CRISE DA DÍVIDA

Grécia supera as expectativas no regresso ao mercado da dívida

O país emite 1 bilhão a mais do que o previsto, com 3 bilhões em títulos a cada cinco anos O governo confirma que os juros com que os títulos foram lançados baixaram para 4,95% A demanda chega a 20 bilhões de euros (60,6 bilhões de reais) e 90% dos pedidos vêm do exterior

O ministro grego das Finanças (à esq.), Yannis Stournaras, em Atenas.
O ministro grego das Finanças (à esq.), Yannis Stournaras, em Atenas.LOUISA GOULIAMAKI (AFP)

O retorno da Grécia ao mercado com sua primeira emissão de títulos depois do resgate de 2010 –embora seja em uma operação planejada e executada com os bancos– provocou uma grande expectativa. A operação, considerada como uma boa prova para avaliar até que ponto a crise da dívida foi superada, encontrou uma boa resposta entre os investidores, que, segundo os próprios bancos, solicitaram 20 bilhões de euros (60,6 bilhões de reais) em papéis do Estado grego. No final, o Governo grego confirmou por meio de um comunicado do Ministério das Finanças que havia emitido 3 bilhões, 1 bilhão a mais do que o previsto. E também afirmou que os juros da emissão baixaram do patamar de entre 5,3% e 5,4% calculado previamente, para 4,95%, graças justamente ao apetite dos investidores. Segundo as mesmas fontes oficiais, nove de cada dez compradores eram estrangeiros.

Quanto a isso, o governo de Antonis Samaras avaliou o regresso do país aos mercados da dívida antes do previsto como sinal de que pode cumprir seus compromissos depois de encarar a maior reestruturação de dívida da curta, porém dinâmica história do euro. A Grécia, que recebeu dois resgates de seus parceiros europeus, de mais de 218 bilhões de euros (667 bilhões de reais), e está a caminho do terceiro, conseguiu em 2013 seu primeiro superávit estrutural desde que a crise irrompeu.

Apesar disso, surpreende o apetite dos investidores pela dívida de um país cuja dívida pública é a mais alta do euro ao bater em 180% de seu PIB e que sofreu um abatimento sem precedentes. Mas os analistas explicam que os potenciais compradores confiam em que, se os problemas reaparecerem, o país voltará a contar com a ajuda de seus parceiros europeus.

“Comprar títulos gregos não é um investimento para todo mundo, talvez só para os mais aventureiros e sem medo do rico, mas a sólida demanda sugere que esse tipo de investidor está aí fora”, afirma Ishaq Siddiqi, analista da ETX Capital, em uma nota divulgada pra seus clientes. Em sua opinião, “grande parte dessa demanda responde à confiança em que a Alemanha e o BCE vão fazer tudo o que for necessário para salvaguardar a economia da zona do euro”. “De certo modo se poderia dizer que os investidores estão comprando títulos gregos garantidos pelo BCE e Berlim.” Em qualquer caso, esse analista dá as boas-vindas a uma notícia que põe em relevo a confiança dos mercados financeiros na recuperação da periferia da zona do euro.

Confundir liquidez com solvência

"Não deveríamos confundir liquidez com solvência”, acrescentou Mike Riddel, da equipe de renda fixa da M&G em relação a um dos argumentos apresentados sobre a Grécia desde que revelou seus problemas financeiros ao mundo. “Alguns dirão que é um sinal do final da crise, outros que demonstra o colossal risco moral gerado pelos bancos centrais, que com suas promessas de uma liquidez infinita e de que não permitiriam novos defaults levaram os investidores a esquecer os riscos e optar pelas rentabilidades”, acrescentou este especialista que, de qualquer modo, sentencia que “a Grécia não está solvente”, por isso desaconselha investir em sua dívida.

A emissão, por outro lado, ocorre na véspera da visita da chanceler alemã, Angela Merkel, à Grécia. Coincide também no tempo com a primeira greve geral do ano depois da sucessão de protestos de 2013. Nas últimas horas também houve um atentado com carro-bomba diante da sede do Banco da Grécia. E, além disso, coincidiu nesse momento com um leilão da Irlanda, que junto com Portugal e agora a Grécia, transitaram já pelo caminho de volta aos mercados –-o que deixa o Chipre sozinho –, Itália e Espanha.

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