Moscou adverte que defenderá os russos do leste da Ucrânia

O chanceler Lavrov cita como exemplo a guerra contra a Geórgia por causa da Ossétia do Sul, em 2008

Um miliciano pró-russo nesta quarta-feira no centro de Sloviansk.
Um miliciano pró-russo nesta quarta-feira no centro de Sloviansk.S. Grits (AP)

A Rússia não abandonará os russos da Ucrânia e reagirá se eles forem agredidos. “Se formos atacados, certamente responderemos. Se nossos interesses, nossos legítimos interesses, os interesses dos russos forem atacados diretamente, como foram na Ossétia do Sul, por exemplo, não vejo outra saída senão responder de acordo com o direito internacional”, disse nesta quarta-feira o chanceler Serguei Lavrov em uma entrevista ao canal governamental de televisão RT. “O ataque aos cidadãos russos é um ataque contra a Federação Russa”, acrescentou o chefe da diplomacia do Kremlin.

Em suas advertências, Lavrov se referiu à breve guerra entre a Geórgia e a Rússia em agosto de 2008, quando Moscou enviou suas tropas à Ossétia do Sul para defender os habitantes daquele território, depois que o então líder georgiano, Mikhail Saakashvili, iniciou uma incursão militar para submeter a província e enviou tanques para controlar os civis de Tskhinvali, a capital regional. A Ossétia do Sul, um dos territórios problemáticos legados pela URSS, recusou-se a se subordinar à Geórgia já desde antes da desintegração da União Soviética, em 1991. Depois da guerra de agosto de 2008, a Rússia reconheceu a Ossétia do Sul (junto com a Abkházia) como um Estado independente, embora a maior parte da comunidade internacional continue considerando formalmente que ambos os territórios são parte da Geórgia.

A situação do Donbas (a bacia do rio Donets, que inclui as províncias de Donetsk e Lugansk) é diferente da que havia na Ossétia do Sul. O Donbas nunca foi questionado como parte de Ucrânia, e os russos (chamados de russki, ou seja, gente de cultura e língua russa) que aqui vivem têm majoritariamente a cidadania ucraniana, diferentemente da população sul-ossétia, à qual Moscou durante anos distribuiu passaportes em profusão.

Embora a comparação de Lavrov seja imprecisa, e as analogias, inexatas, suas palavras parecem uma advertência ao Ocidente de que o Kremlin não deixará os russos abandonados e que, se for preciso, atuará para defendê-los. Também parece uma mensagem de Moscou aos cidadãos do leste da Ucrânia e especialmente aos ativistas federalistas e separatistas que convocaram um referendo de autodeterminação para 11 de maio. De certo modo, é também uma réplica com sinal invertido da mensagem de apoio que o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, ofereceu na véspera em Kiev às autoridades provisórias da Ucrânia e aos cidadãos que as apoiam.

Os ativistas da denominada República Popular de Donetsk (RPD) estão preparando a consulta que, segundo as últimas informações, fará referência à “independência” da província, mas não sobre sua incorporação à Rússia ou à União Alfandegária, outras das possibilidades que foram cogitadas e que aparentemente ficaram para mais adiante. As bandeiras russas são numerosas nos edifícios e postos de controle da RPD, mas esta correspondente tem a impressão de que foram eclipsadas em parte pelas insígnias locais (a da RPD e a bandeira dos trabalhadores da mineração).

“Ainda não ganhamos a ajuda de Moscou. O Kremlin decidirá depois do referendo se nos reconhece e nos apoia. Se obtivermos uma maioria e Kiev se resignar a perder a região, então não haverá conflito. Mas, se Kiev não se resignar, Putin não pode nos deixar sozinhos”, diziam fontes vinculadas às Forças de Intervenção Especial (a antiga Berkut) com responsabilidades de defesa na RPD.

“Mas, independentemente de nos ajudarem ou não, não retrocederemos e estamos dispostos a morrer antes de nos submetermos a um regime ilegítimo, que não tem nenhuma intenção de respeitar nossos interesses”, declararam. Essas fontes consideraram que um dos maiores perigos para a sua causa são as “provocações” destinadas a “criar o instinto de vingança e a vontade de agredir” entre os militares ucranianos, reticentes em “atacar a civis” no marco de uma “operação antiterrorista” na qual, “segundo a lei, eles só estão autorizados a ter funções auxiliares”, disseram as fontes. O estado de exceção, que as autoridades não declararam, exigiria a aprovação do Parlamento, recordaram.

As autoridades provisórias da Ucrânia estão tentando impedir que se realize o referendo e bloquearam o acesso às listas de eleitores, assim como fizeram na Crimeia num esforço para impedir a consulta separatista de 16 de março.

Dos acordos de 17 de abril assinados em Genebra por Rússia, EUA, UE e Ucrânia já não parece restar nem a sombra. Lavrov qualificou de “criminoso” o uso da força contra os cidadãos ucranianos e a ordem dada na terça-feira pelo presidente interino, Olexandr Turchinov, para a retomada da dita “operação antiterrorista”. “Turchinov declarou quase um estado de exceção e ordenou ao Exército que disparasse contra as pessoas”, disse Lavrov.

O chanceler russo negou que haja presença militar do seu país em território ucraniano, mas admitiu que os contingentes militares foram ampliados nas zonas fronteiriças da Rússia, embora isso tenha ocorrido como parte de exercícios anunciados previamente e sob amparo do direito internacional. “Há cidadãos russos a título particular, inclusive cossacos do sul da Rússia, mas não há tropas russas”, afirmaram as fontes em Donetsk.

Ironizando a visita de quarta-feira do premiê ucraniano, Arseni Yatseniuk, ao Vaticano, Lavrov disse que Yatseniuk faria melhor se visitasse o sul do seu país e se reunisse com os protagonistas dos protestos. O ministro russo tampouco poupou acusações aos EUA, considerando “muito significativo” que a retomada da ofensiva contra os rebeldes tenha coincidido com a visita de Biden a Kiev, já que o início dessa operação havia ocorrido imediatamente depois de o chefe da CIA, John Brennan, visitar a capital da Ucrânia. Segundo Lavrov, as “soluções pré-cozidas” de Washington não podem solucionar uma crise que os EUA não entendem. Na opinião do ministro, Washington deveria se desvincular publicamente dos partidos Liberdade e Setor Direito, que a Rússia considera “extremistas, chauvinistas e terroristas”. “Na opinião dos EUA , esses partidos fazem parte da normalidade política, e isso não é verdade”, disparou.

Paralelamente, o serviço de Guarda de Fronteiras da Ucrânia informou à agência Liga que foram cavados 600 quilômetros de trincheiras contra tanques e houve reforços nas construções de engenharia.

Arquivado Em: