crise na ucrânia

Os rebeldes pró-Rússia em Donetsk ignoram o acordo para o desarmamento

As milícias na região leste da Ucrânia exigem a renúncia do Governo de Kiev

Barricada em frente à Prefeitura de Mariupol.
Barricada em frente à Prefeitura de Mariupol.Sergei Grits (AP)

Os rebeldes pró-Rússia na Ucrânia que nos últimos dias tomaram várias instalações e edifícios públicos de Donetsk (no leste do país) desafiam o pacto alcançado na quinta-feira em Genebra entre EUA, Ucrânia, a União Europeia e a Rússia, no qual Moscou se comprometeu com a deposição das armas por parte das milícias. Mas os rebeldes separatistas disseram, segundo declarações à BBC feitas por seu porta-voz, Alexander Gnezdilov, que o governo de Kiev é "ilegal" e que não abandonarão sua posição até que o Parlamento se dissolva e a administração renuncie.

Em Slaviansk, grupos de rebeldes armados permanecem entrincheirados em uma delegacia e construíram uma barricada de pneus fora dela. Na capital da região, Donetsk, as milícias reforçaram seu desafio ao acordo de Genebra fazendo soar o hino nacional russo a todo volume nas ruas.

Um dos líderes da autoproclamada República Popular de Donetsk, Denis Pushilin, destacou nesta sexta-feira que a sua entidade não participou nas conversas de Genebra e que, portanto, não cumprirá o acordo e "perseverará" em sua luta pela autonomia da região. Pushilin deixou claro que o ministro de Assuntos Exteriores russo, Serguei Lavrov, "não assinou nada" em representação dos habitantes de Donetsk, senão em nome da Rússia, de forma que o acordo não os representaria.

A candidata à Presidência ucraniana Yulia Timoshenko chegou hoje a Donetsk para se reunir com o governador da região e está prevista a realização de uma coletiva de imprensa, informa de Donetsk a correspondente Pilar Bonet. Timoshenko está na contramão do uso da força contra os pró-russos armados que têm se sublevado em várias regiões do sudeste do país. "A primeira via de solução, o imediato uso da força, desembocará quase que com certeza em um derramamento de sangue em larga escala e, muito provavelmente, na consequente agressão por parte da Federação Russa", disse Timoshenko ao canal de TV Ukraína.

O compromisso alcançado em Genebra obriga Moscou a propiciar o desarmamento das milícias pró-Russa no leste da Ucrânia. Em troca, Kiev elaborará uma Constituição que consagre a organização federal do país e o respeito a todas as minorias. Esse objetivo, ainda por ser concretizado, representa mais do que todas as partes antecipavam, inclusive durante as horas em que os quatro mandatários (Kerry e Ashton mais o ministro russo de Exteriores, Lavrov, e seu homólogo ucraniano, Andrei Deshchytsia) estiveram reunidos em Genebra.

O encontro acabou precedido por uma escalada verbal do presidente russo, Vladimir Putin, durante uma entrevista na TV. Também pelas palavras do primeiro-ministro ucraniano, Arseni Yatseniuk, que dizia confiar pouco no diálogo. A insistência dos quatro negociadores, reunidos na quinta-feira durante quase sete horas em um hotel da cidade suíça, produziu um salto adiante.

O presidente norte-americano, Barack Obama, avisou nesta madrugada a seu homólogo russo, Vladimir Putin, que espera ver que Moscou cumpra sua parte do trato para reduzir a tensão na Ucrânia, já que, em caso contrário, serão estendidas as sanções contra Moscou. "Minha esperança é de que vejamos avanços reais nos próximos dias, mas não podemos estar certos disso dado o comportamento anterior (da Rússia), pelo qual estamos preparados para responder se virmos novas interferências", destacou Obama em uma entrevista coletiva não programada.