugansk, nas mãos de ativistas pró-russos. As declarações do chefe de Estado interino, Alexandr Turchinov, também abrem a perspectiva de que as eleições de 25 de maio não sejam realizadas devido ao estado de anarquia pré-bélica que vigora em grande parte do leste ucraniano, onde em 6 de maio milicianos “separatistas” – a denominação de Kiev para os pró-russos –iniciaram uma onda de ocupações armadas de edifícios públicos, incluindo mais dois nesta quarta-feira em Gorlovka, ao norte de Donetsk.

“Sinceramente, hoje as forças de segurança não são capazes de assegurar o controle dessas duas regiões. A polícia local está impotente, olha para outro lado ou diretamente colabora com os ocupantes. É difícil de assumir, mas é assim”, disse Turchinov em reunião com governadores. Pouco antes, na sede provisória da Administração Provincial de Donetsk, seu porta-voz, Ilia Suzdalev, queixava-se da “estranha postura” do Governo interino, “incapaz de assegurar a defesa e a segurança da região, mas também de atirar a toalha e dizer à Rússia: ‘Adiante, todo seu, pegue’, para evitar que corra o sangue” – uma afirmação que, na boca de um funcionário supostamente leal a Kiev, parece no mínimo surpreendente.

Com a cidade de Slaviansk praticamente em estado de guerra, mais seu satélites de Konstantinovka e Kramatorsk – que compõem com a primeira uma conurbação de focos rebeldes –, não é de se estranhar que as autoridades locais de Donetsk tenham cancelado de última hora na quarta-feira uma manifestação em prol da unidade da Ucrânia, para evitar incidentes como os que foram registrados em uma passeata semelhante na segunda-feira. Os acessos norte e sul da cidade – a maior da região, com um milhão de habitantes – estão interrompidos por postos de controle, compartilhados na prática por forças regulares e insurgentes. “Procuramos ter um contato fluente com a polícia para que não se produzam incidentes nos controles rodoviários”, explica Miroslav Rudenko, dirigente do Exército Popular do Donbas, um dos membros do colegiado que dirige a República Popular de Donetsk, proclamada pelos rebeldes em 7 de abril e acantonada na sede da Administração Provincial desta cidade.

As forças pró-russas têm o controle de uma dúzia de cidades no leste da Ucrânia

O virtual abandono de funções da polícia, constatado por Turchinov, era um segredo de polichinelo em Donetsk, onde os insurgentes entram e saem à vontade em outros edifícios, como a prefeitura, a promotoria ou a emissora local de rádio e TV, na qual na segunda-feira desligaram o sinal de alguns canais ucranianos. “Consideramos que é desnecessária uma presença constante [da polícia em edifícios públicos], porque temos contato direto com a polícia, que teoricamente cumpre ordens de Kiev, mas na prática está conosco, com o povo”, salienta Rudenko, a cujo grupo pertence Serguei Tsyplakov, um dos líderes separatistas incluídos na terça-feira na lista de sanções da UE. Outro personagem ligado ao Exército Popular do Donbas é o chefe militar rebelde de Slaviansk, Igor Strelkov, a quem seu correligionário Rudenko apresenta como “comandante de toda a região e também do futuro Exército da Novorossia”, a entidade geográfico-cultural herdada do império czarista e revitalizada pelo presidente russo, Vladimir Putin.

Desde o primeiro dia, a polícia exibiu em numerosas ocasiões sua atitude de complacência durante as ocupações de sedes governamentais, como na terça-feira em Lugansk e na quarta em Gorlovka. Pelas ruas de Donetsk percebem-se esporádicas patrulhas de polícia local, mas não há sinal de farda – as regulares – em torno do edifício da Administração Provincial, onde habitam permanentemente cerca de 500 pessoas, entre voluntários e ativistas, “e em especial gente armada, que não abandona o imóvel em nenhum momento”, segundo Rudenko, que na vida civil é um historiador de pouco mais de 30 anos.

Com as eleições presidenciais do próximo 25 de maio por um fio, o da pressão crescente dos pró-russos, os preparativos para o referendo autonomista do leste avançam a passos firmes. A pergunta é unívoca – “Você apoia a independência da República de Donetsk?” –, e as opções de resposta são apenas duas, recorda Rudenko. “Depois de proclamar as Repúblicas [de Donetsk e Lugansk], poderemos cooperar entre nós no marco de uma confederação, a Novorossia”, vaticina. Em outro extremo da cidade, Suzdalev, porta-voz da Administração Provincial, confirmava as palavras de Turchinov sobre a perda de controle do Estado e a inação da polícia. “Em alguns dias, conforme prevê a lei eleitoral, as listas de votantes [para a eleição de 25 de maio] serão afixadas nos colégios, e aí virão os pró-russos, as arrancarão sem resistência [policial] alguma e as levarão para que lhes sirvam de censo no referendo”, dizia Suzdalev, encolhendo os ombros.

As Forças Armadas ucranianas farão manobras militares no centro de Kiev durante a noite de quarta-feira

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