As ATAS SECRETAS DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL

Berlim e Paris deixam de cumprir acordo feito para apoiar a Grécia

As atas confidenciais do FMI de maio de 2010 revelam que os bancos alemães e franceses se desfizeram da dívida grega apesar das promessas feitas por seus Governos

Manifestantes no parlamento grego em novembro de 2012.
Manifestantes no parlamento grego em novembro de 2012.yannis behrakis / Reuters

Alemanha, França e Holanda, em um dos piores momentos da crise do euro, prometeram que seus bancos apoiariam a Grécia e não se desfariam da dívida grega. Era uma das cartas com as quais jogavam para vencer as importantes resistências do Fundo Monetário Internacional (FMI) em conceder o maior pacote de empréstimos de sua história, segundo as atas do órgão de 10 de maio de 2010, às quais o EL PAÍS teve acesso. Mas os três sócios europeus não cumpriram com  palavra, agravando assim a crise. Nada mais a se provar em um plano de ajuda para um país à beira da bancarrota, as entidades financeiras começaram a desfazer dos títulos que queimavam as mãos.

As decisões tomadas há quatro anos em escritórios de Bruxelas, Washington e Frankfurt deixaram uma profunda marca no sul da Europa. Nascia então uma troika de credores (Comissão Europeia, FMI e BCE) que impulsionou recortes e reformas em troca de empréstimos, primeiro a Atenas, e, mais tarde, a Dublin, Lisboa e Nicósia (capital do Chipre). As atas confidenciais do diretório do FMI do mesmo dia do resgate mostram que as divergências e as dúvidas sobre o sucesso do plano começaram já naquele 10 de maio.

O documento é fundamental não só por mostrar claramente as críticas que países como China, Austrália, Argentina e Brasil apresentaram desde o princípio. O tempo que passou coloca em perspectiva os argumentos usados para que o organismo, então encabeçado por Dominique Strauss-Kahn desembolsasse 30 bilhões de euros. “Os representantes holandeses, franceses e alemães transmitiram o compromisso de que seus bancos comerciais seguiriam apoiando a Grécia e mantendo sua exposição”, assegura o documento “estritamente confidencial”. Mas os dados demonstram justamente o contrário.

As decisões que há quatro anos foram tomadas em escritórios de Bruxelas, Washington e Frankfurt deixaram uma profunda marca no sul da Europa.

Os bancos dos três países tinham no primeiro trimestre de 2010, antes do resgate, mais de 122 bilhões de dólares em dívida grega. Apesar dos compromissos de seus Governos, os bancos alemães, franceses e holandeses desfizeram posições sem duvidar. Venderam a toda pressa, jogando gasolina sobre a crise grega e ajudando que ela se propagasse. No final do ano passado, a cifra caía 72%, até ficar ligeiramente abaixo dos 34 bilhões.

Quando no início de 2012 se tornou evidente que a Grécia se encaminhava de novo à quebra e a troika aprovou ao mesmo tempo um segundo resgate e a quitação da dívida dos credores privados, as entidades alemãs, francesas e holandesas guardavam 66 bilhões em títulos gregos, quase a metade do que tinham quando dois anos antes asseguraram manter o apoio à dívida grega.

O compromisso franco-alemão-holandês não foi a única intervenção europeia. Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda e Dinamarca emitiram um comunicado conjunto no qual apoiavam o empréstimo de dinheiro do FMI para a Grécia.

Muitas das dúvidas dos membros do Fundo terminaram por se tornar realidade. “Alguns representantes (China, Egito e Suíça) insistem no risco de que as análises conjuntas acabem revelando diferenças de critério entre as três instituições representadas”, assinalava o memorando, assinado por Francesco Spadafora, assessor do diretor executivo do FMI. Com o tempo, esses choques se fizeram evidentes. Quando o FMI admitiu que se equivocou ao subvalorizar os efeitos dos recortes na economia grega, a Comissão Europeia se indignou negando qualquer erro.

As críticas recolhidas em um documento de apenas quatro páginas vêm por várias frentes. Por um lado, China e Suíça alertavam sobre a possibilidade de que os prognósticos de crescimento para a Grécia fossem muito otimistas. “Inclusive um ligeiro desvio sobre o cenário base poderia pôr em risco a sustentabilidade da dívida grega”, sustentavam. Para estes temores, os altos servidores públicos do Fundo respondiam que também cabia a possibilidade de que a Grécia crescesse mais do previsto.

Ao mesmo tempo, Argentina, Austrália, Canadá, Brasil e Rússia assinalavam “os imensos riscos” do programa, não só para a Grécia, senão para o prestígio do FMI. Os próprios servidores públicos do Fundo reconheciam que estes perigos eram reais. Muitos faziam questão da possibilidade de repetir erros que o organismo já havia cometido no passado na Argentina e na Ásia. Austrália, além disso, lançava um incômodo à Comissão Europeia, ao assegurar que suas exigências a Grécia pareciam “a lista da compra”.

Outros países apontaram um risco que finalmente se converteu em realidade: a necessidade de conceder uma quitação diante da impossibilidade grega de pagar todas as suas dívidas. “Argentina, Brasil, Índia, Rússia e Suíça sentiram falta de um elemento: deveria ter sido incluída uma reestruturação da dívida com uma quitação para o setor privado”. Finalmente, essa decisão chegou. Mas teve que esperar quase mais dois anos.