FUTEBOL INTERNACIONAL

Os 35 anos do 'Poderoso Chefão' no futebol argentino

Julio Grondona, de 83 anos, se mantém à frente da Associação do Futebol Argentino (AFA) desde 1979

O dirigente da AFA, Julio Grondona.
O dirigente da AFA, Julio Grondona.

Nos últimos 35 anos houve muitos gols, derrotas, fracassos e mortes, mas o presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA) continuou o mesmo. Neste mês se completou mais um aniversário desde que Julio Grondona assumiu em 1979 a chefia do esporte mais popular de um dos países onde melhor se joga. Foram 35 anos nos quais a Argentina ganhou sua segunda e última Copa do Mundo (1986), a violência se estendeu nos campos e os clubes aprofundaram seu endividamento, embora nem tudo que é bom ou ruim no futebol do país possa ser atribuído a este longevo dirigente de 83 anos, antigo proprietário de uma loja de ferragens do sul da Grande Buenos Aires, além de vice-presidente executivo da FIFA.

Está claro que a sucessão no poder não é um problema que preocupa Grondona, que assumiu o seu cargo um ano após a última ditadura militar de seu país (1976-1983) organizar a Copa de 1978. Talvez tenham preocupado mais o dirigente as denúncias sobre lavagem de dinheiro e fraude tributária que têm recaído sobre ele, embora nunca tenham avançado na Justiça. Em 2011, Grondona admitiu: "Nos 32 anos que tenho na AFA tive mais denúncias que Al Capone e nunca recebi uma multa por essas denúncias". Não faz muito tempo o gravaram com uma câmera escondida criticando um jornalista e um produtor de TV: "Se puder matar, vou matá-los". Não é por acaso que aqueles que não gostam dele o chamem de 'O Poderoso Chefão'. Mas os clubes, por amor, conveniência ou temor, já o elegeram seis vezes e apenas uma vez ele enfrentou um voto contrário. Em 2015 acaba o seu último mandato.

Grondona fundou em 1957 um pequeno clube em uma localidade da Grande Buenos Aires, Sarandí: o Arsenal, que desde 2002 disputa a Primeira Divisão e conseguiu um título nacional e uma Copa Sul-Americana. O estádio do Arsenal leva o nome e o sobrenome do presidente da AFA. Mas Grondona também foi dirigente de um clube vizinho bem mais importante, o Independiente, de Avellaneda, o qual presidiu de 1976 até chegar à chefia da AFA. A tradicional equipe vermelha caiu no ano passado para a segunda divisão.

Nos 35 anos de domínio de Grondona, os cinco clubes grandes da Argentina (Boca Juniors, River Plate, Independiente, Racing e San Lorenzo) mal superaram em títulos as demais equipes, tendo ganhado pouco sobretudo nos últimos anos, o que indica uma Liga mais democrática que as principais da Europa. Além disso, dos cinco grandes, quatro, com a exceção do Boca, caíram pela primeira vez na história ao longo desses 35 anos. Quando há alguns caiu o River, seu então presidente, Daniel Passarella, admitiu uma briga com 'O Poderoso Chefão' e as suas consequências: "Após discutir com Grondona, nem Guardiola ou Mourinho salvariam o River".

Quando o River caiu, seu então presidente, Daniel Passarella, admitiu uma briga com 'O Poderoso Chefão' e as suas consequências: "Após discutir com Grondona, nem Guardiola nem Mourinho salvariam o River"

Alguns culpam o presidente da AFA de inventar o sistema de rebaixamentos à segunda divisão pela média de pontos das últimas três temporadas ou a distribuição da Liga em duas miniligas de apenas 19 partidas, como se fossem criações para que os grandes evitassem a queda e ganhassem mais torneios. Mas os resultados demonstram que não só os grandes se beneficiaram de tais argentinismos, copiados depois em outros países latino-americanos. O jogo do Campeonato Argentino é, de modo geral, medíocre, pois não só as estrelas, senão os jogadores de menor nível, migram para a Europa. Mas esse fenômeno que tem sido instituído desde o final dos anos 80 não é responsabilidade de Grondona, senão da economia argentina, e além disso também se repete em outros países latino-americanos. Mas um dado não menos importante é que, em 35 anos, os clubes argentinos ganharam a Libertadores de América dez vezes. Nos 18 anos anteriores à administração de Grondona, o país somava 12 troféus continentais.

Os clubes da primeira divisão argentina somam mais de 200 milhões de euros (cerca de 620 milhões de reais) de dívida, em especial os grandes. A corrupção é o denominador comum de vários de seus dirigentes. Na Argentina as equipes não são sociedades anônimas, senão associações civis que se veem prejudicadas por administrações ruins ou presidentes que unicamente buscam ampliar suas riquezas ou conquistar fama política. O passivo dos clubes argentinos cresceu bem mais que a inflação desde 2009, apesar de que, naquele ano, Grondona pactuou com o Governo de Cristina Fernández de Kirchner a estatização da transmissão de todos os jogos do campeonato, no movimento chamado de 'Futebol para Todos'.

Os clubes recebem mais de 70 milhões por ano, o dobro do que recebiam quando o futebol só podiam ser visto pelos telespectadores que pagavam por ele. Grondona cultivou durante cerca de 20 anos um contrato de televisão com a produtora Torneos y Competencia, criada pelo empresário paraguaio Carlos Ávila e que em 1994 adicionou como seu sócio o principal grupo de meios de comunicação da Argentina, o Clarín. Mas, em 2009, por sua briga com o Clarín, os Kirchner impulsionaram Grondona a romper esse contrato e assinar outro com o Estado. Presidente das comissões de Finanças e de Mercado e Televisão da FIFA, Grondona foi quem nomeou como treinador da seleção argentina Carlos Bilardo, que, com Diego Maradona como astro, conquistou o segundo título mundial da Argentina e alcançou o vice na Itália, em 1990.

Desde então, a Argentina não voltou mais a uma semifinal de Copa, meta que também não conseguiu entre 1934 e 1974. Anos depois das eliminatórias para a o Mundial dos EUA, disputado em 1994, Maradona confessou: "Grondona nos disse que nessa partida (pela repescagem) não havia controle antidoping". Vários treinador passaram pelo banco: de Alfio Basile e Passarella até Marcelo Bielsa, José Pekerman e Maradona, mas nenhum conseguiu o objetivo ambicioso de levantar a Copa, objetivo que sempre pesa sobre os argentinos, incluindo agora Alejandro Sabella e Lionel Messi. De 12 edições da Copa América disputadas em 35 anos, a seleção ganhou só duas.

Talvez o mais triste nesta história de vitórias e fracassos seja a violência dos 'barras bravas', os grupos de torcedores radicais do país e que levaram à proibição da entrada de visitantes em estádios. Cerca de 171 torcedores fanáticos foram assassinados nos campos e em seus arredores na história do futebol argentino, e o panorama não melhorou em nada ao longo destes 35 anos. Grondona não se sente responsável. Os clubes contam com dirigentes, muitos deles políticos, e jogadores ameaçados e submetidos aos desígnios dos mais violentos. Uma vez perguntaram a Grondona o motivo de não haver árbitros judeus na primeira divisão, em um país que tem a quinta maior comunidade judaica do mundo. O presidente da AFA respondeu: "Os judeus não gostam das dificuldades". Um advogado o denunciou por esse comentário, mas Grondona resistiu, como sempre, em 35 anos.