O cabeleireiro britânico que desafiou o todo-poderoso líder norte-coreano

A embaixada em Londres intervém para que um barbeiro retire um cartaz de sua vitrine Nele, Kim Jong-un é visto como o garoto-propaganda de uma publicidade que promove uma oferta

Karim Nabbach, que usou a imagem do líder norte-coreano.
Karim Nabbach, que usou a imagem do líder norte-coreano.

Quando Mo Nabbach pendurou um poster caseiro na vitrine de seu salão de beleza a última coisa que ele podia imaginar é que acabaria na lista negra da Coreia do Norte. Este barbeiro do bairro londrino de Ealing oferecia 15% de desconto para os cortes masculinos durante o mês de abril. Seu filho Karim desenhou o cartaz compondo uma fotografia de Kim Jong-un com a frase: “Bad hair day?" (Dia de cabelo desastroso?, em uma tradução livre). E imprimiu um poster gigantesco com a imagem publicitária.

A campanha caseira cumpriu com o objetivo de chamar a atenção, embora não da forma que eles buscavam. Justo no dia após que penduraram o grande cartaz, pai e filho receberam a visita de dois empregados da embaixada norte-coreana, localizada, embora eles não sabiam, em um modesto anexo a dez minutos do negócio dos Nabbach. Os oficiais trajados com o semblante muito sério tomaram notas, tiraram fotografias e pediram ao dono do estabelecimento que retirasse o anúncio, já que ele faltava com respeito “ao líder de uma nação”. Nesse momento, começou um morde e assopra entre o barbeiro e os emissários da embaixada. O primeiro quis aplicar a racionalidade explicando que costuma utilizar imagens de gente famosa para dar publicidade a suas promoções. “Já penduramos fotos de Lady Di, Victoria Beckham e todo tipo de celebridades”, argumentou. E concluiu: “Isto não é a Coreia do Norte, é Inglaterra”. Depois disso, os homens pediram que ele se identificasse e o cabeleireiro se negou. Acabou o episódio pedindo que eles saíssem do local. Em seguida, o dono do salão denunciou o incidente na delegacia local.

Os modos ameaçadores dos oficiais surtiram efeito e, durante um tempo, os Nabbach tiraram o cartaz da vitrine. No entanto, seus clientes habituais os animaram para que desafiassem os inquisidores e, finalmente, voltassem a colocá-lo. “Aqui temos uma democracia,” declarou o cabeleireiro aos meios britânicos. A polícia confirmou que está em contato com a embaixada norte-coreana e que tomou depoimento de ambas as partes. Apesar disso, a Scotland Yard decidiu não cuidar do assunto. A embaixada norte-coreana preferiu não fazer comentários sobre o incidente.

Até o momento, nenhum cliente pediu para imitar o rebuscado corte lateral e a franja repartida ao médio de Kim Jong-un, embora não seja raro ver um corte de cabelo parecido entre modernos e estrelas de reality da capital britânica. “O que queríamos era atrair os clientes. [O de Kim Jong-un] é um penteado muito popular, mas não vi ninguém muito conhecido usar”, contou Karim Nabbach à imprensa britânica. “Talvez, se David Beckham o adotasse, eu poderia ter utilizado a imagem dele, mas a verdade é que não acho que ele tenha muita vontade disso”.

Nabbach filho, de 26 anos, teve a ideia de usar a imagem do líder norte-coreano após ler na Internet que os universitários do país seriam obrigados a  usar o mesmo corte que o líder. Essas informações, que surgiram da agência de notícias Free Radio Ásia, não foram confirmadas e a Associated Press duvida de sua veracidade. No entanto, o que é verdadeiro é que o regime norte-coreano tem uma longa fixação com o estilo de cabelo de seus cidadãos. Há alguns anos, foi divulgado que o governo do país oferece uma lista de cortes capilares entre os que os cidadãos escolham, mas não têm direito a usar outro que não esteja na lista. As mulheres contam com 18 opções, enquanto os homens só podem escolher ente 10. Há alguns anos, um programa de televisão veiculou uma série de programas nos quais animava a população masculina a levar o cabelo curto conforme o “estilo de vida socialista”, com a exceção dos homens idosos, que podem deixá-lo longo para ter a possibilidade de penteá-lo sobre a careca, uma moda conhecida como "código de barras".